1- O debate de balanço eleitoral
Depois de um sentimento pesado de derrota eleitoral, o BE atravessa agora um dos momentos de mais profunda reflexão e debate interno. Ainda bem que o faz porque o debate plural e aberto não deve ser tido como uma fraqueza. Ainda bem que o faz e isso, aliás, não deveria ser limitado a um acontecimento excepcional num momento tido como de fraqueza.
Numa altura em que vários debates irromperam pela vida interna do Bloco, é preciso, pois, começar por reafirmar que a centralidade da própria cultura de debate interno alargado e transparente nos fortalece em termos organizativos, ao invés de nos enfraquecer. O que enfraquece um movimento político seria a instalação de um falso unanimismo que disfarçasse os verdadeiros debates que o atravessam, utilizando a pluralidade apenas como uma bandeira para ser agitada. O que enfraquece um movimento político é quando a falta dessa cultura de debate faz dos debates que aconteçam exercícios autocentrados e incapazes de avanços, mesmo autofágicos. O que enfraquece um movimento político é a falta de capacidade de lidar com a crítica interna, caricaturando-a como o inimigo interno, aliado objectivo do inimigo externo.
É, assim, importante começar por reafirmar a necessidade permanente do debate claro e profundo: porque esclarece, forma-nos, responsabiliza-nos, torna-nos agentes da política e não meros/as executantes de uma política decidida de cima para baixo, prepara-nos melhor para agir. E sublinhe-se ainda que este debate que agora acontece será tanto mais proveitoso quanto tenha implicações profundas no futuro do Bloco e não seja mera exorcização dos fantasmas triunfalistas que se instalaram, das crenças mágicas de que as encruzilhadas políticas e sociais se resolveriam facilmente nas urnas eleitorais e de que a disputa da hegemonia se ganharia com a facilidade a partir de um discurso mediatizado que reduziria a pó os seus adversários.
O grande medo da troika
Este debate em concreto tem-se centrado no que leva as pessoas a confiar o seu voto ao Bloco e no que afastou um número significativo nas últimas eleições, tendo votado noutros partidos, optado pela abstenção ou pelo voto em branco. Certamente não se chegará a um consenso forçado ou a uma explicação causal monolítica, mas aprenderemos muito sobre o que somos, o que pensamos ser, o que pensamos ser quem vota no BE.
Tem-se afirmado que a esmagadora maioria do eleitorado bloquista é flutuante, que o BE começa cada eleição, ao contrário de outros, a partir de níveis baixos de “fidelização” do voto, uma explicação apoiada no seu crescimento rápido que tem valorizado o desempenho das campanhas eleitorais do movimento mas que desvaloriza a sua capacidade de sedimentação. Agora há quem contraponha que pode ser que não seja bem assim, que pode ser que o Bloco tenha encontrado neste patamar um limiar de estabilidade, conclusão nascida de uma certa coincidência de resultados entre 2005 e 2011. É a tese da eleição excepcional de 2009, que faria desta uma espécie de tempestade perfeita que não se poderia repetir, com níveis fortes de rejeição do governo, particularmente dos/as professores/as, sem muita pressão do voto útil e mesmo com muitas vontades unidas para que o PS não repetisse a maioria absoluta, com a imagem de uma candidatura desastrosa de Manuela Ferreira Leite que não se afirmou enquanto alternativa de poder. Desde que não seja apenas uma desculpa esfarrapada para um resultado eleitoral, é um ponto interessante de debate. Um dos corolários possíveis para esta tese é a ideia de que, em 2011, se regressou aos níveis anteriores, tendo-se caído normalmente de um patamar inflacionado e regressado ao ponto em que o Bloco já estaria relativamente estabilizado. Mas será essa estabilização um dado adquirido?
A adopção de um ou de outro ponto de vista terá consequências nos balanços que se constroem. A acreditar que já haja uma certa constante sociológica em volta de um modo bloquista de ver o mundo que foi abrindo caminho ao longo destes doze anos, corre-se talvez o risco de naturalizar o “regresso” de muitos votos à sua casa política habitual, mas ganha-se talvez a noção de que apenas um trabalho demorado de consciencialização profunda poderá frutificar. A acreditar numa inconstância e numa base quase nada sedimentada, corre-se o risco de ceder à comparação apressada entre momentos incomensuráveis e de procurar a resposta imediata de adaptação “ao que as pessoas querem” para efeitos eleitorais, mas ganha-se talvez a ideia de que os votos não são “nossos”, não são favas contadas e de que as respostas políticas não são receitas a aplicar independentemente dos momentos. Haverá certamente uma guerra de movimentos e uma guerra de posições, para banalizar e deslocar de sentido as expressões gramscianas, a travar simultaneamente na disputa política e nenhuma poderá ser desvalorizada. Se bem seja óbvio que a segunda conta mais pelo seu enraizamento e que a constatação da “base flutuante” não é muito lisonjeira para a capacidade de trabalho do Bloco para lá das eleições.
