Obituário

Morreu Maria Emília Brederode dos Santos, pedagoga do Portugal democrático

11 de abril 2026 - 19:04

Com uma vida dedicada à educação, participou na oposição estudantil à ditadura nos anos 1960 e regressou a Portugal após o 25 de Abril para preparar a formação pedagógica dos professores. Ficou ligada a inúmeros projetos que influenciaram a Educação em Portugal.

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Maria Emília Brederode dos Santos (1942-2016)
Maria Emília Brederode dos Santos (1942-2016). Foto publicada nas suas redes sociais.

Morreu este sábado, aos 84 anos, a pedagoga Maria Emília Brederode dos Santos, que presidiu ao Conselho Nacional da Educação entre 2017 e 2022. Em entrevista ao Esquerda.net em 2019, no âmbito da série "Mulheres de Abril" conduzida por Mariana Carneiro,  apontava a curiosidade de o CNE se encontrar no mesmo edifício do Instituto de Tecnologia Educativa, para onde foi trabalhar a convite de Rui Grácio quando regressou a Portugal após a Revolução. "Éramos quatro “estrangeirados” a fazer a preparação pedagógica a distância dos professores, porque naquela altura havia falta de docentes e muitos dos que existiam tinham pouca formação pedagógica", recordava.

O 25 de Abril apanhou-a no exílio na Suíça, juntamente com o marido, José Medeiros Ferreira (1942-2014). Ali estudou e depois ensinou no Instituto de Psicologia e Ciências da Educação em Genebra. Antes disso, participou nas lutas académicas na Universidade de Lisboa em 1962 e nos anos seguintes.

"Em miúda costumava dizer que era monárquica socialista, na adolescência, passei a identificar-me como republicana socialista. De uma maneira geral, mantive um pouco essa linha", afirmou na mesma entrevista. Já depois da passagem pela presidência do Conselho Nacional da Educação manteve intervenção cívica e política, subscrevendo apelos pelo fim das propinas em 2023 ou aos partidos de esquerda para apresentarem as contas das suas propostas eleitorais em 2024. Ainda durante o seu mandato à frente do CNE, que atravessou a pandemia, participou numa conferência online promovida pelo Bloco de Esquerda sobre o papel da Escola Pública na reposta à crise".

Licenciada em Ciências da Educação pela Faculdade de Letras da UL e pelo Instituto de Psicologia e Ciências da Educação em Genebra, Maria Emília Brederode dos Santos foi mestre em Análise Social da Educação pela Universidade de Boston.

No seu vasto currículo destacam-se inúmeros projetos e cargos ligados à transformação da educação em Portugal no último meio século. Presidiu ao  Instituto de Inovação Educacional do Ministério da Educação de 1997 a 2002 e representou o Ministério da Educação na Comissão Nacional para a Educação em matéria de Direitos Humanos. Foi diretora pedagógica do programa televisivo e da revista Rua Sésamo (1987 a 1997) e autora do livro Aprender com a TV, 1991 (Learning with TV, CTW, 1992). Foi presidente da Associação Portuguesa de Intervenção Artística e de Educação pela Arte (2006 a 2008), da Comissão de Avaliação da Escola Superior de Educação pela Arte (1981 a 1982) e do Grupo Interministerial para o Ensino Artístico (1996). Foi autora dos livros Avaliação da Escola Superior de Educação pela Arte, IIE/ME, 1994 e de Os Aprendizes de Pigmaleão, Lisboa, IED, 1985 e 1991 – sobre a sua experiência de formação de professores na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Foi membro da Comissão Instaladora da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal e presidente do seu Conselho Científico e do Conselho Geral até novembro de 2017. Integrou o Conselho de Opinião da RTP.

Em 2004 foi agraciada com a Ordem da Instrução Pública pelo Presidente da República Jorge Sampaio.

Na nota de condolências publicada no site da Presidência da República, António José Seguro evoca-a como "pedagoga e educadora de referência, que dedicou a sua vida à construção de uma educação mais justa, mais humana e mais próxima das crianças e dos jovens portugueses". Destaca igualmente o seu trabalho como diretora pedagógica da Rua Sésamo e de outros programas para a infância da RTP, onde "soube transformar a televisão num instrumento de aprendizagem e de cidadania, num país que ainda trilhava o caminho da democracia e da escolarização universal".

O coordenador do Bloco de Esquerda também homenageou Maria Emília Brederode dos Santos na hora da despedida: “Quando a educação para a liberdade confrontava a ditadura, foi isso que ela fez. E quando a educação para a liberdade confrontava a qualidade da liberdade, foi isso que ela fez. Ninguém como ela casou educação com liberdade”, afirmou José Manuel Pureza.

O Bloco de Esquerda e o Esquerda.net endereçam sentidas condolências aos familiares e amigos de Maria Emília Brederode dos Santos.