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Nakba - O começo

Nakba, palavra árabe cujo significado é catástrofe, designa o êxodo palestino de 1948, fruto do ataque das forças sionistas. Texto de Pedro F. Martins Pereira
Al Nakba (a catástrofe), graffiti num muro de Nazaré em Israel (20 de maio de 2014) - Foto wikimedia
Al Nakba (a catástrofe), graffiti num muro de Nazaré em Israel (20 de maio de 2014) - Foto wikimedia

Segundo dados da ONU, cerca de 800.000 palestinos foram expulsos dos seus lares e das suas terras, entre 1947 e 1948. A ofensiva criminosa sionista, com o objetivo de ocupar e colonizar, massacrando e eliminando árabes, procedendo a uma limpeza étnica, tal como de um outro holocausto se tratasse, provocou largos milhares de refugiados.

A ONU, percebendo a situação catastrófica dos refugiados e da necessidade de os fazer regressar à sua terra, aprovou a 11 de Dezembro de 1948, em Assembleia Geral, a Resolução 194, a qual seria a primeira de muitas resoluções tendentes a um acordo para o retorno dos refugiados ou para a compensação pelas perdas e danos sofridos. Considerando também os descendentes dos refugiados de 1948, a ONU considera que o número oficialmente de refugiados registados será superior a 5 milhões, vivendo cerca de 1,5 milhões em 58 campos de refugiados reconhecidos. Estão espalhados pela Jordânia, Síria, Faixa de Gaza e Cisjordânia, incluindo Jerusalém Este. Vivem sem infraestruturas capazes, em condições sócio económicas degradantes e com excesso de densidade populacional.

Nakba surge como contraposição ao holocausto, no sentido de limpeza étnica. Mais de 80% dos habitantes árabes da região que viria a ser o estado de Israel, abandonou suas cidades e aldeias. O avanço sionista em Haifa, somado ao medo de um massacre, após o ocorrido entre 9 e 11 de Abril de 1948 em Deir Yaassin, pequena vila nas proximidades de Jerusalém onde ocorreu a matança de mais de 120 civis palestinos desarmados, acrescido do colapso da liderança palestiniana, originou essa fuga em pânico. Nakba reflete a ocupação e o extermínio. Representa a força de um estado colonial que rouba e mata, em nome de uma ideologia nacionalista e fascista, sem qualquer reconhecimento legal internacional. Não respeita o direito internacional, não só as deliberações da ONU como olvida a Convenção de Genebra. Israel é um estado fora da lei.

O primeiro governo israelita aprovou uma série de medidas impeditivas do regresso dos refugiados a suas casas e às suas terras. Durante a Conferência de Lausanne de 1949, Israel propôs o retorno de 100.000 refugiados à região, não necessariamente a suas casas e às suas terras, estando incluídos nestes 100.000 os 25.000 que regressaram sigilosamente e os 10.000 que se juntaram às famílias que haviam sido separadas. Estas propostas obrigavam à aceitação de um tratado de paz que passava pelo direito à manutenção do território ocupado e á obrigação dos estados árabes recolherem os refugiados palestinos. Por razões morais e políticas, tal proposta não foi aceite.

Os acontecimentos de 1948 são lembrados pelos palestinos, todos os anos, no dia 15 de Maio, o dia seguinte à comemoração da independência de Israel, no feriado que ficou conhecido como DIA de NAKBA. Como a memória é quase sempre revolucionária, em fevereiro de 2010, o Knesset, parlamento de Israel, presidido por um membro do partido fascista Likud no poder, aprovou a proibição de qualquer manifestação no dia 15 de Maio. Afinal têm medo que a própria verdade histórica se espalhe e possa ser motivo de curiosidade da sua população. Para o Povo Palestino foi o começo do genocídio - NAKBA.

Pela Palestina Livre e Independente - A Luta Contínua

As fronteiras de 1967, internacionalmente reconhecidas, deixam apenas 22% do território da Palestina histórica, divididos entre a Faixa de Gaza e a Cisjordânia, sob controlo palestino. Desde a guerra de 1967 que Israel ocupa todo o território. Mais de 40% da Cisjordânia está sob ocupação dos colonatos, integrando as estradas exclusivas para colonos os muros de separação, os controlos e bases militares israelitas. Os colonatos israelitas ocupam zonas estratégicas e são verdadeiros postos avançados da ocupação. O muro da separação é a face mais visível da anexação na Cisjordânia, variando entre uma estrutura de betão com cerca de 8 metros de altura e zonas de arame farpado. Tem torres de vigia espaçadas de 30 a 100 metros ao longo de toda a sua extensão, e uma largura média de 60 metros. A sua construção tem sido feita à custa da destruição de casas e da expulsão de populações palestinas. Mais de 1.600 Kms de estradas exclusivas para colonos, ligam os colonatos entre si e fazem parte do muro da separação. Quando completo, o muro da separação, terá mais de 700kms, mais do dobro da fronteira reconhecida. Vinte e oito comunidades palestinas (125 mil habitantes) ficam cercados pelo muro, pelo menos por três lados.

