Alguns dos problemas que o Bloco enfrenta são naturais: o fim da novidade e do encantamento - há sempre quem espere que os partidos sejam uma festa de esperança diária -, alguma burocratização - inevitável quando se ganha alguma dimensão - e o aparecimento de alguns carreiristas, sempre mais zelosos na defesa cega da linha oficial do que os seus principais dirigentes. Os partidos são feitos por pessoas e transportam as suas qualidades e os seus defeitos. É da vida.
Mas com estas naturais dores de crescimento vieram outras, mais graves e evitáveis.
Antes de mais, a fraca renovação da sua direcção. É verdade que surgiram novas caras. Na realidade, poucos partidos se podem orgulhar de, nos últimos anos, ter oferecido à política nacional tantos quadros de qualidade. Mas as principais figuras fundadoras do partido mantiveram as rédeas do poder por demasiado tempo, seleccionando dirigentes, cooptando quadros e excluindo quem estivesse irremediavelmente fora da sua órbita. Fizeram-no, digo sem qualquer cinismo, quase sempre com uma boa intenção: a de manter a unidade de um partido que vive, pela sua diversidade, sempre à beira da clivagem. Mas esta estratégia acabou por corresponder a uma divisão de poder entre as três correntes iniciais que asfixiou a democracia e a liberdade internas, garantindo uma renovação de caras mas impedindo uma renovação real da direcção e excluindo uma parte razoável do partido da sua vida interna. Mais: quanto mais tarde se fizer a renovação mais difícil ela será. Sobretudo se os seus líderes são carismáticos.
Talvez por medo de abalar equilíbrios internos, talvez por incapacidade, talvez por ter nascido num tempo em que as pessoas são menos dadas ao activismo partidário, o Bloco manteve um núcleo militante demasiado pequeno para a sua força eleitoral. Antes destas eleições, o Bloco tinha um militante por cada setenta eleitores. No PCP será de um por cada cinco. Desta escassez de militantes resultaram várias perversões: a funcionalização da vida do partido (o que no PCP aconteceu por convicção, no BE aconteceu por necessidade), a crescente centralização das decisões (que se transformou, contra todos os princípios do Bloco, numa cultura assimilada por muitos militantes) e uma cada vez maior discrepância entre o perfil político, social e ideológico dos militantes e dos eleitores. E esta pequenez cria no Bloco o receio de assumir responsabilidades (faltam-lhe "tropas" que o defendam) e um desconhecimento do que é a sua rede de apoiantes e votantes.
Sem resistência para aguentar a erosão natural de quem assume as responsabilidades do poder e sem a capacidade de organizar o protesto, o Bloco acaba muitas vezes por se limitar a ser um partido "megafone". E isso leva-o a institucionalizar-se sem nunca "correr por dentro" e a limitar-se à oposição sem chegar a conseguir "correr por fora".
Até há uns meses o Bloco tinha um caminho estratégico para sair desta encruzilhada: chamou-lhe, talvez com excesso de entusiasmo, de "esquerda grande". A ideia era que partindo da sua extraordinária capacidade de atracão (que fez das suas fraquezas forças) e da construção de pontes com o resto da esquerda (fruto da sua imagem anti-sectária) ele podia ser o pivot de uma reconstrução da esquerda, articulando bloquistas, gente nas franjas do PCP e do PS e até alguns sectores internos ao Partido Socialista. Era nessa área de influência que, com outros, iria buscar as forças que a sua reduzida dimensão orgânica não lhe dá. É nesta linha de recomposição da esquerda portuguesa que surge o apoio a Manuel Alegre. Um apoio que foi arriscado e teve resultados pouco animadores. Mas que tinha um sentido estratégico.
Sabe-se que os resultados de Manuel Alegre ficaram aquém do esperado. Muitos factores contribuíram para isso: a colagem que a esquerda fazia do candidato a Sócrates e a um governo justamente impopular, a irritação de muitos socialistas com a "traição" do seu militante e a fuga de muitos descontentes para Nobre, a aposta soarista, para um ajuste de contas, que tão desastrada se revelou. Mas o revés não provava o erro da estratégia de alargamento. Até porque não havia outra.
