Moda rápida, poluição duradoura

21 de fevereiro 2023 - 10:18

Estudo mostra como a UE “despeja” roupa inutilizável e com componentes plásticos em África. O Changing Markets culpa a indústria do vestuário por “criar uma explosão de roupa de má qualidade e por tentar esconder as consequência com alegações amplamente falsas”.

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Lixeira em Kawangare. Foto do relatório Trashion.

Esta sexta-feira começou a famosa semana da moda de Londres. Foi a ocasião escolhida para divulgar que a União Europeia exporta por ano 37 milhões de peças de roupa inutilizáveis e feitas com materiais plásticos para o Quénia. Trata-se de roupas “demasiado sujas ou estragadas para serem reutilizadas, criando problemas de saúde graves e problemas ambientais para comunidades vulneráveis”. A conclusão é de uma investigação intitulada “Trashion: The stealth export of waste plastic clothes to Kenya” e promovida pela Clean Up Kenya e a Wildlight para a Changing Markets Foundation.

Os investigadores analisam neste documento os problemas derivados “da dependência da moda rápida de tecidos de plástico baratos para fabricar roupas que não estão feitas para serem reparadas ou recicladas” e concluem que “exportar roupas de lixo para os países mais pobres se tornou uma válvula de escape para a sobreprodução sistémica”.

O relatório é acompanhado com imagens de uma lixeira em Nairobi, localizada perto de várias escolas primárias, que, em alguns pontos, tem pilhas de uma altura de um prédio de quatro andares, e cujos detritos chegam a um rio. As roupas aí encontradas ostentam marcas como H&M, Nike e Yves Saint Laurent.

A investigação estima que dos 112 milhões de peças de roupa usada exportados pela União Europeia para o Quénia a cada ano, cerca de um terço contém plástico e são de tão baixa qualidade que são imediatamente enviados para as lixeiras ou queimadas para aquecer água, cozinha “e até alegadamente para servirem de combustível para uma central elétrica”. Os impactos poluentes no solo, água e ar são considerados “significativos”.

“As empresas deveriam ser obrigadas a pagar pelos seus desperdícios”

De acordo com documento, o problema tem vindo a “aumentar significativamente nos anos mais recentes com uma torrente que chega a ser de 17 peças de roupa por ano para cada queniano, cerca de oito das quais inutilizáveis”. E isto, alertam, é apenas uma parte da questão. Pensa-se que a verdadeira escala do problema seja “muito maior” porque esta análise se centrou apenas nas exportações diretas e muitas destas roupas passam por “uma teia de países” que tornam impossível detetar a sua proveniência e chegada.

O Changing Markets culpa a indústria do vestuário por “criar uma explosão de roupa de má qualidade e por tentar esconder as consequência com alegações amplamente falsas”. “As empresas deveriam ser obrigadas a pagar pelos seus desperdícios”, conclui-se. Isto expõe igualmente enquanto “promessas vazias as alegações de sustentabilidade feitas por organizações de beneficência”.

A Europa assinou um acordo, em 2019, para deixar de fazer dumping de desperdícios não recicláveis de plástico para os países mais pobres mas, assinala-se, as roupas usadas não estão incluídas, apesar de mais de dois terços dos têxteis serem atualmente feitos de matérias plásticas como o nylon e o polyester que “quase nunca são reciclados”.