Obituário

Morreu o sociólogo Moisés Espírito Santo

24 de janeiro 2025 - 22:36

Figura de referência da Sociologia Rural e da Sociologia das Religiões em Portugal, estudioso da religião popular entre vários outros temas, faleceu aos 90 anos.

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Moisés Espírito Santo.
Moisés Espírito Santo.

Moisés Espírito Santo Bagagem morreu na noite passada aos 90 anos. Foi uma figura de referência da Sociologia portuguesa, nomeadamente da Sociologia Rural e da Sociologia das Religiões.

Nasceu na Rebolaria, concelho da Batalha, numa família de emigrantes.

Refugiado em França a partir de 1963, participou em associações de emigrantes portugueses e de desertores da guerra colonial enquanto trabalhou como operário, funcionário de repartição e animador cultural para a imigração portuguesa e magrebina. Foi aí fundador do Jornal do Emigrante e da Liga Portuguesa de Ensino e Cultura Popular.

Nesse país, especializou-se em Sociologia Rural em 1976 pela École de Hautes Études en Sciences Sociales, com a tese “La Freguesia – Commune Rurale Portugaise: Vie Communautaire et Conflits”, resultado de trabalho de campo na freguesia de Reguengo do Fetal em Leiria. Na mesma instituição doutorou-se mais tarde em Sociologia das Religiões com a tese “La Religion Paysanne Dans le Nord du Portugal” que estudou a região de Entre Douro e Minho.

A partir de 1980 voltou ao país onde fez carreira na Universidade Nova de Lisboa, tendo-se reformado em 2004 como professor catedrático. Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas ensinou Sociologia Rural, Sociologia das Religiões, Etno-Sociologia das Sociedades Mediterrânicas e Sociologia do Quotidiano.

Para além destes campos, fez investigação em Etnologia Histórica, Etnologia Comparada, estudando a religião popular de várias localidades do país, e etnolinguística neste caso a partir do estudo da toponímia antiga do país.

Numa nota de pesar do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa, Dalila Cerejo, considerou “incontornáveis” os seus contributos para a Sociologia “marcando gerações de estudiosos e fazendo da sua pesquisa uma referência nas áreas da Sociologia da Religião e da Sociologia rural, da cultura, das dinâmicas das desigualdades sociais e das transformações sociais contemporâneas”. Destacando ainda “a sua capacidade de análise profunda, a sua abordagem inovadora e a sua visão crítica enriqueceram os estudos sociais em Portugal e muito além das nossas fronteiras”.

Foi também fundador e dirigente de várias associações como a Associação Portuguesa de Sociologia, a Associação Portuguesa para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, a Associação de Estudos Rurais e o Instituto Mediterrânico da Universidade Nova de Lisboa e o Instituto de Sociologia e Etnologia das Religiões da Universidade Nova de Lisboa. Também fundou e dirigiu revistas como o Fórum Sociológico e a Mediterrâneo – Revista de Estudos Pluridisciplinares sobre as Sociedades Mediterrânicas.

Em 2009, Moisés Espírito Santo foi mandatário distrital em Leiria da campanha do Bloco de Esquerda às eleições legislativas. Nessa ocasião, num comício na capital de distrito, disse que a situação do trabalho em Portugal “faz-nos lembrar o século XIX e as praças de jorna”, lamentou que a justiça só seja eficaz com os pobres, lembrando “a justiça medieval” e considerou que o Bloco de Esquerda, “que não está comprometido com o passado”, representa uma oportunidade única.

Em 2013, foi candidato pelo mesmo partido à Assembleia Municipal de Alcobaça.

Ao longo da sua vida teve uma rica participação cívica. Por exemplo, em 2014, lembrava o Esquerda.net, juntou-se ao promotores da petição “Pela Requalificação da Linha Ferroviária do Oeste” tendo destacado a importância da iniciativa devido à questão ecológica, vincando que “o comboio é o transporte do futuro” e a importância da Linha do Oeste.

Distinguiu-se ainda como uma das vozes a favor do direito à eutanásia e do casamento entre pessoas do mesmo sexo que considerou projetos que visam o "bem-estar social". Defendendo que "se as igrejas se reclamam de humanismo cristão deviam apoiar essas instituições civis nessas questões que não prejudicam em nada a sociedade e trazem benefício a quem for visado por elas".