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Morreu Ernesto Cardenal, poeta, revolucionário, padre

Sendo padre, defrontou João Paulo II não renegando à política nem à teologia da libertação. Tendo sido ministro da Cultura sandinista, defrontou Daniel Ortega e foi crítico do seu autoritarismo. Como poeta, era aclamado como um dos principais criadores da América Latina. Ernesto Cardenal morreu esta segunda-feira aos 95 anos.
 Ernesto Cardenal  em novembro de 2014 numa leitura num centro paroquial protestante en Polch, Alemanha
Ernesto Cardenal em novembro de 2014 numa leitura num centro paroquial protestante en Polch, Alemanha. Foto de Rs-Foto/wikicommons.

De dedo em riste, João Paulo II recusou benzer o homem que se ajoelhava perante si no aeroporto de Manágua a quatro de março de 1983. Exigiu-lhe que “antes se reconciliasse com a Igreja”. Com isso queria dizer que Ernesto Cardenal não podia ocupar o cargo de ministro da Cultura da Nicarágua. Como ele continuou, foi suspenso “a divinis” da Igreja.

Ernesto Cardenal, figura importante da Teologia da Libertação, não desistiu daquilo em que acreditava. A fevereiro de 2019, o Papa Francisco levantou a sua suspensão. Já então se encontrava hospitalizado devido aos problemas renais que o vitimaram nesta madrugada, aos 95 anos.

Foi a sua colaboradora de longa data, Luz Marina Acosta, quem transmitiu a notícia: “partiu numa paz absoluta, não sofreu”, disse à AFP.

Poeta e revolucionário

Ernesto Cardenal não foi apenas religioso. Antes disso, estudou Filosofia e Literatura na Universidade de Columbia nos Estados Unidos e no México. Viveu num mosteiro trapista nos EUA. Lutou contra a ditadura somozista e apoiou a Frente Sandinista de Libertação Nacional durante o período revolucionário de 1979 mas, escreveu nas suas memórias, já se tinha “tornado revolucionário muito antes do surgimento da FSLN”. “Foi Cristo que me conduziu a Marx”. Era assim que interpretava o cristianismo, como uma teoria e prática revolucionária, segundo as bases da Teologia da Libertação.

Foi o primeiro ministro da Cultura depois da revolução sandinista. Tomou como prioridade política a democratização da cultura. Em 1987, o cargo foi extinto numa reestruturação ministerial.

Nos anos noventa foi crítico do autoritarismo de Daniel Ortega. Dizia que a revolução sandinista falhou mas que se mantinha revolucionário. Numa entrevista ao New York Times, em janeiro de 2015, respondia: “a Bíblia está cheia de revoluções. Os profetas são pessoas com uma mensagem de revolução. Jesus de Nazaré pega na mensagem revolucionária dos profetas. E nós também continuamos a tentar mudar o mundo e a fazer a revolução. Estas revoluções falharam mas outras virão.”

Apesar do tom crítico ao regime, a sua influência ditou que o atual governo que não poupava marcou três dias luto nacional.

Foi nomeado para o Nobel da Literatura em 2005. “Hora Cero”, “Oracion por Marilyn Monroe y otros poemas” e “Epigramas” são apenas alguns dos seus vários livros. Na sua poesia, tanto a experiência íntima quanto a ciência tinham lugar.

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