Habitação

No Bairro da Penajoia, “o IHRU comportou-se como o pior dos proprietários privados”

09 de julho 2024 - 23:08

Mariana Mortágua esteve esta terça-feira no bairro autoconstruído em terrenos do IHRU em Almada, que ameaçou os moradores com a demolição das habitações para depois recuar face à mobilização.

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Mariana Mortágua com moradores do Bairro da Penajoia, em Almada.
Mariana Mortágua com moradores do Bairro da Penajoia, em Almada. Foto António Pedro Santos/Lusa

O bairro da Penajoia alberga hoje cerca de 160 agregados familiares. São cerca de 350 pessoas, das quais 60 crianças, seis recém-nascidos 19 adolescentes e mais de vinte idosos, grávidas e doentes crónicos. O número de habitantes cresceu durante a pandemia, pois foi também para aqui que se deslocaram algumas famílias sem alternativa habitacional.

Através de um edital afixado nas paredes do bairro a 12 de junho, o Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU), proprietário dos terrenos, anunciou que pretendia a partir desta quarta-feira proceder à “remoção de construções, bens, produtos ou resíduos dos terrenos”. O alarme levou à mobilização dos moradores e o IHRU recuou na semana passada, assegurando que não irá desocupar casas sem alternativa habitacional para quem lá está a viver. Mas a nova promessa não convence os moradores, que continuam com receio do que possa acontecer esta semana. Alguns deles dizem que na quarta-feira não irão trabalhar com receio que lhes venham demolir as casas na sua ausência.

A coordenadora bloquista Mariana Mortágua esteve esta terça-feira no bairro da Penajoia para prestar solidariedade aos moradores e acusar o IHRU de se comportar “como o pior dos proprietários privados”.

“Chegou aqui, afixou um edital numa parede e disse que têm um mês para sair porque estas casas vão ser despejadas e demolidas. Ou seja, é o próprio Estado que olha para um bairro onde vivem 400 pessoas, tantas crianças que, caso contrário, estariam na rua, e que olha para este bairro e só vê chapa”, afirmou Mariana Mortágua.

“Foi a mobilização destes moradores e o facto de se terem juntado e ter criado protagonistas que permitiu que o IHRU tivesse aparentemente recuado. Foi possível ir à Câmara Municipal. O IHRU diz que, enfim, poderá não demolir algumas, poderá fazer uma limpeza. Não há certezas”, alertou a coordenadora do Bloco, acusando o IHRU de não ver “seres humanos, vidas, famílias, crianças ou percursos de vida” mas apenas “um bairro para destruir” e a Câmara de Almada, liderada pelo PS, de “lavar as mãos” e atirar as responsabilidades para aquele instituto público.

A vereadora bloquista em Almada, Joana Mortágua, acompanhou a visita e explicou ao Esquerda.net o que está em causa:

Rosana Silva vive no bairro há cinco anos e disse à agência Lusa que “não estamos aqui porque queremos, ou porque aqui estamos bem, é porque não temos opções. Estas barracas aqui foram a nossa saída das ruas, para não ir para a rua com as crianças, mas não é porque queremos ou porque nos sentimos bem em viver numa barraca, toda a gente que ter um sítio digno para viver”. Os moradores criticam o passa-culpas da Câmara para o IHRU e vice-versa e apenas exigem “soluções adequadas” de habitação para estas pessoas que foram vítimas da crise da habitação em Portugal.