O Dia Internacional da Visibilidade Trans é a 31 de março, mas foi assinalado este domingo em Lisboa e Porto com manifestações que ganharam dimensão face ao ataque em curso a partir da Assembleia da República contra os direitos das pessoas trans. Há poucos dias foram aprovados na generalidade projetos de lei do PSD, Chega e CDS para revogar a lei da autodeterminação de género de 2018, retirando direitos e aumentando a preocupação entre as pessoas trans e as suas famílias quanto ao regresso da discriminação na lei portuguesa.
Com cartazes onde se lia "Deixem as crianças em paz", "Somos mais antigas do que as vossas leis" ou “Proteger as crianças da ideologia fascista” e uma faixa de solidariedade com os imigrantes da Rua do Benformoso - por onde passou o trajeto em Lisboa - contra o ódio, ouviram-se palavras de ordem como “abaixo o patriarca”. Salema Yahudah, da Transmutar, uma das organizações promotoras da marcha, disse à agência Lusa que as medidas recentemente aprovadas na Assembleia da República são "medievais" e acrescentou que as "propostas são completamente inúteis".
O deputado bloquista Fabian Figueiredo juntou-se à manifestação em Lisboa e sublinhou a importância desta mobilização numa altura em que “a direita quer produzir um regresso ao passado” com os recém aprovados projetos de lei do PSD, Chega e CDS “que ignoram a ciência e querem impor ao país um retrocesso legislativo”.
“A vida destas pessoas melhorou quando mudámos a lei em 2018, Portugal tornou-se um país melhor, e por isso faremos tudo o que está ao nosso alcance para evitar este recuo civilizacional”, afirmou o deputado do Bloco aos jornalistas. Para esse balanço positivo da lei da autodeterminação de género “ouvimos a Ordem dos Médicos, a Ordem dos Psicólogos, dezenas de especialistas, temos anos de monitorização de uma lei que veio melhorar a qualidade de vida de uma das minorias mais minoritárias da sociedade portuguesa: as pessoas trans”, prosseguiu Fabian Figueiredo.
O deputado lamentou que “por capricho ideológico e por negacionismo científico”, os deputados do PSD, Chega e CDS queiram agora “que Portugal deixe de ser um país avançado em matéria de direitos humanos e comparar-nos a Donald Trump ou a Viktor Órban”.
Fabian Figueiredo acrescentou que esta marcha está “sintonizada com a maioria da população portuguesa”. “Como diz a OMS, ser trans não é uma doença. Não faz nenhum sentido voltar a introduzir a necessidade de um atestado médico para mudar de nome, ou proibir os médicos de prescrever tratamentos que são necessários”, defendeu Fabian Figueiredo, antes de se questionar: “E se a moda pega? Se amanhã tivermos uma maioria de lunáticos na Assembleia da República que ache que a quimioterapia não deve ser usada para tratar o cancro, os deputados vão começar a prescrever quais os tratamentos que devem ser usados? Isto não faz nenhum sentido!”.