Depois de, na passada terça-feira, forças especiais do exército turco terem entrado no norte do Iraque para atacar os curdos, esta quinta-feira o governo iraquiano protestou contra estes “atos de provocação” e pediu a sua retirada. O embaixador turco, Fatih Yildiz, foi convocado pelo governo e recebeu uma carta de protesto com “as expressões mais fortes” de condenação, de acordo com o governo iraquiano.
A Turquia está a realizar em território do país vizinho a operação militar denominada “garras de tigre”. O seu alvo anunciado serão bases do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Já no domingo a mesma região, Haftanin, fora atacada pela aviação militar turca.
O exército de Ancara explicou que a ofensiva se seguiu ao lançamento de fogo de artilharia intenso contra 150 posições do PKK, contando para além das forças especiais que estão no terreno, com o apoio de aviões, entre os quais F-16, helicópteros, artilharia e drones.
O governo turco alega que o PKK, que desde meados dos anos oitenta luta pela independência do Curdistão, é uma força terrorista e acusa a inação quer do governo iraquiano quer da administração autónoma curda da região. Ameaça ainda outros grupos de “terror” que diz operarem na mesma zona.
Kawa Sheikhmous, um dirigente do PKK, crítica a forma como o governo iraquiano lida com as incursões turcas, dizendo que este “não deveria tolerar esta interferência na soberania do Iraque.” E Zagros Hiwa, porta-voz da ala militar do PKK acrescenta que “estas operações fazem parte do plano da Turquia de se expandir como fizeram na Líbia e na Síria”. Se olharmos para histórico das intervenções recentes turcas, é preciso dar-lhe razão. A Turquia age militarmente no norte da Síria, na Líbia, principalmente na zona oeste, onde apoia o Governo de Acordo Nacional, e intensifica agora a frente no Iraque.
Conivências iraquianas?
As operações turcas no Curdistão iraquiano acontecem com uma certa regularidade, explica à France 24, Adel Bakawan, diretor do Centro de Sociologia do Iraque da Universidade de Soran, que fica nesta zona.
O especialista não acredita na seriedade dos protestos ensaiados pelo governo iraquiano e pelo governo regional do Curdistão contra esta intervenção militar. Diz que ambos “não podiam ignorar a iminência de uma tal operação” e que “bastaria analisar a timidez da reação de Bagdade face aos raides aéreos que a precederam”.
Bakawan denuncia até que as ofensivas se fazem “em plena coordenação com as autoridades do Curdistão iraquiano”, havendo até um acordo assinado em 2013 que o obriga a garantir segurança, no seu território, à Turquia e ao Irão.
O professor universitário liga igualmente esta intervenção de Erdogan a “um projeto mais alargado no Médio Oriente”, afirmando a Turquia como potência regional hegemónica.