A PseudoDEMOCRACIA IMPUNE (Parte 1)
Em consciência, todo o militante do BE põe-se hoje em dia a questão:
- Se os objectivos do Bloco, e a sua linha política, são correctos e vão ao encontro das aspirações dos cidadãos, como é que não há um eleitorado que, em número crescente, apoie o advento de uma sociedade justa e solidária?
Graficamente, o que é que tem acontecido?

No gráfico destacam-se dois grupos: os do campo de amplitude 25-50 %, formando os partidos do chamado “centrão” e depois, muito em baixo, os partidos minoritários, passando raramente a fasquia dos 15%. Face à experiência anterior e às de outros países, nomeadamente europeus, de “democracia” consolidada, alguém crê ou vislumbre que, nas próximas décadas e sem que algo de muito extraordinário aconteça, esta situação mude?
Quais os factores que concorrem para as oscilações dentro de cada grupo? Será possível determiná-los ou serão em maioria aleatórios? Em que medida um partido sobe ou desce de grupo, rompendo um ciclo de décadas?
Para os partidos da alternância governativa há no entanto uma regra de ouro, claramente aceite como princípio por qualquer uma das facções: o acesso ao poder (maior votação) de uma facção nunca é por mérito próprio da oposição; é sempre por demérito do partido no poder. Será esta a principal virtude de uma “democracia”? Os cidadãos têm escolha? É jogando com as cartas e as regras impostas pelo regime que as forças de esquerda poderão (um dia?) reverter o sistema? Nós sentimo-nos bem quando acreditamos nisso. Ganhamos força para continuar a lutar.
Apesar das múltiplas interpretações que as diferentes correntes avançam, não cremos ser possível, cientificamente ou próximo disso, identificar os factores de tais flutuações. Qualquer exemplo demonstra, a contrario, essa impossibilidade. Vejamos.
Toda a direita, durante a campanha eleitoral, nunca deixou de reclamar, com ar muito “responsável”, a necessidade de “Austeridade” e “Rigor” na governação. Em boa verdade, e dizemo-lo à posteriori, a esquerda não soube enfrentar vigorosamente estas “virtudes”, apesar de denunciar, embora pouco veemente, em como a dívida foi contraída para camuflar o roubo sobre o trabalho e sobre o erário público. Tendo, ao longo das últimas décadas, sido sonegadas verbas colossais em toda a sorte de esquemas de governação, empréstimos tiveram de ser contraídos para cobrir ou sustentar uma diminuição não rápida do estado social, estado este que seria perfeitamente sustentável com um rigor (aqui sim) e justiça social, sempre delapidada. Será necessário lembrar, embora custe hoje admitir, que havia mais estado social durante os dez anos de Cavaco Silva, do que nos últimos anos do Partido Socialista? A delapidação tinha que ser lenta para encobrir os roubos, os desvios e os negócios das obras e empresas públicas que hoje são apresentados como “dívida” do país.
Durante a campanha, “Austeridade” e “Rigor” sempre foram apresentadas, e vistas pela maioria, como “virtudes”, largamente difundidas e apoiadas como tal pelo batalhão de jornalistas e comentadores de serviço da Classe Dominante (ClassDom), na comunicação social. E por quê virtudes? Porque “Austeridade” é o oposto de “esbanjamento”; consequentemente: “virtude”. “Rigor” é o posto de “desleixo”; portanto, outra virtude.
Neste contexto, quem se opusesse a essas virtudes, não era seguramente de confiança. Assunto arrumado. Mas a questão que persiste é: se tivéssemos visto isso com clareza, o que teríamos feito? Uma hipótese seria a inundação do país com outdoors, com dizeres no estilo:

Teríamos revertido a situação, evitando o desastre? Nada mais incerto, embora mais assertivos. E mais claros não poderíamos ter sido.
Posto isto, abre-se a porta para mais conjecturas. De entre estas há seguramente uma explicação que nos merece especial consideração: a de que o jogo se encontra inteiramente viciado. Porque, em regimes de Classe Dominante, “Democracia” rima com “alternância” dos seus representantes, precisamente porque funciona como um meio de obstrução a qualquer alternativa real ao poder dessa Classe.
E só quando existe uma Classe Média, com peso suficiente e controlada por um Aparelho Mediático, que possa manter uma estrutura social relativamente estável, é que se reconhece a existência de uma “Democracia”. Para além da ClassMed, as restantes massas desfavorecidas, menos ou nada instruídas, de qualquer maneira iliteratas, respeitadoras das classes superiores, largamente abstencionistas no processo eleitoral, fecham completamente o quadro “democrático” da ClassDom. E o resultado é: o voto maioritário das populações contra elas próprias.
Deste modo, quando a situação económica parece mais favorável, com a melhoria dos apoios sociais, a diminuição ou estabilização do desemprego em níveis “suportáveis” (sem grande contestação), as populações votam mais à esquerda, desejando acelerar o processo. Quando as crises surgem ou são provocadas (acontece serem provocadas), uma parte significativa do eleitorado retira o seu apoio à esquerda, com receio de perderem o pouco que ganharam até então.
Ilógico, paradoxal? De uma ou de outra forma, aceite-se ou não a justificação, é o que se constata e o que confirma a noção de “gueto eleitoral”1. A esquerda estará irremediavelmente condenada se não encontrar resposta à existência e funcionamento do Triângulo “Democrático”: ClassDom – ClassMed – ClassPol (Classe política representativa da Classe Dominante)2.
Neste contexto, deve a esquerda depor as armas e, de antemão, declarar-se vencida? Continuar a luta neste quadro não contribuirá para avalizar ad aeternum o sistema “democrático” que interina o poder da Classe Dominante?
Para prosseguir a luta e mudar o sistema, é necessário mudar de quadro. Os povos, mais tarde ou mais cedo, encontrarão o seu caminho. Mas que não seja demasiado tarde. Abordaremos um novo quadro de actuação que se abre às forças de esquerda, na 2ª Parte destes apontamentos.

1 A.CORDEIRO, “Levar o B.E. a sair do gueto eleitoral viciado”, in Debate 2, Documento à VII Convenção do Bloco de Esquerda.
2 Idem.