Milícia privada alemã ataca trabalhadores em fábrica belga

29 de fevereiro 2012 - 0:33

Um comando de uma milícia privada alemã irrompeu pelas instalações de uma fábrica belga da região de Liège atacando trabalhadores e tentando apoderar-se, "a bem ou à força", de produtos fabricados naquela empresas de componentes de automóveis. Juristas belgas não têm dúvidas de que "este tipo de práticas é ilegal".

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Empresa belga contratou milícia privada alemã para forçar saída da produção da fábrica em greve.

Os acontecimentos ocorreram domingo à tarde na empresa Meister Benelux, com sede na Alemanha e localizada em Sprimon, na região belga de Liège. Cerca de 20 comandos enviados da Alemanha, com as capeças cobertas com capuzes, equipados com coletes à prova de bala, matracas, bombas de gases lacromogéneos e engenhos à base de sprays forçaram a entrada da fábrica, onde cerca de cem trabalhadores se mantêm vigilantes há várias semanas, para tomarem conta das peças entretanto produzidas e forçarem a saída dos camiões com a produção.

Os trabalhadores temem que o objectivo da administração seja o encerramento da fábrica depois do recente anúncio da transferência de importantes encomendas para unidades instaladas em outros países, o que foi entendido como o início de um processo de deslocalização. Por isso mantêm o controlo das peças dentro da empresa enquanto pretendem a continuação das negociações, que a administração fez cair em ponto morto queixando-se de estar "sequestrada" no interior das instalações – de acordo com alguns jornais belgas.

Os comando conseguiram entrar nas instalações atacando os trabalhadores que se lhes opuseram, ferindo alguns, mas depois ficaram retidos no interior devido à mobilização sindical. Assaltaram e revistaram entretanto os espaços dos trabalhadores nas instalações. Acabaram por ser evacuados pela polícia belga, mas os camiões com a produção mantiveram-se no interior da fábrica.

O CSC Metal, sindicato cristão e maioritário na empresa, apresentou queixa do assalto e das agressões, na sequência da qual o tribunal de Liège abriu uma investigação. Danièle Reynders, procuradora do rei, foi encarregada do processo e confirmou o teor da queixa apresentada pelo sindicato.

"Actos como estes decorrem de verdadeiros métodos terroristas e são salvajarias totalmente desconhecidas no nosso sistema de concertação social", declarou um porta voz do sindicato.

A ministra federal do Emprego, Monica De Corninck, condenou a intervençãoda milícia "com a maior firmeza". "O recurso ao que várias testemunhas qualificam como 'milícia privada' e a violência com que parece ter actuado traduzem um comportamento inqualificável digno de um outro tempo e que viola os princípios fundamentais do nosso Estado de direito", afirmou a ministra através de um comunicado.

A responsável governamental afirmou ainda que "não pode subscrever" o alegado "sequestro" da administração mas concorda que é necessário os trabalhadores serem informados e tranquilizados sobre o futuro da fábrica de Sprimont. Segundo a ministra, foi a decisão da administração de tansferir as encomendas para fábricas no estrangeiro que "semeou a perturbação" entre os trabalhadores.

Gilbert Demez, professor de Direito Social da Universidade Católica de Lovaina, qualificou o "golpe de força" da administração como " ilegal". "Um tal comportamento", disse, citado na comunicação social, "é inaceitável por parte de um empregador, sobretudo porque foi montado durante um conflito social na empresa".


Artigo publicado no portal do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu