Marisa Matias: Estamos aqui hoje com a Martina Anderson, é eurodeputada do Sinn Féin. Partilhamos o mesmo grupo parlamentar, Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde no parlamento Europeu e também tivemos a oportunidade de partilhar muitas lutas políticas ao longo dos anos, desde 2012 que a Martina está no parlamento.
Gostaríamos de te pedir algumas informações, porque os movimentos de extrema-direita, que vemos por toda a Europa, continuam a não ser muito discutidos em Portugal, porque não temos a mesma pressão em termos de migrantes, e as pessoas tendem a ignorar o que se está a passar por toda a Europa com o maior enraizamento destes movimentos e gostava de te pedir que nos desses a tua perspetiva sobre isso, o que se passa na Irlanda também.
Martina Anderson: Suponho que na Irlanda seja semelhante, apesar de termos partidos de direita, na Irlanda do Norte e no Sul, os partidos de extrema direita xenófoba, o mais próximo que temos disso na Irlanda seria no Norte da Irlanda, um partido com o qual estávamos coligados no governo até ao momento em que o Martin McGuinness derrubou a Assembleia. Não temos as mesmas dificuldades da Grécia, com a Aurora Dourada. Tendo dito isto, estamos muito preocupados e eu pessoalmente, quando fui para o parlamento em 2012, fiquei alarmada com o tipo de deputados de direita que tinham sido eleitos por toda a Europa e quão dominantes eram no parlamento.
se nós, na esquerda, não damos às pessoas razões para que se mobilizem para nos elegerem, cedemos terreno para que a extrema direita entre nas mentes dos mais vulneráveis na nossa sociedade
Para minha surpresa, em 2014, voltaram com mais eurodeputados de direita. Para mim, isso começou a colocar-me questões sobre para onde se dirigia a Europa e a regressar às pessoas porque podemos criticar, e com razão, a emergência da xenofobia e da extrema direita. Mas se nós, na esquerda, não damos às pessoas razões para que se mobilizem para nos elegerem, para nos apoiarem nas campanhas de resistência que lutamos durante o ano, se entre as eleições não mobilizamos esse tipo de apoio e os abandonamos, cedemos terreno para que a extrema direita entre nas mentes dos mais vulneráveis na nossa sociedade. Acredito que, então, merecemos aquilo que acontece. Não espanta que as pessoas votem em partidos que pensam que sejam mais próximos deles e que os representem.
Acho que esse é o tipo de padrão que se vê por toda a Europa e eu sou crítica de nós mesmos tanto quanto de qualquer outra pessoa, não vou acusar a Europa e a esquerda como se isso não nos incluísse, claro que nos inclui, mas acreditamos que temos de distinguir entre o nacionalismo progressista e o nacionalismo regressivo e estreito. Se abandonares o nacionalismo de todo, por acreditares que é uma força do mal, em oposição a uma força do bem, deixas todas as tendências nacionalistas serem agarradas por organizações como a Aurora Dourada e outras, e elas começam a entrar no teu território e a representar aquilo que algumas pessoas acreditam serem as ideias dos mais vulneráveis na sociedade, que são manipulados pelas suas condições de vida.
A extrema direita vê oportunidades e a história está cheia de como o fascismo tomou o poder. Acho que tudo o que temos em comum, na esquerda, temos de garantir que o campo que partilhamos, que é o cimento que nos une, mas também temos de ser capazes de partilhar experiências e para nós, no Sinn Féin, encontramos no nosso grupo, GUE-NGL, uma tolerância do nosso nacionalismo porque as pessoas percebem que é sobre autodeterminação nacional e apoiam tudo o que estamos a fazer para tentar reunir a Irlanda. Por vezes, vemos como o ódio é gerado em alguns das atitudes xenófobas que são agitadas por eles. E podemos nomeá-los, quer sejam do UKIP, nós vemo-los no parlamento, a Le Pen, todos eles.