Em qualquer caso, faltaria ainda apontar causas concretas para os resultados eleitorais.
É aí que entram em jogo as explicações que recorrem à política do medo da troika e à troika dos pequenos erros do Bloco. Tipificados que foram sobretudo na imprensa, mas também na blogosfera e em muitos debates interno, três possíveis erros na política bloquista nos tempos pré-eleitorais, (apoio à candidatura presidencial de Alegre, moção de censura e não ida à reunião com a Troika) estes rapidamente se impuseram como explicações centrais para o desaire eleitoral.
Esta imposição faz com que uma das tarefas deste debate de balanço deva ser reconduzir estes “erros” à sua dimensão própria e outra deva ser ir para além de alguma facilidade que estes podem instalar. Fáceis de reconhecer, até porque foram mais ou menos sendo construídos pelos média, há o perigo de lhes atribuir toda a responsabilidade, desresponsabilizando-nos de procurar mais e responsabilizando a direcção do Bloco apenas na medida em que tomou algumas decisões polémicas.
Sobre o surgimento de “erros” no discurso político do Bloco de Esquerda, diga-se, aliás, que é positivo reconhecer erros, tal como é positivo que se tenha reconhecido imediatamente a dimensão da derrota eleitoral sem a tentar mascarar atrás de sofismas. Note-se que, até hoje e no discurso oficial da direcção do Bloco, o Bloco nunca tinha errado. O crescimento eleitoral sucessivo, tornou dominante um discurso fácil de triunfalismo que mascarava debilidades que muitos reconheciam mas que escolhiam não enfrentar directamente ou nem sequer nomear. Este crescimento eleitoral era apresentado como prova de sucesso, o que eliminava a hipótese de erro. Ora, precisamos ter consciência que tal discurso em que a direcção está sempre correcta cria uma determinada cultura organizativa. E, neste momento, será importante não passar de um tempo em que não se reconheciam quaisquer erros políticos para um tempo em que se reconhecem apenas “erros” que saltem à vista sob a pressão mediática.
É preciso portanto não deixar que a troika dos pequenos erros ofusque, por exemplo, o peso da política do medo da troika.
Estas eleições decorreram num quadro político terrível em que se impôs o medo da derrocada financeira do Estado (já nem sequer havia dinheiro para salários…); em que as políticas de austeridade ainda não tinham feito sentir grande parte dos seus efeitos mas eram apresentadas constantemente como inevitáveis; em que ainda parecia possível para muitos/as sonhar com uma austeridadezinha apesar de tudo forte mas que resolvesse os problemas sociais a curto prazo; em que as soluções alternativas a esta espiral de austeridade foram descredibilizadas pelos comentadores de serviço enquanto um “calote” que traria consequências ainda mais desastrosas para o país; em que a direita mais liberal de sempre prometia ir o mais longe possível mobilizando parte do voto útil contra esse extremismo; em que a raiva contra o primeiro-ministro em funções já era tanta que mobilizava outros a escolher votar no outro candidato ao governo por pior que pudesse ser.
Numa situação difícil destas, um projecto socialista consequente não poderia claudicar a qualquer solução fácil de adaptação à austeridade e ao liberalismo. Ao não claudicar sabemos que seria alvo declarado de toda a hostilidade de quem apresentava como alternativas o caminho único da Troika ou o dilúvio. “Não querem resolver os problemas do país por causa dos seus preconceitos ideológicos ultrapassados”, “colocaram-se fora de qualquer solução de governo provando que são só uma inútil força de protesto” são apenas algumas das ideias que se procurou instalar. Pensar que se poderia ultrapassar isto afirmando simplesmente que queríamos um “governo” que se sabia impossível ou então mostrando uma qualquer prova de boa vontade que convencesse os opinantes profissionais seria pura ilusão. Contra isto, o BE poderia apenas contar com a sua clareza como contou, apresentando políticas alternativas e batendo-se por elas. Nestas circunstâncias não se conseguiu desfazer o medo com argumentos. E afirmar que tudo isto é também um legado político não deve ser visto como a transformação de uma derrota numa vitória moral.
