Manoel de Oliveira nasceu na freguesia de Cedofeita, no Porto, a 11 de dezembro de 1908.
A sua primeira obra, datada de 1931, foi o documentário “Douro, Faina Fluvial”. Durante os primeiros anos da sua extensa carreira, dedicou-se à realização de vários documentários. Em 1942 deu os primeiros passos na ficção, com a adaptação ao cinema do conto «Os Meninos Milionários», de João Rodrigues de Freitas.
A sua primeira longa metragem, Aniki-Bobó, foi filmada em 1942. Fazem ainda parte da sua carreira de 90 anos filmes como Non, ou a Vã Glória de Mandar, A Divina Comédia, A Caixa, Vale Abraão, Inquietude, O Princípio da Incerteza, O Acto da Primavera, O Estranho Caso de Angelica, Singularidades de Uma Rapariga Loira ou, mais recentemente, O Gebo e a Sombra. A sua última obra - O velho do Restelo - estreou a 11 de dezembro de 2014, no dia em que completou 106 anos.
O cineasta realizou um total de mais de 50 filmes e foi contemplado com inúmeras distinções e prémios, desde a Palma de Ouro de Cannes ao Leão de Ouro de Veneza. Recebeu um Globo de Ouro pela sua carreira. A última distinção - a Legião de Honra francesa- foi-lhe entregue poucos dias antes da estreia de O Gebo e a Sombra.
Nos anos da ditadura, Manoel de Oliveira chegou a ser preso pela PIDE, durante dez dias, devido a alguns diálogos do filme “A Caça”.
Em 2010, num artigo para o jornal Público, falou sobre as condições cada vez mais difíceis que enfrentam os realizadores em Portugal: "Eles, como eu, sempre viveram na precariedade e na insegurança, sem reforma nem subsídio de desemprego, e sem nunca sabermos se não estaremos a fazer o nosso último filme. Eles, como eu, só temos um desejo: todos ambicionamos morrer a fazer filmes”.
Questionado, em 2011, pela revista brasileira Época, sobre o segredo da sua longevidade, afirmou: “Tenho a fertilidade das árvores que sabem que vão morrer. Não estou cansado, só me canso quando não trabalho”.
Nesse mesmo ano, falou ainda ao Diário de Notícias sobre a sua vida, mas também sobre a sua morte: “Não me assusta nada. O sofrimento, sim, a morte não. Quando se morre, solta-se o espírito. O espírito é como o ar que sai. E o espírito sai e junta-se. Ao sair, perde a personalidade, onde está todo o bem e todo o mal, liberta-se desse bem e mal e junta-se ao absoluto, que é a configuração do espírito, o absoluto. É Deus.”
O governo português declarou dois dias de luto nacional e o presidente da Câmara Municipal do Porto anunciou três dias de luto municipal, até domingo.
“A forma como vemos o cinema e a cultura hoje não seria a mesma sem Manoel de Oliveira”
Reagindo à morte do cineasta, a porta-voz do Bloco de Esquerda afirmou que “este é o dia que nós julgávamos que nunca chegava”.
“Habituámo-nos a ver Manoel de Oliveira para lá de todas as probabilidades e os limites humanos a fazer cinema sempre com tanta energia e tanta boa disposição”, avançou Catarina Martins.
A dirigente bloquista frisou que “Manoel de Oliveira marcou o cinema português mas, mais do que isso, marca o cinema europeu”.
“É um dos grandes cineastas europeus. A forma como vemos o cinema e a cultura hoje não seria a mesma sem Manoel de Oliveira. E a maneira como olhamos para o Porto ou para o Douro é certamente diferente depois dos filmes de Manoel de Oliveira”, acrescentou.
“Agora saibamos nós ter metade da sua energia e da determinação, do bom humor e da vivacidade para que possamos ver os seus filmes, desde o Aniki-Bóbó ao O Gebo e a Sombra ou ao O velho do Restelo. É mesmo disso que precisamos: ver os filmes de Manoel de Oliveira!”, rematou Catarina Martins.