O Óscar da esperança

07 de março 2012 - 17:18

Prémio para o filme “Uma Separação” é visto como uma honra para a indústria cinematográfica iraniana. História capta a essência da vida quotidiana e das dificuldades de ser honesto num contexto difícil. Por Omid Memarian, da IPS.

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O filme descreve um casal lutador de classe média, cujos valores morais são colocados à prova quando um incidente revela camadas ocultas da personalidade e dignidade dos personagens.

Nova York, Estados Unidos – No contexto das delicadas relações entre Estados Unidos e Irão pelo programa nuclear de Teerão, talvez, nada como o Óscar obtido pelo filme iraniano “Uma Separação” possa ter colocado um sorriso no rosto de milhões de iranianos, mais habituados nos dias de hoje às más notícias.

Escrito e dirigido por Ashghar Farhadi, o filme entrou no dia 26 para a Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos com o prémio de Melhor Filme Estrangeiro. O aclamado e poderoso drama conquistou o primeiro Óscar da história do cinema iraniano com uma complexa história que capta a essência da vida quotidiana e das dificuldades de ser honesto num contexto que torna isso difícil.

Em 1997, o filme “Children of Heaven” (Crianças do Paraíso), de Mayid Mayidi, também foi indicado para um Óscar na mesma categoria, mas perdeu para o italiano “A Vida é Bela”. “A posição de A Separation (título em inglês), ultrapassou o cinema iraniano independente. Agora representa a esperança nacional”, disse à IPS por telefone, de Teerão, a destacada diretora iraniana Tahmineh Milani. “Muitas pessoas precisam que este filme seja realmente um sucesso, como uma esperança, porque a sociedade iraniana está tão deprimida, especialmente os jovens, que o prémio criou esperança e solidariedade entre as pessoas”, ressaltou.

O filme descreve um casal lutador de classe média, cujos valores morais são colocados à prova quando um incidente revela camadas ocultas da personalidade e dignidade dos personagens. Em janeiro, quando o filme ganhou um Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira, Farhadi fez um breve discurso dizendo que os iranianos são um “povo pacífico”.

Farhadi recebeu várias críticas por não aproveitar a oportunidade para enviar uma forte mensagem dessa posição única que concentrava a atenção de milhões de pessoas. Porém, o cineasta, conhecido por não se envolver em questões políticas, teve um discurso mais comprometido na 84ª edição do Óscar, que agradou não só a milhões de espetadores iranianos, como também às autoridades, golpeadas nos últimos meses pela comunidade internacional com duras sanções e ameaças de ataque militar contra as suas centrais nucleares.

“Neste momento, muitos iranianos do mundo estão a ver-nos, e imagino que estejam felizes”, disse Farhadi. “Estão felizes não apenas por um prémio importante, um filme ou um diretor, mas porque quando os políticos trocam termos bélicos e falam de intimidação e agressão, o nome do seu país, Irão, aparece relacionado com sua gloriosa cultura, uma cultura rica e antiga, escondida pelo pó da política”, ressaltou.

Farhadi, que regressaria ao seu país pouco depois de sua viagem aos Estados Unidos, caminhou pela beira do precipício com um discurso neutro, sem identificar o Irão ou o Ocidente como origem das atuais tensões, e concentrou o seu discurso no povo iraniano. “Ofereço com orgulho este prémio à gente do meu país, aquela que respeita todas as culturas e as civilizações e despreza a hostilidade e o ressentimento”, acrescentou.

Merila Zarei, atriz de grande trajetória que atua em A Separation, declarou à IPS que “o facto de o filme ter sido realizado por um grupo de cineastas profissionais, e ter competido com produções de outras partes do mundo, é uma honra para a indústria cinematográfica iraniana e ajuda o cinema e a cultura do nosso país a serem reconhecidas. Talvez este Óscar seja um ponto de partida para que outros acompanhem com seriedade o cinema iraniano”. Trabalhar com Farhadi foi uma experiência extraordinária para Zarei. “Foi como aprender numa sala de aula. Ensinou-nos tantos matizes com habilidade que influiu no fluxo de nosso trabalho. Creio que é o resultado do seu conhecimento, da sua consciência e capacidade”, destacou.

O prémio obtido pelo filme, cuja produção foi de apenas 800 mil dólares, chega num momento em que a indústria cinematográfica iraniana está sob pressão das autoridades, especialmente após as eleições presidenciais de 2009. O governo fechou, em janeiro, a independente Casa do Cinema, a aliança iraniana do sindicato do cinema que tem mais de seis mil membros. Em setembro do ano passado, foram detidos cinco documentaristas, acusados de trabalhar ou cooperar com o serviço persa da BBC (rede de rádio e televisão da Grã-Bretanha). Nunca foram processados pela justiça e acabaram libertados algumas semanas mais tarde.

Um dos mais destacados cineastas do Irão, Jafar Panahi, foi condenado a seis anos de prisão e não pode filmar, nem dar entrevistas e nem viajar durante 20 anos por ter feito um filme sobre os distúrbios ocorridos após as eleições de 2009 e a consequente repressão. O seu companheiro Mohammad Rasoulof foi condenado a um ano de prisão.

“O ambiente foi muito limitado no ano passado e a inapropriada implantação de políticas levou a uma fase negativa no cinema patrocinado pelo governo”, explicou à IPS a cineasta Milani, ao ser consultada sobre a liberdade com que trabalham os realizadores no Irão. “Quando propomos temas e denunciamos falhas e deficiências, preparamos o terreno para o crescimento cultural e social”, afirmou à IPS em sua entrevista por telefone, de Teerão.

“Os artistas não são obrigados a dar remédios à sociedade. Só podem denunciar a dor. Quem deve fazê-lo e tem de encontrar uma solução é a pessoa no cargo de macrogerente do país. São essas críticas que resolvem o problema”, afirmou. “Porém, as autoridades dizem: ‘não temos problemas que devam ser expostos. Quem os expuser é meu inimigo’. Mas não é nada disso. Não me considero uma pessoa que goste de política, mas não posso negar a minha reação diante das falhas ou dos profundos problemas sociais, não posso ficar calada”, ressaltou.

O Óscar culmina um ano de grandes prémios para A Separation, que começou quando foi o grande vencedor do Festival de Berlim 2011, ao ganhar o Urso de Ouro como melhor filme e também receber os prémios de melhor atriz e melhor ator. Após uma sequência triunfal por festivais de diversos continentes, desde janeiro recebeu o César, da academia francesa, para melhor filme estrangeiro, o do Círculo de Críticos de Nova York e o da Associação Nacional de Críticos dos Estados Unidos na mesma categoria, entre outras distinções.

1/3/2012