Por 85 votos a favor e 17 contra, o parlamento norueguês aprovou na semana passada a suspensão das recomendações do Conselho de Ética do maior fundo soberano do mundo para excluir empresas da sua carteira de investimentos. A decisão surge poucos meses após essas recomendações terem levado à saída do capital das empresas ligadas ao genocídio israelita em Gaza, incluindo a estadunidense Caterpillar, e por proposta do atual ministro das Finanças Jens Stoltenberg, que foi secretário-geral da NATO até ao ano passado. O Governo norueguês ficou mandatado para apresentar uma proposta de revisão das regras de investimento até à primavera de 2026.
O volte-face foi justificado por Stoltenberg por entender que “é cada vez mais evidente que as atuais diretrizes poderiam implicar a exclusão de algumas das maiores empresas do fundo” da carteira de investimentos do fundo avaliado em 1.8 biliões de euros e alimentado pelas receitas da exploração de petróleo, concluindo que aplicar a ética aos investimentos pode aumentar o risco e reduzir a rentabilidade, o que “contradiz a intenção do fundo, que é ser um fundo global de ampla cobertura”.
“As sete empresas mais valiosas do mundo representam 16% dos ativos em ações do fundo”, afirmou o ministro, referindo-se à Nvidia, Microsoft, Apple, Amazon, Alphabet, Meta e Broadcom.
Trabalhistas acusados de agradarem à direita enquanto negoceiam Orçamento à esquerda
Stoltenberg acrescentou que “o mundo mudou” desde a aprovação em 2004 - quando ele era primeiro-ministro -das recomendações éticas para os investimentos da Noruega, negando ter proposto as mudanças das regras por pressão de outros países. O Partido da Esquerda Socialista contestou a medida acusando o governo de temer a reação de Donald Trump e de estar a ceder aos partidos da direita. O Departamento de Estado dos EUA tinha criticado o desinvestimento na Caterpillar, cujas máquinas são usadas pelo exército nas demolições em Gaza e nos territórios ocupados na Cisjordânia.
Genocídio
Bulldozers em Gaza levam o maior fundo soberano do mundo a sair da Caterpillar
Enquanto uma manifestação de apoio à Palestina se manifestava à porta do Parlamento contra esta decisão, a líder do Partido da Esquerda Socialista, Kirsti Bergstø, sublinhava que “estamos num ponto de viragem histórico, em que o nosso objetivo é garantir que o fundo do petróleo não é investido no genocídio, na ocupação e em crimes de guerra”. Também a líder do Partido Vermelho, Maria Sneve Martinussen, afirmou ser “chocante” que os Trabalhistas, “após dois anos de genocídio e das revelações dos laços direto entre o Fundo do Petróleo e a máquina de guerra israelita, queiram ainda mais disso”. Por seu lado, o líder dos Verdes, Arild Hermstad, criticou que os Trabalhistas se tenham aliado ao Partido do Progresso, da extrema-direita, enquanto negoceiam o Orçamento à esquerda e depois de terem passado a campanha eleitoral a apelar ao voto contra aquele partido.
A revisão das regras tem o apoio do líder do Conselho de Ética, que também considera desatualizados os critérios usados desde 2004. Stoltenberg deu como exemplo o país poder comprar armas a uma empresa de armamento na qual o fundo não pode investir. Outra responsável do seu ministério alega que a fronteira entre o uso civil e militar das empresas tecnológicas ficou menos clara nos últimos 20 anos e que a situação da segurança da Europa também se alterou.
A este propósito, foi notícia que está a ganhar adeptos entre os partidos noruegueses a ideia de que o fundo soberano avance para cobrir os fundos necessários ao empréstimo de 140 mil milhões de euros para a reconstrução da Ucrânia. O empréstimo está num impasse depois de a Bélgica colocar reticências ao uso dos fundos russos congelados naquele país, exigindo que os restantes Estados-membro partilhem o risco jurídico e financeiro da decisão. A ideia foi lançada por dois economistas noruegueses numa entrevista a um diário dinamarquês e foi prontamente apoiada pela primeira-ministra deste país, Mette Frederiksen.