Gaza situa-se na costa mediterrânica e tem cerca de 2 milhões de habitantes. A sua área, 364 km2, corresponde a uma área semelhante ao concelho de Tomar, é uma das mais densamente povoadas do mundo. Como afirmou a Shad Wadi, no encontro do Ceuta, se alguém atirar uma pedra pelo ar normalmente acerta na cabeça de alguém. Desde Junho de 2007 que Israel sujeita Gaza a um ilegal e cruel bloqueio, impedindo a circulação de pessoas e limitando a um mínimo a entrada de qualquer produto, incluindo bens de primeira necessidade como água, alimentos e medicamentos. Esta enorme concentração de palestinos, cercados por tanques por terra e sem outra saída a não ser o mar, com zona de limitação para a pesca vigiada por fragatas israelitas, não tem perspetivas de melhoria de vida a não ser a luta como arma justa e libertadora. Sempre que existe a possibilidade de entendimento entre as forças palestinas, Hamas e OLP, o exército sionista ataca, bombardeando e matando em avanços terrestres. Foi assim em 2014, onde o genocídio atingiu mais de dois mil mortos. O povo de Gaza vive, há muitos anos, como se estivesse numa prisão a céu aberto. É urgente que levantemos a bandeira deste povo, em nome duma Palestina livre e independente.

Somos Claros! Não confundimos religião com sionismo

Muita imprensa e muitos comentadores acolitados por alguns partidos, perfilam demagogicamente pela teoria do conflito religioso. Procuram incutir esse sentimento junto do senso comum, para que ninguém procure uma informação rigorosa e histórica. Devemos começar por afirmar, tal qual o afirmam os judeus ortodoxos que, em nome dos seus princípios religiosos, entendem que não existia qualquer razão para a formação do estado de Israel, pois árabes e judeus sempre viveram em paz na Palestina, cuidando amigavelmente dos filhos de cada um sem qualquer impedimento étnico.

O Sionismo é uma ideologia política, com cerca de 100 anos, apoiando-se em princípios colonialistas e fascizantes. Procurou suscitar apoios apelando a sentimentos religiosos, patrióticos e racistas, para criar grupos terroristas e criminosos para iniciar a invasão da Palestina, empurrando para fora das suas terras os palestinos e matando quem se lhes opunha. Nestes grupos estavam mercenários bem pagos. Com falsos pretextos de ocupação da terra prometida, impulsionaram muitas pessoas de origem judaica de todo o mundo a virem para a Palestina. Não pode haver confusão: não existe qualquer conflito religioso. Não existe sequer conflito, pois estamos na presença de um processo de ocupação permanente e diária, de perseguição étnica, e de um genocídio que se arrasta ao longo dos tempos. O sionismo afirmava-se como um movimento colonialista, predisposto a tomar e colonizar a Palestina. Posteriormente, com o aparecimento dos movimentos de libertação e a independência de muitos países colonizados, e a consequente nova ordem internacional condenatória do colonialismo, os sionistas retiram da sua cartilha o termo e passam a falar de colonatos como se de outra coisa se tratasse. O partido Likud, extrema direita no poder, tem procurado recrudescer o sentimento sionista. Os grupos fascistas perseguem não só palestinos como apoiantes judeus da causa palestiniana. Nas prisões israelitas estão mais de 5.000 palestinos, havendo registos de tortura e relatos da prisão frequente de crianças. Neste genocídio de 2014, meticulosamente preparado pelas forças sionistas, o objetivo de limpeza étnica ficou bem expresso no ataque deliberado contra as escolas da ONU onde se encontravam crianças. Israel e seus apoiantes, não podem sair impunes de tais crimes.

Tal como pressupõe a nossa Constituição, era dever do governo português fazê-la cumprir quando diz: "Portugal rege-se nas relações internacionais pelos princípios (...) do respeito pelos direitos do homem, dos direitos dos povos, da igualdade entre os estados, da solução pacífica dos conflitos internacionais (...), reconhecendo ainda o direito à insurreição contra todas as formas de opressão" art. 7º da CRP. Mesmo a pretensa alegação de terrorismo, cai por terra quando está pressuposto o direito à defesa e revolta contra o ocupante agressor. Todos fingem não ver o que se passa, preferindo a cumplicidade criminosa. Apoiemos a campanha BDS - Boicote, Desinvestimento e Sanções pelo fim do apartheid israelita, pelo fim de linha para os agressores, pelo apoio à vitória do Povo Palestino. Um dia vamos todos vencer!

Texto de Pedro F. Martins Pereira

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