Mudanças internas originariam mudanças externas

01 de julho 2011 - 0:04

Contributo de Pedro Figueiredo

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Mudanças no interior do bloco podem originar mudanças na percepção exterior que se tem do Bloco e voltar a captar a metade dos eleitores que deixou de votar Bloco nos últimos tempos. É também quase falso que a fuga destes eleitores aumentou apenas por causa de Manuel Alegre, a falta à reunião da troika e a moção de censura. Parece-me no entanto verdade que estas 3 questões nos diminuíram o número de votos.

Recuperaremos os votos “perdidos” e conquistaremos mais se formos de encontro às expectativas dos eleitores. Que são, essas expectativas - na minha opinião:

1 - Achar que o Bloco consegue ser capaz de ter um programa para governar.

2 - Achar que o Bloco consegue posicionar-se de modo a fazer-se útil à esquerda e à governação - na hipótese de haver uma coligação de esquerda para governar - e assim, poder vir a fazer parte de um governo.

3 - Achar que o Bloco , apesar de ter combatividade para, nos movimentos sociais se posicionar à esquerda da esquerda, “já” se situa na prática e na teoria a meio da esquerda. Isto parece-me implícito no próprio programa do Bloco. Defendemos, e bem, o Estado Social, medidas de “socialismo fiscal” e somos um partido também parlamentar(ista), ou seja, também nos afirmamos “social-democratas”, sem qualquer “vergonha”. E muito bem. Demonstramos pragmatismo. Também deveremos demonstrar que pela própria “natureza” colectiva do Bloco que não há (também) qualquer incompatibilidade em ocuparmos em simultâneo dois (2) lugares na esquerda. E sim, sem sermos esquizofrénicos. Sim, o Bloco já somos uma síntese de posições marxistas revolucionárias e social-democratas de esquerda… e no entanto, até funcionamos.

4 - Achar que o Bloco é capaz de ser um partido diverso e não sectário, que faz a ponte entre independentes e filiados, que faz a ponte entre as esquerdas várias, dentro de si e fora de si. Um Bloco que faz pontes entre o PS e o PCP, afirmando-se ao centro, a meio da esquerda, o lugar central entre o PS e o PCP, porventura o lugar mais difícil de ocupar, mas o mais útil e interessante.

5 – Achar que as “pontes” que o Bloco já fez com PS e PCP, não foram afinal pontes “assério”:

- Apenas uma reunião inconsequente com o PCP porque não é uma coligação para governar.

- Apenas um quase cavalo de Tróia perdido - porque afinal o PS até apoiou o Manuel Alegre – o que não seria afinal expectável? ( ingenuidade nossa? …Sócrates também é uma pessoa inteligente, afinal? E não somos só nós os espertos?).O problema foi o PS ter aparecido. E isto não tem nada a ver com uma coligação eventual ou até teórica. É isto o contrário de qualquer espírito de coligação…Isto foi uma coligação de dois partidos de costas voltadas…”as culpas” de não ser nunca possível ver esquerdas coligadas em Portugal não são agora sempre do “outro”. Do outro partido. Dos outros partidos. Nossa culpa. Minha culpa também.

Sugestões de mudanças internas que podem originar estas e outras mudanças externas.

1 – Proponho que, com o PS , que espero vir a ser liderado por José Seguro - mais inteligente, mais social democrata, mais seguro e não Socrático como Assis - e o PCP a realização de reuniões periódicas, estados gerais semanais da esquerda para que eventualmente num futuro próximo seja possível haver entendimentos de governo, um eventual programa comum, uma eventual futura coligação eleitoral corajosa e para governar. Parte do PS se esquerdizará?... com o rumo da ruína económica?… qualquer que tivesse sido – e foi – a assinatura PS ao pacto com o diabo FMI? …Não se sabe. Mas cada esquerda tem que demonstrar vontade por si, de renovação , convergência e vontade de governar com um programa de esquerda comum. Renovar o Bloco. Renovar o PS. Construir uma coligação não é ser flor na lapela dos outros. Pessoas sérias sentam-se à mesa organizam um programa comum, de acordo com pontos essenciais de acordo com princípios. Não temos que ceder em “princípios”. Não temos que concordar em tudo. São assim as coligações em qualquer país do mundo. Coligação não é fusão. É entendimento sobre pontos essenciais. Se a renovação do PS for retirar o tapete ás tendências BES, MOTAENGIL e ao Estalinismo de Sócrates, tanto melhor para um futuro entendimento. Mas também teremos que fazer a nossa parte de renovação e de sabermos o que queremos de nós, e “se” queremos governar com políticas Socialistas…