Marisa Matias: E não estão a ficar mais fracos, isso é uma certeza. Há esta perceção errada, na minha opinião, de que em Portugal estamos mais protegidos contra o fascismo e a xenofobia. Como disseste, na Irlanda também é uma situação diferente, mas se olharmos a partir de Bruxelas, o cenário não é exatamente o mesmo e acho que nunca estamos a salvo disso. Porque pode ser uma coisa simples que dá a oportunidade a estes grupos para crescerem em Portugal, na Irlanda ou noutros países. Mas nós seguimos, apoiamos, claro, a vossa luta na Irlanda e hoje em dia as coisas estão bastante difíceis por causa de o Acordo de Belfast estar a ser questionado pelo Brexit.
Como está o processo agora, está em perigo? Eu sei que está sempre em perigo, mas está agora pior do que há uns meses? As equipas de negociação já conseguiram alguma coisa extra além do que estava em causa há uns meses atrás? Como vês esse processo?
Martina Anderson: Só para fazer a ligação com a conversa que estávamos a ter sobre racismo e xenofobia, apenas no Norte da Irlanda e ao longo da Grã-Bretanha, tudo o que beneficiámos da União Europeia, sendo parte da nossa sociedade e transformando-a na sua casa, há 26% de habitantes originários da União Europeia que já se foram embora, porque se sentiram mal recebidos e sentiram-se indesejados, justificadamente, sentiram-se no lado recetor, sentiram o ódio e a reação xenófoba que tem havido depois do assassinato da deputada trabalhista Jo Cox. Os ataques racistas, em particular, têm vindo a aumentar, mas [o racismo] também tem entrado nas mentalidades de pessoas que queremos.
Marisa Matias: É ameaçador para a vidas das pessoas, chega a esse ponto.
Martina Anderson: E porque quererias sair da Europa, porque quererias sair de Portugal para ir para a Grã-Bretanha para trabalhar e criar a tua família? Porque haverias de vir? E eu quero que as pessoas venham, mas porque viriam para o Norte da Irlanda, que está sob ameaça no seu processo de paz, no seu processo político e no seu acordo nacional, que foi reconhecido pelas Nações Unidas.
Vês que, apesar das pessoas daquela parte da Irlanda terem votado para continuar na UE, o governo britânico está a ignorar os seus desejos expressos democraticamente. Porque haverias de arrancar a tua família e os teus desejos e pensar que a Irlanda, e o Norte da Irlanda, primeiramente, ou a Grã-Bretanha seriam um lugar para onde ir, se te sentes tão mal recebido e indesejado?
as pessoas erradamente referem-se à fronteira que temos como a fronteira irlandesa, mas não é, é uma fronteira britânica na Irlanda. O nosso país foi partido
Então, o Brexit e a extrema direita, e o que o UKIP gerou, não apenas com o seu autocarro de campanha [chamado de “Red Bus”], mas no final do referendo houve um cartaz muito ofensivo, em que estava o [Nigel] Farage e atrás dele estava a imagem de refugiados a entrarem. Era sobre manter as fronteiras e impedir refugiados de entrar, tomar controlo das suas fronteiras. O que isso significa, para a Irlanda, é ter controlo da Irlanda partida que temos - as pessoas erradamente referem-se à fronteira que temos como a fronteira irlandesa, mas não é, é uma fronteira britânica na Irlanda. O nosso país foi partido.
Para nós, em dezembro 2017, a UE e o governo britânico chegaram a um acordo que fez com que todos nós no parlamento verificássemos quando havia progressos significativos nas negociações do Brexit. (...)
Se não tivéssemos cedido esse acordo conjunto nesse dia, não teria sido enviado nenhum sinal para o governo britânico de que estava a haver progresso significativo. Mas o governo britânico já tinha acordado naquele momento que faria uma de três coisas relativamente à Irlanda. Iam ter um acordo, que iria impedir um endurecimento da fronteira e preservar o Acordo de Belfast. Se não o conseguissem fazer, diziam que iam aprovar propostas específicas que iam garantir que não haveria um endurecimento da fronteira, que o Acordo de Belfast não ia ser posto em perigo. Se não o conseguissem fazer, a última opção, que ficou conhecida como a proposta travão, seria que o status quo seria mantido, completamente regulado, não teríamos uma situação em que o Sul da Irlanda pertenceria à UE, com as suas regras e regulamentos, e o Norte da Irlanda teria diferentes regras e regulamentos e direitos, teriam os mesmos.
