Foi identificado surto de covid-19 de grandes proporções nos trabalhadores das câmaras frigoríficas de um matadouro no estado alemão da Renânia do Norte-Vestfália. As instalações fecharam por quinze dias e o governo local aplicou um novo confinamento no distrito de Gütersloh pelo menos durante uma semana. Entretanto, serão realizados massivamente testes para saber como a doença evoluiu na região.
Foram 1.553 os funcionários da Tönnies que testaram positivo ao novo coronavírus. Esta é a maior empresa do ramo no país com 6.500 trabalhadores e o elevado número de pessoas contaminadas gerou revolta.
Depois do sucedido, as condições de trabalho nas câmaras frigoríficas estão sob escrutínio. Em outras quatro instalações do mesmo tipo também tinham acontecido surtos. Em entrevista ao jornal alemão Deutsche Welle, um ex-trabalhador romeno que pediu anonimato, contou o que se passava na Tönnies, onde empresas externas contratam trabalhadores vindos sobretudo da Polónia, da Bulgária e da Roménia.
Segundo o trabalhador, “raramente acabávamos o trabalho nas oito horas acordadas. Muitas vezes eram 12 ou até mesmo 13 horas”. Estas horas não eram pagas.
As condições de trabalho são assim descritas: “era muito frio e húmido e as esteiras andavam muito rápido. Ouvi colegas a chorar no alojamento à noite porque estavam com dores terríveis, as suas mãos estavam inchadas.” Se adoecessem “os supervisores gritavam que não deveríamos aparecer com atestados médicos”.
Contudo, a velocidade das esteiras era reduzida quando chegava a fiscalização e os trabalhadores tinham instruções para dizer que não falavam alemão, revela.
Em causa estão também as condições de alojamento. As empresas colocavam-nos a morar em apartamentos seus que alugavam e onde estavam 10 a 14 pessoas em cada um.
As condições de trabalho são piores para os trabalhadores das empresas externas. Os que trabalharem para a Tönnies, estarão em melhores condições.
Nesse matadouro, também três dos sete trabalhadores portugueses foram infetados com covid-19. Nenhum deles precisou de ser hospitalizando, ficando em casa a recuperar. Um deles falou à Lusa à qual revelou que iam sendo feitos “testes regulares” na empresa. “Foram aparecendo alguns casos, mas nós continuávamos a trabalhar, eram as ordens que tínhamos”, explica. Depois “começaram a mandar gente para casa, iam grupos de 10 pessoas, de 15 pessoas, muita gente. Foi nessa altura que desconfiámos que a doença se estava a alastrar”. Apesar disso, “estávamos a trabalhar como antes, todos juntos, sem qualquer medida diferente (...) Eles queriam que o trabalho não parasse, mas claro, ao estar em contacto com alguém infetado, à partida, mais tarde ou mais cedo, íamos ficar todos doentes. E foi o que aconteceu”, conclui.