Nascido no Porto em 1937, Sérgio Fernandez formou-se em Arquitetura na Escola Superior de Belas Artes do Porto (ESBAP) e participa com o seu professor Viana de Lima em 1959 no Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, em Otterlo. Inicia desde cedo a sua carreira académica, na ESBAP e depois na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, onde dirige o seu Centro de Estudos entre 1990 e 1997, vindo a jubilar-se em 2006 como Professor Agregado. Era Professor Emérito da Universidade do Porto.
“Compreender, questionar ou, tão só e sobretudo, alimentar a curiosidade de partir à descoberta constituem dimensões fundamentais na forma de ensinar de Sergio Fernandez, cuja recorrência ao plural sempre sublinhou a valorização do coletivo em detrimento de uma postura centrada no indivíduo. Altruísta, assertivo e incansável nas viagens com os alunos, cultivou uma relação pedagógica próxima, marcada pela partilha, pela exigência e pelo entusiasmo pelo conhecimento”, refere a FAUP na sua nota de pesar.
Para além da atividade letiva, a obra que deixou coloca-o como um dos protagonistas da adaptação do modernismo à arquitetura em Portugal, na maioria dos casos em coautoria. Com Arménio Losa, Alcino Soutinho, Pedro Ramalho ou Alexandre Alves Costa, com quem funda na década de 1970 o Atelier 15.
Em 1963, para preparar a tese de fim de curso, foi viver um ano para Rio de Onor. “Era uma aldeia que nem electricidade tinha, isso realmente abriu-me os olhos para muita coisa que nós não conhecíamos”, lembrou numa entrevista feita pelo arquiteto Nuno Lacerda Lopes, acrescentando ter sido “um ano riquíssimo por muitas e variadas razões, fundamentalmente ao nível das relações pessoais que se estabeleceram e das descobertas de facto das condições em que viviam as pessoas”. Essa experiência viria a marcar o seu trabalho nas décadas seguintes.
Após a Revolução, participa na operação SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local) e projeta o Bairro do Leal, no Porto, cidade onde na década anterior já tinha projetado um bloco residencial no Bairro da Pasteleira com Pedro Ramalho. Outros projetos marcantes incluem o Complexo Turístico de Moledo, o Jardim Infantil de Moledo (1988), a Residência de Estudantes Lisboa, Expo'98). Em co-autoria com Alexandre Alves Costa, fez o Estudo de Recuperação e Valorização Patrimonial da Aldeia de Idanha-a-Velha, o restauro do Cine-Teatro Constantino Nery em Matosinhos e do Cinema Batalha no Porto, o Complexo Residencial de Viana do Castelo, a requalificação no Convento de Santa Clara-a-Velha em Coimbra, da Casa-Atelier José Marques da Silva ou da Escola Secundária Alexandre Herculano no Porto.
Foi também autor de vários artigos publicados em obras portuguesas e estrangeiras, do livro "Percurso da Arquitectura Portuguesa 1930-1974", publicado pela FAUP em 1985, e foi co-autor da obra "Pedro Ramalho: projectos e obras de 1963-1995", publicada em 1995 pela Associação dos Arquitetos Portugueses.
O seu perfil afável e discreto passou também pela intervenção política. Em 1999 foi um dos subscritores do manifesto “Começar de Novo” que convocava a assembleia de fundação do Bloco de Esquerda, partido que apoiou em várias campanhas eleitorais e com o qual participou em vários debates e iniciativas, nomeadamente acompanhando candidatos e autarcas nas visitas ao Bairro do Leal.
Sérgio Fernandez participou em inúmeras iniciativas públicas antes e depois do 25 de Abril. Entre elas, mais recentemente, está o apelo para a criação de um Museu da Resistência e Liberdade no histórico edifício onde funcionou a delegação da polícia política (PIDE/DGS) e atual Museu Militar, para que se preserve a memória da repressão e da resistência à ditadura.
“No SAAL, no Atelier 15, na requalificação do espaço do Mosteiro de Santa Clara a Velha, em Coimbra, e em tantos outros trabalhos, Sérgio Fernandez fez da arquitetura um bem. Partilhar a sua suavidade, o seu afeto e o seu companheirismo foi, para mim, um bem”, afirmou o coordenador bloquista José Manuel Pureza.
O velório de Sérgio Fernandez decorre na quinta-feira, 26 de março, no Tanatório de Matosinhos, entre as 18h00 e as 23h00. A cremação terá lugar na sexta-feira, entre as 15h30 e as 16h45.
O Bloco de Esquerda e o Esquerda.net endereçam sentidas condolências aos familiares e amigos de Sérgio Fernandez.