Soluções Socialistas são por demais urgentes. Eu estou disposto a “não esperar” pelas “condições ideais”. Porque nunca como agora as condições “externas” foram favoráveis à esquerda. Só com dirigentes do Bloco e do PS capazes de se sentar e discutir um “programa”, “poder” e “governo” haverá políticas Socialistas. Com ou sem PCP. A remoção da “pedra Sócrates” e uma atitude mais aberta no Bloco são condições. Mas com estes 5% não temos “peso negocial”, é certo… mas subiremos dos 5% aos 10% no mínimo se formos capazes de diálogo, e não o inverso. Mais diálogo sem “dissolução” faz subir confiança popular que dá mais capacidade de negociação com as outras esquerdas. Parece-me… Não é uma ciência exacta, pois claro.

2 – Propor mais renovação de pensamento crítico dentro do Bloco. Propor a formação de “quadros” que possam substituir a direcção actual e a formação de quadros intermédios. Propor formação política, social, cultural,. quadros intelectuais. seja isto o que for. Propor aproveitar o pensamento económico de Louçã, transmitindo-o e arranjando sucessores economistas que o prolonguem, fazendo assim “escola”, deixando apenas de ser apenas o pensamento de Louçã, sem aparente consequência na próxima geração de dirigentes do Bloco. Propor substituir os 4 fundadores por 4 continuadores, jovens ou não, mas representativos. Estou-me a lembrar da Ana Drago, por exemplo… Propor haver formas de impedir qualquer corrente interna de ser maioritária. Propor continuarmos com a existência de correntes: As correntes são uma referência dos militantes. Têm que continuar a ser porque as pessoas no Bloco estão de certa forma “agarradas”, mas a hegemonia de uma corrente estará(!) a redundar em Estalinismo dentro do Bloco.

Não há a necessidade de perguntarmos “quem é Daniel Oliveira”? Respondo eu, que também não o conheço, que talvez seja um ser humano, com ideias próprias e críticas, ou seja alguém essencial ao Bloco. Alguém que terá o direito (e dever) de ser assim dentro do Bloco, sobretudo para bem do próprio Bloco. E quanto mais discutimos Daniel Oliveira e Rui Tavares, menos discutimos o nosso Bloco. Estou mais interessado em discutir o Bloco. “Marx crítico de Marx”, ou não será Marx. Bloco crítico do bloco ou não será mais “Bloco”!

3 – Apostar nas autárquicas para continuar a fazer pontes com as outras esquerdas. O que implica humildade a capacidade teórica de pensar nos específicos problemas locais e também apoiarmos listas independentes locais em certos sítios, sem a sigla do Bloco.

4 – Combatividade inteligente é o que precisamos para, também nas ruas e movimentações sociais ultrapassarmos por cima o efeito “vertigem e ruína” – o caso Grego. Empurram - me para a Grécia mas eu quero ser Islândia. Muito simplesmente não interessa afirmarmos aqui que o Bloco vai ser muito, muito, muito contra, contra, contra, protestar muito, muito, muito …porque não é com vinagre que se apanham moscas Nem é com protestos tradicionais que se apanham instituições financeiras e europeias que agem acima de qualquer rua ou assembleia de voto legítima…/ portanto.

Precisamos de ser um Bloco criativo no protesto, protestos inteligentes, consequentes, radicais, diferentes, com visão de conjunto, pensar primeiro, agir depois… para podermos – Portugal – podermos ser uma Islândia e não uma Grécia. Ou seja – o que fazer com os movimentos 12 de Março. Que consequência? Que prática consequente? Melhores protestos e não apenas mais protestos. Mais e melhor qualidade.

(Não quero estar daqui a dez anos ainda a protestar, protestar, protestar, sem consequência. Estamos todos a envelhecer mais rápido que pensamos.)

Pedro Figueiredo, BE Porto