Agora, mais do que as afirmações sobre a saída da crise, colocados perante o agravamento da espiral de austeridade, estamos no momento de pensar como travar a degradação das condições sociais. Agora, o Bloco valerá pela forma como souber participar nas pontes que responderão na luta social e política a esta situação. Agora, o Bloco valerá também na medida em que souber pensar e participar nas formas de luta pela hegemonia que têm de ser mais profundas do que a simples acomodação ao espaço mediático a que somos reduzidos.
A troika dos pequenos erros
Mas, dito tudo isto, não fujamos dos vários debates que os “erros” do BE instalaram. Olhando para esta troika dos pequenos erros pode-se escolher um erro preferido e sobrevalorizá-lo (e dizer que a culpa foi apenas do Alegre que nos colou ao PS ou que a culpa foi apenas da não ida à troika que nos mostrou como se fossemos parecidos ao PC). Ou pode-se combiná-los e ver na sua sucessão uma prova de tergiversação rápida por desorientação política ou mesmo por oportunismo.
No segundo caso, valorizar-se-à mais a deslocação que estas decisões imprimiram do que o carácter concreto de cada uma delas: primeiro a colagem a Alegre na tentativa reincidente de captar eleitorado desiludido do PS, depois, como a campanha de Alegre resultou numa colagem prejudicial ao governo, uma guinada forte com a tentativa desesperada de descolagem que teria acabado em colagem ao PC. Assim, o ziguezague político teria acabado por desiludir todas as partes. Mais, provaria ou a fatal indefinição do projecto político do Bloco tentando sobreviver num espaço político inexistente ou a divisão inevitável no seu interior entre as facções que prefeririam puxar o seu espaço mais para o lado do PS ou mais para o lado do PCP.
Portanto, para além dos partidários de uma estabilização em qualquer destes pólos, alguns dos quais convencidos que uma geometria política definitiva só permitirá construindo a partir da erosão de um ou outro destes partidos, outros difundiram a ideia do ziguezague para fazer passar a tese do “saco de gatos unido pelas vitórias eleitorais” ou a tese do “divórcio entre a base eleitoral socialista relativamente moderada do BE e a direcção anti-capitalista e extremista”. Numa versão, a derrota eleitoral estaria destinada a provocar uma derrocada política entre as várias facções. Cabe ao Bloco provar a quem a defenda que não se deverá fazer passar o desejo por realidade e que pode haver consistência na diversidade. Na outra versão, teria sido o momento político de crise profunda a mostrar a falência da capacidade de dissimulação da verdadeira natureza do movimento que tinha sido a base do sucesso eleitoral anterior. Assim, cabe também ao BE esclarecer o seu “radicalismo”, ou seja, o que entende por socialismo, porque e como é anti-capitalista, como se conjugam as suas propostas concretas com estas ideias, se são apenas fatos domingueiros ou horizontes longínquos.
E, aliás, este debate cruza-se com outro igualmente importante: como se situa o BE face à social-democracia nossa contemporânea totalmente rendida ao social-liberalismo. Isto tem implicações nas possibilidades de alianças e seria já por essa via definidor. Mas tem ainda implicações na forma como o BE vê o que procura ganhar numas eleições. Porque, a acreditarmos que o eleitorado “flutuante” do BE seja sobretudo eleitorado socialista desiludido com o social-liberalismo e saudosista de um socialismo de antanho, o destino do BE estaria ligado à forma como lide com este. E, confrontado com a dificuldade de conquista da hegemonia por parte de uma ideia diferente de socialismo, há quem responda com a facilidade de procurar “perder radicalidade”, de mostrar um imaginário socialista old school, de limitar-se a ajustar-se aos seus conservadorismos. Tratar-se-ia de ganhar o eleitoral perdendo-se nele, adaptando-se sem centro de gravidade. Só que perder-se no eleitorado para o ganhar teria tido consequências desastrosas nestas eleições.
Tomando cada uma das decisões que se encaixaram na troika dos pequenos erros:
1- Alegre: Tem-se reconhecido de forma ampla que a candidatura presidencial de Manuel Alegre, e o BE por arrasto, esteve demasiado colada ao governo. Mas deitam-se as culpas ora para o PS ora para Alegre. Ora, o Alegre que a direcção do BE decidiu apoiar já estava politicamente em confluência com o PS, do qual precisava para alimentar a possibilidade de derrotar Cavaco.
