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Médicos internos de Madrid em greve “indefinida”

Precariedade, trabalho intensivo, falta de condições de proteção sanitária. Os médicos do internato estiveram na primeira linha do combate à covid-19 em Espanha. Mas pensam ter direito a mais do que aplausos e flores.
Manifestação de médicos em regime de internato.13 de julho, Madrid. Foto de J.J. Guillen/EPA/Lusa.
Manifestação de médicos em regime de internato.13 de julho, Madrid. Foto de J.J. Guillen/EPA/Lusa.

Começou esta segunda-feira uma greve indefinida dos médicos internos residentes da comunidade de Madrid. Para marcar o início desta etapa de luta, houve uma manifestação em que as palavras de ordem foram acompanhadas pelas palmas dos transeuntes.

Esta iniciativa surge depois do Conselho de Saúde da Comunidade de Madrid, governada pelo PP em aliança com o Ciudadanos e o apoio do Vox, se ter recusado negociar a proposta de convénio enviada pelos médicos em regime de internato a 22 de maio. Assim, a 2 de julho decidiram entrar em greve.

Greve marcada, as pressões e ameaças começaram a surgir, denunciaram. Ameaças de não contratação futura, de suspensão de férias, por exemplo. Para além disso, nalguns dos setores foram marcados serviços mínimos de 100%. O principal sindicato a convocar a greve, o AMYTS considera tal medida “intolerável” e acrescenta que a decisão é incompreensível tanto mais que, oficialmente, são “pessoal não estrutural, supondo-se que os hospitais deveriam funcionar sem nós.”

A luta pode não ficar por aqui e médicos de outras regiões podem vir a juntar-se. Na Catalunha, os internos esperam resposta às suas exigências e ainda não decidiram formas de prosseguir a luta. Ao passo que na Comunidade Valenciana, o sindicato Cesmcv já convocou uma greve para dia 21, igualmente depois de não ter tido respostas por parte do governo regional, liderado pelo PSOE eem aliança com a Unidas Podemos e Compromís, às suas exigências.

Precariedade e más condições de trabalho

Estes médicos asseguram que são fundamentais para o sistema funcionar e exigem condições dignas de trabalho. Diego Boianelli, do Comité de Greve MIR Madrid, explica as suas razões ao jornal El Diário: “um residente custa metade ou até menos do que um especialista. Ao serem tão baratos, em todos os hospitais se cortou no pessoal adjunto e se aumentou o número de residentes. Utilizam-nos como mão de obra barata.” Assim, atualmente os hospitais espanhóis “não aguentam nem uma hora sem os Médicos Internos Residentes. São residependentes”, acrescenta. Daí que, ironicamente, os serviços mínimos que pretendem “rebentar a greve”, nas suas palavras, sejam os mesmos que provam a sua importância para o sistema de saúde e, portanto, a justiça do que exigem.

Esta situação é já uma realidade pelo menos desde os anos noventa, dizem, mas a crise do coronavírus tornou-a bem mais visível. Acabaram por ficar na primeira linha das urgências com jornadas de trabalho exaustivas, sobrecarga de funções sem supervisão, stress e sobretudo falta de equipamentos de proteção, tal como necessidade por vezes de partilharem batas e camas sem quaisquer medidas de higienização.

Ao mesmo jornal, Elisa Ruiz do Comité de Greve do Hospital da Fundación Jiménez Díaz, ilustra o que se tem passado: “dormimos numa cama desfeita que outro companheiro acaba de deixar. E mesmo que não compartilhássemos cama, estávamos num cubículo minúsculo com várias camas no mesmo espaço e sem nenhuma segurança”. É por isso que acha que “não é por acaso que um dos grupos mais afetados pelos contágios tenha sido o dos médicos residentes”.

Apesar de tudo isto, os médicos do internato esperaram que a pior fase da pandemia tivesse passado antes de agir. E garantem que se viesse uma nova onda durante esta fase de luta, suspenderiam a greve para acudir à emergência sanitária.

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