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México: Autodefesas, quando não restam opções para a população se defender

A influência dos narcos nas instituições governamentais chegou a tal ponto que é impossível discernir entre estado e narcotráfico, o que fez com que a população mexicana perdesse a confiança de que o Estado possam defendê-la da guerra das drogas que engolfa o país.
Os atuais grupos de autodefesa correspondem a um processo retomado em 2012 e 2013.

A recente ampliação das autodefesas comunitárias, no sul do México, representa um dos processos sociais mais profundos deste início de século, ainda que virtualmente ignorado pelos principais meios de comunicação sociais e média mainstream internacional.

As autodefesas, ou policias comunitárias, como também são chamadas, não são um fenómeno novo no México. No entanto, ganharam um impulso fenomenal, nos últimos meses, como podemos verificar pelas esparsas notícias que nos chegam desse país, conhecido entre outras coisas pela famosa tequila que, certamente, já pôs de rastos milhares de pessoas em todo o planeta.

O que são as autodefesas?

Segundo a Wikipédia, os grupos de autodefesa foram criados ao redor de 1995, na província de Guerrero, no sul do México. Os atuais grupos de autodefesa correspondem a um processo retomado em 2012 e 2013. Em 2013, Hipólito Mora, atual preso político no México, organizou as autodefesas na sua cidade, La Ruana, para lutar contra o narcotráfico, que passou a controlar parte da sociedade mexicana de uma maneira sem precedentes.

Durante os últimos anos, a violência dos cartéis do narcotráfico mexicanos são noticias comuns no noticiário internacional. Em particular, os milhares de execuções feitas contra populares e também contra os diversos bandos em luta. Imagens de pessoas degoladas, enforcadas em postes e pontes passaram a fazer parte do panorama diário da população na guerra das drogas que, segundo estimativas, tirou a vida de 60 mil pessoas nos últimos anos e também levou a 20 mil desaparecidos. A guerra, real, que o México vive hoje, com confrontos armados entre os diversos cartéis do narcotráfico, entre o narcotráfico e as forças armadas e, agora, entre o narcotráfico e as autodefesas populares armadas tem arrastado milhões de pessoas num turbilhão social imprevisível.

A penetração do narcotráfico em todo o tecido social mexicano e a sua expansão vertiginosa nas instituições políticas e administrativas levou à criação recente da expressão narco-estado mexicano, que demonstra até onde chegou o poder desses grupos criminosos. Foi contra essa situação concreta que a população do sul do México se tem levantado numa luta de vida ou morte contra o narcotráfico, em particular um poderoso grupo narcotraficante, os Cavaleiros Templários, como são conhecidos.

A penetração do narcotráfico em todo o tecido social mexicano e a sua expansão vertiginosa nas instituições políticas e administrativas levou à criação recente da expressão narco-estado mexicano

O multimilionário mercado negro das drogas que envolve o pais

Segundo as Nações Unidas, em 2003, o trafico mundial de drogas envolvia a fabulosa soma de 331.6 mil milhões de dólares. Para se ter uma dimensão da importância desse mercado negro, para este mesmo ano o Produto Nacional Bruto global era de 36 biliões de dólares, um número impressionante para um mercado que trabalha com um número reduzido de mercadorias, como a marijuana, cocaína, heroína, haxixe e outros alucinogénios químicos.

Neste artigo, abstraímos as considerações morais, técnicas e cientificas do termo “droga”, já que não é o objetivo principal, e referimo-nos a elas apenas como mercadorias especificas que fazem parte de um imenso, nebuloso e complexo mercado negro.

Outras estimativas afirmam que 90% da cocaína consumida nos EUA são provenientes do México, mas as outras drogas também formam um mercado apetitoso, como a marijuana e a heroína.

A utilização de alucinogénios no México é ancestral e provem dos povos originários que habitavam na área antes da vinda de Cristóvão Colombo. No entanto, como comércio, já existia nos primórdios do século XX, como o ópio, por exemplo, difundido pelos imigrantes chineses. O aumento da utilização das drogas em todo o mundo, na década de 60, certamente teve a sua contrapartida no México. Acrescenta-se a esse facto a vizinhança dos estados do norte com a fronteira norte-americana, país que possui o maior mercado de drogas.

Durante as décadas de 70 e 80, o mundo observou a expansão do tráfico na Colômbia com o legendário Cartel de Medellin, cujo principal expoente foi Pablo Escobar. A ascensão dos colombianos levou o México a tornar-se uma rota insubstituível do tráfico de drogas e as máfias mexicanas passaram a trabalhar com os colombianos, transportando as drogas para os EUA. Esse foi, sem duvida, um dos aspetos principais que levou o tráfico a ter o peso que tem atualmente na sociedade mexicana. A morte de Escobar em 1993 e o declínio do Cartel de Medellin, após a sua morte, propiciou aos mexicanos a expansão dos negócios.