Para além disto, ao contrário do que se tem vindo a afirmar, Alegre não era “a única alternativa” (lembram-se que em política nunca há uma alternativa única?) mas foi sim a alternativa que a direcção do Bloco escolheu prosseguir durante meses até ao momento em que já parecia impossível tomar outra opção. Também não se deveria apoiar apenas “por ser o melhor posicionado” para derrotar Cavaco, como foi alegado, porque numa eleição a duas voltas esta nunca tinha sido a posição do Bloco (e aliás não se sabe o que a existência de outro candidato à esquerda faria na mobilização do eleitorado e na possibilidade de uma segunda volta…). Nem Alegre era “o candidato dos serviços públicos”, era o candidato que se atribuiu como papel explicar que o que o governo PS fazia era a defender dos serviços públicos. E ainda, Alegre era um candidato sem resposta à crise financeira para além de culpar os especuladores (e ilibar Sócrates pelo caminho) e o clima político em que se candidatou já não permitia este discurso. Mas, apesar de tudo, Alegre fica demasiado longe para explicar as eleições legislativas.
2- Moção de censura: Contra a austeridade e “em nome das gerações sacrificadas”, o BE decidiu por apresentar uma moção de censura. Fê-lo através de uma decisão tomada na Comissão Política quando tinha existido uma Mesa Nacional imediatamente antes, gerando assim uma polémica sobre a menorização do seu órgão máximo e notícias de descontentamentos e de demissões que constituíram ruído que não abonou em favor da moção de censura.
Fê-lo de surpresa e nem sempre o mediatismo da surpresa é positivo. Com a surpresa, acabou por triunfar a ideia de que o fazia apenas para ganhar uma corrida ao PCP. Fê-lo de forma pré-datada, demorando a dar a conhecer o texto, gerindo com dificuldade os primeiros sintomas de mediatização negativa, dando a imagem de ter problemas em assumir o ónus de um possível derrube do governo. Contudo, os problemas de comunicação não lhe diminuem a necessidade ou justeza. Mesmo se tivesse havido um “processo perfeito”, a mediatização negativa estava para ficar e a campanha sobre estar-se a “abrir o caminho à direita” seria forte. E, assim, talvez não seja totalmente ocioso o exercício de pensar que, mesmo sem ter apresentado nenhuma moção de censura, grande parte da hostilidade de que o BE foi alvo teria continuado a existir.
3- Reunião com a Troika: O que parecia destinado a ser um episódio menor da vida política, acabou por se tornar um erro central na economia deste processo eleitoral, fabricado pelos média e comentadores de serviço enquanto sinal de infantilidade de esquerda, de intransigência inconsequente. A falsa negociação acabou por se sobrepor completamente ao carácter simbólico da não presença no beija-mão, à intervenção anti-democrática, à imposição dos ditames dos interesses financeiros. E, mesmo ideias entre o fantasista e o simplista como a de que “eles querem renegociar o que não quiseram negociar” instalaram-se prejudicando a proposta de “reestruturação da dívida”. A percepção de “irresponsabilidade” fabricada a propósito deste episódio terá prejudicado o BE, mas a questão a colocar será: teria sido essencialmente diferente se o BE tivesse ido à reunião com a troika?
E a campanha, pá?
É interessante que entre as explicações mais mediáticas sobre o resultado eleitoral poucas se debrucem sobre a campanha eleitoral. Mas esta também deve dar azo a algumas considerações. Em primeiro lugar, porque foi a campanha mais monotemática do Bloco de Esquerda. Todos os temas acabaram ofuscados pela reestruturação da dívida e pela crise. Esta era sem dúvida a questão fundamental das eleições, mas há que pensar a relativa ausência de temas como a precariedade, o tema central no discurso da moção de censura, e que em campanha não teve a projecção necessária.
E aqui pode-se encaixar uma outra explicação sobre o fracasso eleitoral do Bloco: tendo sido a “agenda fracturante” o segredo do sucesso do BE (e não o apoio de socialistas descontentes com o liberalismo PS) dizem alguns, o esgotamento desta e a entrada na “política a sério” marcariam o princípio do fim do Bloco porque provariam que o Bloco é afinal pouco “moderno” dada a sua radicalidade e o seu carácter ideológico “conservador”. Se esta ideia é injusta até porque para ser provada teria de se reduzir o discurso inicial a algumas causas e portanto apagar muita outra coisa, não deixa hoje de se notar pouca presença de temas como o racismo, o machismo, a homofobia, por exemplo. E estes deveriam voltar a ocupar um lugar mais importante, mesmo em tempo de campanha, não porque rendam votos (e até estou convencido que não rendem) mas porque fazem parte do que somos.