Marisa Matias: Até porque os cidadãos da Irlanda do Norte têm também cidadania Irlandesa…
Martina Anderson: Sim, é um direito à nascença de qualquer pessoa nascida na ilha da Irlanda para ser parte da nação irlandesa. Eu tenho o meu próprio passaporte e tenho um passaporte diplomático, ambos irlandeses. Temos direito, como consequência do Acordo de Belfast, de nos identificarmos como britânicos, irlandeses, ou ambos.
ninguém conhece os britânicos melhor do que nós. O que eles fizeram, ao longo da Europa e do Mundo, quando tinham o seu império, podes ver o caos e a confusão que deixaram e que continua a desenrolar-se em países do Médio Oriente
Em dezembro, quando os britânicos fizeram esses compromissos, avisámos o Michel Barnier, o presidente Junker e o parlamento de que ninguém conhece os britânicos melhor do que nós. O que eles fizeram, ao longo da Europa e do Mundo, quando tinham o seu império, podes ver o caos e a confusão que deixaram e que continua a desenrolar-se em países do Médio Oriente. Mas o que eles fazem em negociações, e as pessoas deviam ser muito claras sobre isso e devem sabê-lo, eles levam-te a negociar, levam-te a acordar, e uma vez que tenham um acordo, sabem qual é a tua linha vermelha, e isso foi o que aconteceu em dezembro, negociaram além disso.
Em dezembro havia um acordo que nós, no parlamento, relutantemente dissemos que havia um progresso significativo. Mas escrevemos na resolução do parlamento que o acordo tinha de ser total e verdadeiramente implementado para passarmos ao estádio seguinte. E nós sabíamos, sabíamos que os britânicos iam negociar para ir mais além, e foi exatamente o que fizeram.
O Acordo de Belfast foi construído no princípio do consentimento, que a posição constitucional da Irlanda, do Norte da Irlanda, não iria mudar a menos que as pessoas da Irlanda votassem a seu favor. E nós não acordámos no Brexit, 56% das pessoas votaram para ficar e, segundo as sondagens de opinião, e sei que são apenas sondagens de opinião, mas indicam que mais de 75% são a favor de ficar, porque na altura do referendo as pessoas não compreenderam.
Marisa Matias: Imediatamente depois do voto, lembro-me que tivemos a oportunidade de fazer uma visita de campo na antiga fronteira, e as pessoas já estavam muito preocupadas com a possibilidade de voltarem a ter o que quer que fosse, mesmo que fosse uma fronteira “leve”, que é uma coisa que não existe, é uma contradição nos termos, mas de qualquer caso, nesse momento já era possível ver e, quando lá estive contigo, era possível ver quão preocupadas estavam as pessoas com a possibilidade…
Martina Anderson: Há casas em que a parte da frente está numa jurisdição, e a parte de trás, noutra. Há um cemitério em que há campas numa parte da Irlanda, sob uma jurisdição, e a capela noutra parte da Irlanda. Há campos…
Marisa Matias: Sim, nós conhecemos famílias que têm a casa num lado e cujos filhos vão à escola noutro lado. Médicos…

Martina Anderson: "A Irlanda é o único processo de paz bem sucedido que a UE tem"
Martina Anderson: 23 mil pessoas atravessam a fronteira todos os dias para irem trabalhar ou estudar. Podemos acabar com uma situação em que os estudantes no Norte, que vão para Dublin estudar, sejam classificados como estudantes internacionais e tenham de pagar propinas internacionais. A ofensa que isso ia causar na Irlanda, mesmo o novo chefe da polícia no Norte está a dizer “não nos levem para esse lugar”, onde teriam de erguer algum tipo de infraestrutura física. E, enquanto a Europa está a tentar preservar a integridade do mercado único, o que estamos a dizer às pessoas da Irlanda, e tudo o que o Sinn Féin fez foi manter-se fiel ao Acordo de Belfast, tivemos muito cuidado e fomos muito conscientes do dano que isso pode trazer ao nosso país. Mas agora estamos a chegar ao ponto, lembras-te que o prazo terminava em junho?
E então disseram-nos que foi adiado, mas que em outubro estaria terminado. Agora dizem-nos que é em novembro, e vai ser adiado para dezembro.
