Morreu Eduardo Veloso, matemático e resistente antifascista

28 de dezembro 2022 - 12:43

Conhecido como professor e divulgador da matemática, Eduardo Veloso foi também um lutador antifascista, fundador da UDP e ativista das lutas dos trabalhadores na TAP.

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Eduardo Veloso. Foto da Associação de Professores de Matemática.
Eduardo Veloso. Foto da Associação de Professores de Matemática.

Eduardo Veloso tinha 94 anos. Foi militante antifascista e pertenceu aos movimentos católicos progressistas. Foi também fundador da UDP, partido do qual saiu no princípio dos anos 1980. Ficou ainda conhecido como o “Veloso da TAP” pelo seu trabalho sindical na empresa. Para além da sua participação cívica e política, distinguiu-se ainda na sua área de estudos, a Matemática, tendo sido divulgador científico, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e fundador da Associação de Professores de Matemática.

Eduardo Veloso nasceu em Lisboa. Começou a estudar Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico mas no ano seguinte mudou para a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa para estudar Matemática. Aí fez parte da primeira lista de esquerda que ganhou as eleições para a associação de estudantes e foi diretor da sua secção Pedagógica. Completou os estudos em 1951.

Depois, tornou-se professor numa escola técnica. Proposto para uma bolsa de doutoramento na Alemanha, esta foi-lhe recusada após interrogatório pela PIDE. Em entrevista ao Observador, em 2016, explicou que os interrogatórios da PIDE aconteciam sempre que alguém era proposto e adiantou: “Perguntaram-me as coisas mais absurdas. Por exemplo, por que razão assinei um telegrama a pedir eleições livres? Porque é que não votei nas eleições para Presidente da República? E coisas sobre a faculdade.”

Bloqueada a carreira docente pelas suas posições políticas, foi trabalhar para a TAP como navegador, ou seja responsável por dar indicações aos pilotos sobre as rotas. Reformou-se desta empresa aos 60 anos.

Para além disto, foi professor de Matemática na faculdade em que se licenciou e em que mais tarde tirou um mestrado em educação da Matemática. Dedicou-se à formação de professores e escreveu vários artigos, nomeadamente na revista Educação e Matemática, da qual foi diretor, e livros como Geometria: Temas Actuais (1998), Simetria e Transformações Geométricas (2012) e Conexões da Geometria – A Recta Real (2014).

Em meados dos anos 60, fez um programa semanal de divulgação matemática na RTP, o “Aqui há Gato”, na TV Educativa. Foi um dos criadores da rubrica Desafios, do jornal Público, junto com outro matemático, José Paulo Viana e a ilustradora Cristina Sampaio. Esta rubrica apresentava problemas matemáticos para resolução do grande público e venceu o Prémio Ciência Viva nos Media de 2014.

A Associação de Professores de Matemática foi uma das suas paixões. Foi seu fundador em 1986 e sócio número 24. Na nota de pesar emitida por esta instituição pode ler-se: “Quase até ao fim da vida não deixou de estudar e trabalhar sobre Geometria e Arte, insistindo sempre em deixar textos que pudessem úteis para os professores”. Refere-se igualmente que “um dos seus lemas de vida” era “escrever para os professores, discutir com professores as ideias geométricas, o poder do pensamento geométrico e o seu papel ímpar no desenvolvimento da matemática”. A sua afilhada, Margarida Pinto Correia, confirmou à Lusa que um dos projetos em “estava a trabalhar, ainda há escassos meses, era um livro que cruzava a Geometria com a História de Arte”.

Precisamente a arte era outra das suas grandes paixões: da fotografia, que estudou, tendo feito um workshop nos Estados Unidos e sido aluno da Arco, onde mais tarde também foi professor; ao cinema, reunia grupos de cinéfilos em sua casa; à pintura que estudou por dois anos na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, conforme contou em entrevista à revista Noesis em 2007.

As cerimónias fúnebres de Eduardo Veloso iniciam-se esta quarta-feira 15h30 na Igreja de São João de Deus, na Praça de Londres em Lisboa. Na quinta-feira às 17.30, o seu corpo será cremado no cemitério dos Olivais. As suas cinzas serão depositadas na Guarda.