Jean-Marie Le Pen morreu esta terça-feira os 96 anos. Era conhecido como fundador da Frente Nacional, o principal partido da extrema-direita francesa, que liderou entre 1972 e 2011.
De pequeno agrupamento marginal, o partido foi crescendo ao longo de décadas. Conseguiu impor-se na vida política francesa e com ele o discurso antissemita, anti-islâmico, racista, xenófobo e homofóbico que era a sua imagem de marca. Aliás, por declarações com este teor foi condenado várias vezes pela justiça francesa, nomeadamente por negação do Holocausto.
Le Pen acabou expulso do partido que fundara por esta questão. Isto depois de ter perdido a luta interna pelo controlo partidário para a sua filha Marine Le Pen e ter sido remetido para o papel de “presidente honorário”. Esta continuou o seu legado mas apostando numa “normalização” do discurso da extrema-direita.
Foi candidato presidencial em 1974, 1988, 1995, 2002 e 2007. O momento mais alto da sua carreira política terá sido em 2002 quando a sua passagem à segunda volta das eleições presidenciais francesas chocou. Acabaria por perder para Jacques Chirac.
Para além disso, foi eurodeputado.
Jean Louis Marie Le Pen nasceu em Trinité-sur-Mer a 20 de junho de 1928. Dizia que começou a trabalhar aos 13 anos. Na Faculdade de Direito de Paris, onde estudou, começou a vender o jornal do movimento da extrema-direita monárquica Action Française. Por essas alturas foi várias vezes condenado por agressões. Foi Presidente da Associação de Estudantes de Direito uma organização anti-comunista, mas acabou expulso em 1951.
Depois estudou Ciência Política e licenciou-se com uma tese sobre o movimento anarquista em França.
Le Pen entrou na Legião Francesa onde fez carreira militar. Depois foi eleito para a Assembleia Nacional nas listas do movimento populista de Pierre Poujade e depois de cortar com este nas listas do Centro Nacional de Independentes e Camponeses de Antoine Pinay. Dirigiu em 1965 a campanha presidencial de Jean-Louis Tixier-Vignancour, um candidato de extrema-direita.
Foi ainda secretário-geral da Frente Nacional de Combatentes, o grupo de ex-combatentes. Foi acusado de tortura durante a sua participação na guerra da Argélia. E proferiu declarações a favor de colaboracionistas da ocupação nazi do seu país.
Depois de ter saído do parlamento, fundou uma empresa do ramo musical e em 1972 a Frente Nacional como partido da extrema-direita. Em 1976, um apartamento seu foi alvo de um atentado. No ano a seguir, a sua fortuna aumenta consideravelmente depois de herdar os bens de um milionário da indústria do cimento que o apoiava.
Nos anos 80, consegue sucesso nas eleições europeias de 1984 com 16 eurodeputados, entre os quais ele, e nas legislativas de dois anos a seguir, com 35, nos quais também se contava. De sublinhar que estas foram as únicas eleições francesas deste tipo a seguir o método da representação proporcional. No Parlamento Europeu, cujas eleições se regem por outras regras, esteve até 2003. Dele esteve suspenso por agredir uma socialista, Annette Peulvast-Bergeal, e acabou mesmo por perder o lugar depois.
Quando Le Pen vinha a Portugal propagandear a extrema-direita
Enquanto se afirmava como o líder mais destacado da extrema-direita europeia, Jean-Marie Le Pen visitou várias vezes Portugal, nomeadamente nos anos 1990.
Em julho de 1990, numa conferência de imprensa em Lisboa de eurodeputados de extrema-direita, veio tentar propagar a xenofobia, dizendo então que Portugal iria passar a ser a favor do encerramento de fronteiras quando cá chegassem os chineses de Macau ou os “brasileiros da favela”. Afirmou, entre várias outras coisas, que o então presidente da República português, Mário Soares, tinha sido apoiante de Estaline e era um mentiroso. E explicou que tinha reunido com “pessoas de direita” em Portugal, recomendando a apresentação de um candidato presidencial.
Francisco Louçã questionou-o durante a sessão sobre o caso de um imigrante português morto em França. Irritado, o chefe da extrema-direita francesa deixa de responder a perguntas e sai da sala. O então dirigente do PSR não desarma e segue-o, afirmando: “tem de perceber que não é bem-vindo em Portugal porque aqui não aceitamos as suas ideias racistas e xenófobas”. Le Pen ainda contrapõe que “nunca fui condenado pela justiça por racismo nem por xenofobia” mas quando Louçã lançou a data do processo em que foi condenado por ter minimizado o Holocausto, limitou-se a retorquir “foi um processo civil”, voltando as costas.
Voltará ainda noutras alturas nos anos seguintes, escudado no estatuto de deputado no Parlamento Europeu, como em outubro de 1992 em Palmela, tendo voltado a ser alvo de contestação de militantes do PSR e da UDP. José Falcão insistiu então aos microfones da RTP que Le Pen não era bem-vindo e voltava a lembrar os ataques imigrantes em França, a xenofobia e o racismo. Regressa ainda em 1993, desta feita à Madeira, e volta a ser recebido por protestos no aeroporto, onde militantes de esquerda gritam: “racista”.