Marisa Matias: Essa seria a minha próxima pergunta. Tenho a perceção que, realisticamente falando, não vai haver nenhum acordo até às eleições. Ou, se o houver, será um mau acordo, sem ter em consideração todas estas preocupações que referias…
de que União queremos fazer parte? Queremos ficar com a Grã-Bretanha e perder todos os direitos e proteção que a UE nos dá
Martina Anderson: Sim, e é por isso que é importante estar aqui, e a falar com as pessoas em Portugal, temos estado numa ofensiva diplomática, falei com pessoas no nosso parlamento com quem o nosso grupo não tinha nada em comum em termos dos nosso padrões, ou da nossa visão social e económica da vida, mas devo dizer que procurámos solidariedade internacional, não apenas no parlamento, mas ao longo da UE. Porque a Irlanda é o único processo de paz bem sucedido que a UE tem. Estivemos em locais de guerra e na Síria e sabemos bem o papel que a UE teve na criação de alguns destes conflitos e dificuldades que estes lugares têm. Mas temos pelo menos um modelo de um sistema que pode ajudar as pessoas a sair do conflito. Nunca pensámos estar onde estamos hoje, se nos tivessem dito, teríamos achado impossível. Até na Palestina, e sei que é um assunto que está próximo dos nossos corações, não acreditamos que podemos importar aquilo que temos, mas podemos partilhar a nossa experiência. Nós aprendemos muito com os sul africanos, que nos ajudaram a perceber como desenvolver um processo de paz e como se mudou as pessoas, se levou as pessoas a outros lugares onde elas não queriam ir, às vezes, mas era onde elas deveriam de estar. Nós acreditamos, não sabemos apenas pelo parlamento e pela Comissão que, até agora, estão a cumprir com o Acordo de Belfast, mas eles também enviaram um sinal para as pessoas no nosso país e isso lançou um aprofundamento da conversa que o nosso partido está a ter há muitos, muitos anos, que é a necessidade da reunificação do nosso país. Porque, Marisa, nós temos uma escolha: de que União queremos fazer parte? Queremos ficar com a Grã-Bretanha e perder todos os direitos e proteção que a UE nos dá, e são muitos os problemas na UE, como bem sabemos, e eu e tu resistimos à sua militarização e relacionamo-nos criticamente com a UE. No nosso partido não somos federalistas.
Marisa Matias: Nem nós.
Martina Anderson: Apreciamos a importância de ministros nds Estados Membros nos seus países decidirem os seus financiamentos, e a importância de que tomem as suas próprias decisões, mas também sabemos que o ar que respiramos, a água que bebemos e as grandes empresas, não há nenhum Estado Membro que as possa enfrentar sozinho.
no contexto da Irlanda, não podemos ter uma situação em que um lado da Irlanda está na UE e o Norte da Irlanda não está
Por isso, relacionamo-nos com o que é positivo disso, mas neste contexto, e no contexto da Irlanda, não podemos ter uma situação em que um lado da Irlanda está na UE e o Norte da Irlanda não está. O que eu disse desde o início das negociações, Marisa, o Partido Unionista Democrático (DUP, em inglês) é a favor do Brexit na Grã-Bretanha, nós acreditamos que para o DUP o seu único foco tem sido reforçar a separação e endurecer as fronteiras na Irlanda porque, pela primeira vez desde a separação da Irlanda, os Unionistas e os Democratas perderam a maioria e a única forma que têm de manter o Norte acorrentado à Grã-Bretanha é se endurecerem a fronteira. Apesar de não o terem declarado publicamente, sabemos por conversas transversas e paralelas, que nunca ficam secretas porque há sempre alguém que nos diz o quem as outras pessoas disseram, mas sabemos que para eles, se puderem reforçar a separação, endurecer a fronteira, quebrar o Acordo de Belfast que o seu partido nunca apoiou, para eles será um trabalho bem feito. E não podemos deixar que isso aconteça. E é por isso que há uma apreciação profunda, não apenas do nosso partido, mas do povo da Irlanda, do apoio que temos, em primeiro lugar teu, dos outros eurodeputados no nosso grupo, e ao longo de toda a Europa, estamos a pedir às pessoas que fiquem connosco e que não nos causem danos.