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Moçambique: Daesh captura porto estratégico

O auto-designado “Estado Islâmico” ocupou o porto de Mocímboa da Praia em Cabo Delgado no que é um golpe importante para o exército moçambicano e para os mercenários que o apoiam neste conflito. Um conflito no qual também entram os interesses da Total que explora o mega-projeto de exploração de gás nas proximidades.
Cabo Delgado. Foto de F. Mira/Flickr.
Cabo Delgado. Foto de F. Mira/Flickr.

Depois de quase cinco dias de combates, na noite de terça-feira o Daesh conseguiu controlar o porto de Mocímboa da Praia, em Cabo Delgado, Moçambique. O grupo mostrou nas suas redes de comunicação imagens do local, de agentes das Forças de Defesa e Segurança de Moçambique mortos e de armas e munições capturadas durante o ataque.

Este porto é um local estratégico e fica perto do mega-projeto de exploração de gás, liderado pela Total. A 80 quilómetros deste local, na península de Afungi, distrito de Palma, está a ser construída uma fábrica de liquefação de gás natural. E a ocupação de território representa uma escalada no conflito que dura desde 2017, altura em que começaram a haver ataques de grupos armados na província de Cabo Delgado, alguns dos quais foram reivindicados pelo auto-designado “Estado Islâmico”. O Gabinete das Nações Unidas para o Coordenação de Assuntos Humanitários contabiliza, desde o início dos conflitos, mais de mil mortos e 250 mil deslocados.

Para já, não se conhece ainda o número de vítimas deste ataque. Mas fonte do exército de Moçambique confirmou que “vários colegas nossos da Marinha morreram”.

O negócio dos mercenários em Cabo Delgado

As forças armadas moçambicanas têm sido apoiadas nos combates por mercenários do grupo sul-africano Dyck Advisor que, desta feita, foram transportados de helicóptero a partir de Pemba mas não chegaram a tempo de impedir a ocupação. A empresa do ex-coronel do exército da Rodésia, Lionel Dick, substituiu em março passado o igualmente obscuro grupo de segurança Wagner Group, conhecido por ser próximo de Putin e por servir os seus interesses nas guerras da Ucrânia, Líbia e Síria. Este tinha sofrido vários reveses, mortes de mercenários e helicópteros destruídos. Já no final do contrato do Wagner Group, em março, a vila de Mocímboa da Praia fora ocupada por um dia.

Lionel Dyck é conhecido por ter mudado de lado. Tinha sido apoiante do regime de Ian Smith, que implantara o estado da Rodésia, dominado pelos fazendeiros brancos contra a vontade da maioria da população. Depois passou a comandar o regimento de paraquedistas do exército do Zimbabué. Se na qualidade anterior tinha atacado território moçambicano dada a aliança entre os rebeldes da ZANU e Frelimo, na sua nova qualidade, em 1985 lutou ao lado da Frelimo contra a Renamo. Volta agora a envolver-se em Moçambique através da sua empresa, sediada na África do Sul. Desde o início do seu contrato já terão perdido um avião ultra-ligeiro e um helicóptero.

O El Dorado do gás é Total, mas não é para todos

Em junho, o grupo ambiental Amigos da Terra lançou um relatório sobre o que se está a passar em Cabo Delgado. Intitulado do El Dorado do Gás ao Caos – Quando a França empurra Moçambique para a armadilha do gás, mostra como a descoberta das nonas maiores reservas de gás do mundo naquele país, em 2013, e a sua exploração predatória, não são alheias ao que se passa militarmente no terreno: “a insurgência, supostamente associada ao ISIS e Al-Shabab, foi construída sobre um emaranhado de tensões sociais, religiosas e políticas exacerbada pela explosão das desigualdades e violações dos direitos humanos relacionadas com os projetos de exploração de gás”, afirma o grupo.

“Multiplicam-se” violações dos direitos humanos e “as comunidades estão sendo roubadas de suas terras, acesso ao mar e seus meios de subsistência”.

Para além disto, acusa-se o governo moçambicano de ter optado “pela estratégia da militarização para proteger prioritariamente as instalações da exploração de gás, em detrimento da população”. Enquanto “os principais operadores até pagaram ao governo de Moçambique para mobilizar mais tropas das forças armadas para os proteger”, “nada se faz para atacar as motivações políticas e sociais do conflito e arrancar o mal pela raiz”.

Sobre a questão ambiental, os Amigos da Terra escrevem que “ironicamente, Moçambique está na linha da frente dos impactos das mudanças climáticas, estando classificado como um dos países mais vulneráveis e tendo sido atingido por eventos climáticos extremos há não menos de um ano”. A exploração de combustíveis fósseis “apenas aos lucros das empresas” e ao aumento da corrupção e o país deveria investir em “soluções de energia renovável baseadas nas pessoas”.

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