O que aconteceu depois, sabe-se. Pressionado pela má-consciência do apoio a Alegre e pela possibilidade do PCP se antecipar, a direcção do Bloco entrou em versão pavloviana e decidiu avançar para uma moção de censura fora de tempo e mal preparada, que baralhou o eleitorado. Na verdade, tratou-se de um remake de um episódio passado, até nos protagonistas internos: o da Câmara Municipal de Lisboa. Depois de um esforço de alargamento e de uma política de aliança com independentes que correspondia à estratégia definida, o Bloco contradisse a linha seguida até aí, apelando à pureza e auto-suficiência do partido. Das duas vezes, agora e então, com resultados desastrosos nas urnas. Mas nem a resposta dos eleitores parece servir de lição.
Quem tem defendido que a queda do Bloco começou com as eleições presidenciais devia olhar para a evolução das sondagens. É verdade que o Bloco caiu ligeiramente nesse período (mas vale a pena ver as sondagens no dia das Presidenciais, bem acima do resultado atual). Não nego que este apoio teve o seu efeito em alguns setores do eleitorado do partido. Mas é com a moção de censura (que parecia um ziguezague), anunciada duas semanas depois, que começa a vir por aí abaixo de forma bem acentuada. Evolução que a ausência na reunião com a troika (em que o Bloco demonstrou, ao contrário de Carvalho da Silva, não compreender o estado de espírito dos portugueses) confirmou. Talvez o problema tenha sido a percepção da falta de rumo da coisa, onde a combinação Alegre/moção de censura, pelo desnorte que evidenciava, foi fatal. O que o Bloco não perdeu com o "soneto" acabou por perder com a "emenda".
Uma das razões para a sua falta de implantação nacional, que lhe impede de agir no terreno e não apenas na televisão, é a de não ter influência autárquica. E vice-versa: não tem influência autárquica porque lhe faltam militantes no terreno. Só pode desatar este nó com uma política de alianças. Começando exactamente nas autarquias: apoiando listas independentes, procurando gente fora da sua área de influência e coligando-se com PS e PCP onde se encontre uma plataforma programática justa e os protagonistas certos. Mostrando a sua cultura unitária e o que vale em governo e ganhando com isso credibilidade e novos apoios, que lhe darão maior robustez.
Este resultado marcou o início de um novo ciclo. Ao contrário do que dizem os adversários do Bloco à direita, o seu papel não é ser a esquerda chique, liberal nos costumes e desistente nas questões sociais e económicas. Ao contrário do que dizem os adversários do Bloco no PS, o seu papel não é ser a sua muleta, sempre pronto para aparar os golpes de rins dos socialistas. O papel do Bloco é ocupar um espaço amplo na esquerda, que não se revê nem na ortodoxia do PCP, nem na moleza do PS, mas que quer um Bloco disponível para soluções de poder. Foi essa esperança que levou o Bloco aos dez por cento e que o poderia ter levado ainda mais longe.
Ou o Bloco se fecha na sua pequena auto-suficiência, alimentando-se de ilusões que só funcionam em circuito fechado, ou retoma a única estratégia que o fará recuperar a confiança dos eleitores. Que não está isenta de riscos, equívocos e derrotas, como se viu nas Presidenciais. Ou decide que quer ser um PCP reconstruído, só que com muito menos militantes, activistas e capacidade de mobilização, ou dá o salto para contar nas soluções. Muitos serão os que se sentirão satisfeitos com a defesa do palacete (e não da fortaleza) sitiado. Mas a derrota é certa.
Temos três tarefas urgentes: marcar uma convenção, para que este debate não seja apenas uma catarse colectiva, debater seriamente a nossa estratégia para as próximas eleições autárquicas e preparar a renovação dos quadros dirigentes. A resolução dos nossos problemas mais profundos demorarão mais tempos. Espero que tenhamos a coragem dos enfrentar.