O crescimento do tráfico de drogas no México, segundo estimativas, levou a cerca de 500 cidades a envolverem-se diretamente no tráfico de drogas. Os diversos bandos mafiosos ocupam um número aproximado de 1,5 milhões de pessoas e passa de 3 milhões o número de dependentes desse mercado. Os lucros anuais calculados pelo tráfico de drogas no México somam os 25/30 mil milhões anuais.

A teia social que se formou através dessa atividade engloba desde crianças, que são utilizadas para levar as drogas através da fronteira norte-americana; passando por jovens desempregados que não têm outra opção além de se tornarem vendedores dessa mercadoria. A estrutura de distribuição levou a uma brutal corrupção envolvendo a polícia, exército, instituições governamentais e, como não poderia deixar de ser, toda uma série de políticos. É de conhecimento de todos que os traficantes são financiadores da campanhas eleitorais de muitos políticos, e, principalmente do PRI, o Partido Revolucionário Institucional do qual faz parte o atual presidente Peña Nieto. A influencia dos narcos nas instituições governamentais chegou a tal ponto que é impossível discernir entre estado e narcotráfico, o que fez com que a população mexicana perdesse completamente a confiança de que o Estado e as suas instituições possam defendê-la na guerra das drogas que engolfa o pais.

As autodefesas tomam varias cidades do pais e tornam-se num poder paralelo

Num documentário amador feito em comemoração ao primeiro aniversário das autodefesas, o vídeo começa com algumas perguntas: Que farias se o teu filho fosse sequestrado? E se a tua irmã fosse abusada e violada? Que farias se o teu pai fosse executado? E a tua mãe vilmente enforcada?

As ruas estavam cheias de Cavaleiros Templários, armados, como se fossem a Policia Federal. Subiram o preço da carne de 80 pesos para 95 pesos. O aumento era para eles. Eles detinham o controlo total de tudo.”

Um de seus principais lideres, o doutor José Manuel Mireles Valverde, conta a situação na sua cidade, Tepalcatepec, no estado de Michoacan, no sul do México: “Era um povoado com muito temor, um povoado cheio de fantasmas. Nos já sabíamos, pois tínhamos visto nos últimos 12 anos, que estavam a matar as nossas famílias, pouco a pouco. Amarradas de pés e mãos. Nós sabíamos que iríamos morrer. Afortunadamente, escolhemos, selecionamos a maneira como queríamos morrer. Se nos vão matar amarrados, é melhor que nos matem defendendo-nos. É o que estamos a fazer”

O principal fundador das autodefesas, Hipólito Mora, de La Ruana, dá o seu depoimento: “De noite, quando escurecia, as ruas ficavam desertas, o povoado deserto, com as pessoas nas suas casas. Os pais não deixavam os filhos sair. As ruas estavam cheias de Cavaleiros Templários, armados, como se fossem a Policia Federal. Subiram o preço da carne de 80 pesos para 95 pesos. O aumento era para eles. Eles detinham o controlo total de tudo.”

Outro depoimento: “ O que não se podia suportar mais é que violassem as nossas jovens, inclusive, até mulheres casadas, que eram obrigadas a ter relações forçadas. Pois eles eram os que mandavam e intimidavam. Ameaçavam matar o marido, o irmão, a sua família. Tivemos de defender-nos. Defender-nos sozinhos.”

O rastilho, segundo o Dr. Mireles, foi quando os narcotraficantes passaram a visitar a sua casa e diante do próprio marido diziam: “A sua mulher é bonita, daqui a pouco a trago de volta(levando-a para fazer sexo diante do marido impotente diante da ameaça de morte). Mas, a sua filha vai passar vários dias comigo”, e devolviam aos pais as jovens grávidas.

Vivendo numa sociedade em guerra, com o próprio governo a tornar-se sócio do narcotráfico, vendo os seus familiares a ser assassinados diariamente pelos mais diversos motivos, a população decidiu morrer, como diz Mireles, lutando.

Foi assim que em Cheran, La Ruana, Tepalcatepec a população insurgiu-se e defendeu-se com facões, machadinhos, revólveres e espingardas de caça, decidiram enfrentar cara a cara os narcotraficantes. O resultado é que várias cidades no sul do México, e agora também noutras regiões do país, as autodefesas expulsaram os narcotraficantes e impuseram uma nova paz social baseada no poder das comunidades, através de assembleias que controlam os milicianos das autodefesas. Nas cidades libertadas pelas autodefesas, como Cheran, Tepalcatepec e muitas outras, a população pode agora voltar às ruas sem medo, sair de noite para comer um gelado na praça da cidade.

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