Em segundo lugar, foi uma campanha centrada totalmente na figura do coordenador da Comissão Política. O que levanta questões difíceis: e, mesmo sabendo que a política é hoje altamente mediatizada e fulanizada, o Bloco de Esquerda deveria procurar com a força que tem contrariar estas tendências.
E esta será uma razão adicional pela qual “pedir cabeças” na sequência do resultado eleitoral não é resposta que convenha para o BE: porque não dá resposta aos problemas mais complicados com que a forma actual de fazer política nos confronta, acabando qualquer mudança pressionada pelos meios de comunicação social e seus comentadores por parecer uma substituição mediática para continuar maximizar o efeito da mediatização sem a questionar.
Aliás, a forma natural como muitos/as, sobretudo fora do BE, encararam a ideia de “pedir cabeças”, devia fazer-nos reflectir sobre como o BE é visto: um partido igual aos outros, com os mesmos processos de decisão e as mesmas formas de liderança, não sendo percebido o carácter colegial da sua direcção, deveria ter a mesma solução que o PS. Mudar de rostos mediáticos para mimetizar os partidos dominantes será, portanto, demasiado pouco como resposta política.
O BE beneficiou da mediatização positiva em determinada altura. Hoje, a mediatização negativa mostrou um conjunto de vulnerabilidades que não podem ser ultrapassadas no interior do jogo mediático.
2- O balanço para além das eleições
Mas se é tempo de balanço eleitoral, é também tempo de ir além das eleições porque o BE não se esgota nelas. Assim, hoje, o problema do bloco não é apenas o que vai fazer nas próximas eleições de modo a conseguir melhores resultados do que desta feita. Se, obviamente, não será minimamente avisado desvalorizar os momentos eleitorais, é preciso pensar para além deles. É que os resultados eleitorais não são a medida única de um partido. Nem um partido deve sacrificar tudo em nome destes.
Dos desiludidos com o socialismo realmente existente aos indignados com a política
Como foi referido e é fácil de compreender, a resposta à política da crise é central. E um dos problemas foi que, do ponto de vista de quem se situa simbolicamente no interior do actual sistema político-partidário, pelo menos votando, as respostas do BE pareceram demasiado de fora das soluções unânimes do sistema: a reestruturação da dívida e a resistência do Bloco a cumprir algumas das expectativas de integração tornam-no demasiado diferente para se votar.
Mas a resposta à crise não poderá contar apenas com estes e importa também pensar naqueles que se situam simbolicamente no exterior do sistema. Para esses, o BE parece, pelo contrário, demasiado dentro do sistema político, demasiado integrado e igual aos outros. Há que compreender que o esforço notável de afirmação no interior do sistema político português que fez de uma força inicialmente muito pequena uma voz a ser tida em conta em todos os debates centrais do país, teve como reverso uma imagem de institucionalização e de parlamentarização que são obstáculos ao diálogo com os zangados com a política e com os indignados com o sistema político.
Falta ao BE um esforço maior para se encontrar com quem se sente fora do sistema político. Só assim poderá contrariar algumas tendências de um populismo duro marcado pelo discurso anti-partidos e anti-democracia. Só assim também poderá intervir nos interessantes campos abertos pela “geração à rasca” e pelo movimento das “acampadas” sobre o sistema político e eleitoral, sobre participação, sobre a precariedade.
Responder à política da crise não pode ser dissociado de responder à crise da política.
E agora?
Dito tudo isto, para quem tenha tido o estômago de ler ou apenas passado a esta parte, deixemos algumas outras ideias.
Debater
Elogiado o debate em curso, é preciso mais porque faltam espaços de debate político no BE e é preciso repensar o centralismo do BE. Por exemplo, porque é que o Bloco não tem um boletim interno, seja qual for a sua forma, que permita a circulação de ideias e o debate?
Formar
A necessidade de formação política explica-se a si mesma.
Trabalhar
É preciso dinamizar a militância, muitas vezes presa a respostas à realidade autárquica, outras vezes pouco proactiva. Porque não voltar a dinamizar grupos de trabalho?
Unir
A questão das alianças anti-liberais coloca-se é hoje ainda mais do que nunca premente. A forma como o BE lida com os movimentos sociais também.
Lutar
As duas notas anteriores levantam a questão da resposta à austeridade. Esta não deveria passar por uma internacionalização da luta?