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“Mina de urânio em Retortillo terá impacto devastador em Portugal”

A instalação de uma mina de urânio perto da fronteira de Almeida tem suscitado enorme preocupação entre as populações de ambos os lados da fronteira. Pedro Soares, deputado do Bloco e presidente da Comissão de Ambiente, defende que “o Governo tem de intervir rapidamente junto das autoridades espanholas”.
Protesto contra a mina de urânio de Retortillo à entrada do estaleiro da Berkeley. Foto Esquerda.net.

Em declarações ao Esquerda.net, Pedro Soares, deputado do Bloco de Esquerda e presidente da Comissão de Ambiente, explicou que uma delegação de parlamentares portugueses teve, este domingo, uma reunião na Câmara de Almeida com autarcas do lado português, que comunicaram “as suas preocupações face à eventual instalação da mina” em Retortillo, e informaram que, desde 2016, já enviaram vários ofícios ao Governo, sem nunca terem obtido resposta.

Pedro Soares relatou que um dos autarcas exortou a Assembleia da República a intervir, e a não deixar que lhes “levem agora a saúde”, lembrando que aquela população já foi muito fustigada, com o encerramento da Caixa Geral de Depósitos, da estação de CTT, etc.



“Isto demonstra bem a enorme preocupação que está a haver relativamente a este problema”, frisou o deputado bloquista, lembrando que a mina ficará localizada a 40 km da fronteira de Almeida, em cima da bacia hidrográfica do Douro, e em frente do Parque Natural do Douro Internacional. Trata-se, portanto, “de uma zona muito sensível em termos ambientais”, frisou.

Reunião com autarcas na Câmara de Almeida.

Conforme alertou Pedro Soares, “a contaminação radioativa através do ar tem uma enorme probabilidade e, para além disso, ficando a mina em cima de um afluente do Douro, toda a drenagem de águas, todas as escorrências da mina vão acabar por ir parar ao rio”.

Já esta segunda-feira, a delegação de parlamentares portugueses, a convite dos autarcas de Villa Vieja de Yeltes e de Boada, e acompanhada, entre outros, pelo presidente da Câmara de Almeida, atravessou a fronteira.

Durante uma visita ao município de Boada, o autarca desta localidade também manifestou a sua profunda preocupação perante a perspetiva de implantação da mina, e agradeceu a presença dos deputados portugueses.

Juan Matías Garzón alertou que, se a mina avançar, irá destruir toda a atividade económica da região, que é muito baseada em produção agrícola e produção pecuária extensiva, deixando a população sem os meios de subsistência tradicionais. Tal como aconteceu há cerca de um século, altura em que quase toda a população desta localidade teve de emigrar para a Argentina por ter sido expropriada, a emigração pode ser a única saída.

Em Villa Vieja de Yeltes, teve lugar uma sessão pública num cineteatro praticamente cheio. Os autarcas deram a conhecer os efeitos devastadores da mina, lembrando que estão também em causa as instalações periféricas, como a fábrica de concentração de urânio, que passa por um processo de lixiviação, o que implica que o material seja mergulhado em ácido sulfúrico.

Durante a iniciativa, que contou também com a presença do presidente da Comissão de Energia do Parlamento Espanhol, e de deputados de várias formações políticas espanholas, Juan Matías Garzón e Jorge Rodríguez alertaram para a possibilidade de contaminação das águas e dos lençóis freáticos.

“Governo tem de intervir rapidamente junto das autoridades espanholas”

O Bloco quer garantir que não volta a acontecer o que aconteceu com Almaraz, ou seja, que não haja lugar a uma intervenção tardia do Governo português.

Sobre esta matéria, Pedro Soares lembrou, que, quando o executivo português “apresentou o protesto na Comissão Europeia sobre a construção do armazém de resíduos nucleares, Espanha afirmou que já tinha a avaliação de impacto ambiental pronta, pelo que não havia nada a fazer”.

“O Governo português ficou numa posição diminuída de negociar apenas um inquérito, uma consulta pública sem qualquer expressão e significado no nosso território”, referiu o presidente da Comissão de Ambiente.

No que concerne à mina de Retortillo, Pedro Soares vincou que “é óbvio” que esta “tem impactos territoriais em Portugal e, de acordo com as normas internacionais, tem de haver uma avaliação de impacto ambiental transfronteiriça, em que estejam envolvidas as autoridades espanholas e as autoridades portuguesas”.

Acusando Espanha de estar a fugir à sua responsabilidade, ao negar-se a proceder a uma avaliação conjunta, o deputado bloquista avançou que o Governo português tem de agir com firmeza relativamente a esta questão.

O projeto de construção da mina em Retortillo tem avançado, com o corte de árvores e a terraplenagem do terreno.

“O Governo tem de intervir rapidamente junto das autoridades espanholas exigindo que sejam cumpridas as normas internacionais sobre esta matéria, nomeadamente a realização da avaliação de impacto ambiental transfronteiriça e a troca de informações urgente sobre todo este processo de implementação da mina”, reforçou Pedro Soares.

“Uma atitude idêntica àquela que o Governo teve no caso de Almaraz terá como consequência uma situação idêntica, com a construção da mina”, e um “elevado prejuízo para as populações não só do lado espanhol mas também do lado português”, alertou o dirigente do Bloco.

Pedro Soares fez ainda referência aos “efeitos devastadores sobre os territórios de Almeida, de Pinhel, de Freixo de Espada a Cinta, de toda aquela região que tem já problemas de perda demográfica muito acentuada, e problemas de uma grande debilidade da estrutura económica”, salientando que, com este projeto da mina, “todas as expectativas de desenvolvimento, que estão muito baseadas no aproveitamento das características culturais, patrimoniais e ambientais da região, vão ficar completamente em causa”.

O presidente da Comissão do Ambiente recordou que Portugal acabou com a exploração de urânio em 2001, mas que o passivo desta exploração ainda se mantém. “Sabemos bem o que é a poluição radiotiva, os efeitos que tem sobre os territórios, o valor incalculável que é a descontaminação dos territórios e o impacto sobre a vida e a saúde das pessoas”, sinalizou.

Para o próximo sábado, está já marcada uma manifestação em Salamanca, convocada pela plataforma Stop Urânio, contra a instalação e exploração da mina de urânio em Retortillo.

Em Retortillo, o projeto de construção da mina vai avançando, com o corte de árvores e a terraplenagem do terreno. A Berkeley estima que a exploração arranque em 2019.

 

 

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