O BE pecou no marketing político

04 de julho 2011 - 0:08

Contributo de Ricardo Caldas

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Tenho 30 anos, não sou militante do BE, apesar já ter representado o BE em eleições locais por duas vezes.

Não me sinto, nem me quero sentir filiado a um partido, apesar da lei portuguesa exigir que as pessoas se filiem a um partido para que ele possa continuar a existir, algo que considero completamente anti-democrático, mas isso são outras núpcias.

Fazendo uma breve análise ao resultado das últimas eleições, penso que o BE pecou no “Marketing”. E este Marketing a que me refiro, é ao Marketing político. Não me refiro aos papéis que se entregam, à quantidade de gente que acompanha a digressão dos candidatos pelo país dos. O Marketing a que me refiro é o que permite a que pessoas pensem como uma Sra. (penso que de Braga), que diz ao Francisco Louçã algo como: “Eu gosto muito de si, só tenho pena que seja desse partido.”. Eu pergunto-me como é que é possível situações destas ainda acontecerem neste país.

Há um problema muito grande neste país, que se prende com a educação e com a cultura da população. Quer uma quer outra tem sofrido ataques constantes ao longo dos anos e tem tornado a população cada vez mais ignorante e sem qualquer vontade de se informar. Isto é premeditado, é assim que se controlam as massas.

Criando a sensação de que somos um país de Licenciados, e que quem não o é facilmente consegue um diploma do ensino secundário, transforma a nossa população num poço de falsas virtudes e de fraca educação. Cada vez mais as pessoas estão formatadas para ouvirem os “artistas pop”.

E foi aqui que o BE “falhou”, o BE não tem um “artista pop”, que vista gravata ou utilize brilhantina. Felizmente, no meu entender, essas características estão ausentes no BE e assim devem continuar. Eu não avalio o livro pela capa, ela tem importância, mas chama-me mais a atenção o título do livro.

E é aqui que eu acho que o BE tem de apostar, na comunicação. Acho que o problema está na forma e meios que o BE utiliza para chegar à população. A comunicação do BE tem de passar por ser mais acutilante e fazer-se ouvir. Não pode ser possível, que ao fim de tantos debates televisivos, onde toda a Direita do Parlamento (PS incluído, mas penso que não necessitava de fazer esta referência, uma vez que o PS é cada vez mais um partido de direita assumido), bateu sempre na mesma tecla, incessantemente. A tecla de que o BE não queria pagar a dívida externa. O Francisco Louçã, nas TV, o Miguel Portas e o Fernando Rosas na Internet, entre outros, bem que tentaram mostrar mais do que uma vez que a reestruturação da dívida não é deixar de pagar, mas não adiantou. E no final do processo eleitoral ainda existem pessoas, muitas delas com formação académica, que continuam a dizer que o BE defende que não se pague a dívida externa. Acima de tudo, isto é um problema de comunicação.

A internet é um bom meio de comunicação, contudo os conteúdos são seleccionados pelo público, por isso a informação que interessa acaba apenas por chegar a quem a quer procurar.

A população portuguesa está cada vez mais envelhecida e aí está uma grande parte da população que vota. E eu penso que o BE não chega a essa população. A mensagem tem de passar de forma mais clara e com mais impacto. A comunicação não pode ficar-se pelo site da Esquerda.net, tem de ser viral. Se as pessoas não procuram a mensagem, tem de ser a mensagem a encontrá-las.

As pessoas estão formatadas para ouvir a lenga lenga das dificuldades e dos apertos de cinto, que já vem desde o início dos tempos portugueses. É aqui que temos de intervir, não podemos deixar que este país fique resumido a dois partidos que perpetuam essa história e que cada vez mais se confundem um com o outro.

Penso que não é pelas propostas ou pela liderança que o BE perdeu eleitores. Eu nem sempre concordei com o BE e em questões de pormenor nem sempre votei ao lado do BE, mas acabei sempre por voltar para votar nas questões de interesse global. Não achei que a solução de apoiar o Manuel Alegre fosse a melhor opção e levou-me a cometer o erro de apoiar o falso Nobre.

O povo português é muito estranho, reclama porque o BE está sempre contra o PS e depois reclama porque o BE apoiou o mesmo candidato presidencial que o PS. Não foi a união de esforços que me fez tender para o outro lado, foi mesmo uma questão pessoal contra o candidato. E o BE que sempre me habituou a saber separar o trigo do joio, desta vez não o fez e apoiou um candidato sem carácter.

Mas mais uma vez, nas eleições seguintes conheci as propostas do BE e essencialmente conheci as propostas dos três partidos da direita e voltei a escolher o BE. E é esta liberdade que o BE me apresenta, a de não ter de concordar com tudo, a de poder ser mais um que pensa e que tem vontade de pensar. Porque o BE dá-nos essa oportunidade e faculta-nos informação para isso. Põe à nossa disposição elementos mais do que suficiente para podermos formular opiniões. Mas não podem as pessoas eleitas pelo BE, acharem que são maiores que a instituição, ou tentarem transformar um BE num partido como os outros. O BE não é um partido como os outros, o BE é por essência um partido de confluência de ideias e pensamentos, é formado por pessoas de vários partidos e independentes, por isso, não pode ser visto como um partido onde se faz política. Não é isto que eu quero do BE. Para fazer política já existem muitos, eu quero um partido que tome medidas e apresente soluções.

Mas o problema é que isso não chega a todos. E eu a e é aí que o BE tem de mudar, a comunicação, a forma de comunicar.

Há dias, dizia, Francisco Assis acerca de alguns novos Ministros que “não têm experiência política”. Durante alguns dias, andei a tentar saber o que era a experiência política. Seria saber os vários protocolos necessários para podermos falar com pessoas de fato e gravata? Seria saber os nomes das personalidades da política nacional e mundial? Cheguei a uma pequena conclusão: experiência política é a capacidade de rotular as pessoas e partidos consoante o seu pensamento. E é aqui que eu me revejo com o BE…

A opinião pública é vasta, uns dizem que o BE é comunista, outros que é neo-socialista, outros que é de extrema esquerda, etc. E isto deixa-me contente porque é um sinal do pluralismo do BE. E é assim que eu quero que o BE continue, na sua essência socialista, mas sempre com um cheirinho de que pode ser outra coisa qualquer. Mas acima de tudo o que mais me entristece no meu país, é o facto de as pessoas tomarem os partidos políticos como um clube de futebol, uma vez nascido de um clube, seremos sempre dele, façam dele o que fizerem.

E o que eu espero do BE é isto, que lute para mudar este preconceito. Demonstre que é as pessoas podem votar noutros partidos para além dos consagrados. Que lute para que as pessoas tenham capacidade de crítica e vontade de conhecer. Alterem o português dos textos políticos e cheguem a toda a população, se calhar assim o BE poderá mostrar que não é um mero partido de causas fracturantes (como muitos apregoam), mas sim uma mais valia para este país.

O meu ideal de democracia é ver um Parlamento, onde os deputados votam por convicção nas propostas e não porque “o partido” assim o quer.

Este é o meu contributo para o debate, espero que efectivamente contribua para alguma coisa.

Ricardo Caldas