Mais um contributo

06 de julho 2011 - 14:19

Contributo de José Ferreira dos Santos

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Tenho participado em vários debates destinados a fazer um balanço das legislativas, da vitória neoliberal e da recomposição da direita, daí resultante, e da consequente derrota do BE e de toda a esquerda.

Nestas reuniões, procurou-se que os debates fossem mais analíticos do que de catarse, afirmando-se sempre a vontade em lutar, dentro do bloco e fora dele, por alterar as situações que possam ter contribuído para a queda eleitoral. E digo queda eleitoral e não derrota porque se calhar, nós no BE, não estávamos preparados para o crescimento eleitoral de há dois anos e daí não termos tido capacidade para o manter.

Considero que houve um excessivo peso da intervenção institucional e uma certa subalternização do trabalho de intervenção local e de penetração no tecido social , que poderá ter provocado um certo isolamento face às novas realidades sociais e políticas que entretanto surgiram.

É essa situação que teremos de alterar.

A assunção pública pelos dirigentes do Bloco de alguns erros de análise e de comunicação e das suas consequências, cometidos nos últimos tempos, poderá contribuir para melhorar a nossa relação com um eleitorado tão volátil como o nosso, mas será pela nossa capacidade de superar esses erros e algumas práticas menos saudáveis que fomos acumulando que poderemos ultrapassar esta fase e relançar o trabalho político sem renegar os princípios, mas agora noutras bases.

As direcções políticas do Bloco, nacionais, distritais e concelhias, têm que estar abertas a ouvir os aderentes e simpatizantes e as suas razões.

Manifesto a minha satisfação por ver tantos camaradas a reclamarem uma maior participação dos aderentes nas resoluções do bloco e em debater melhor as questões que a todos dizem respeito.

Mas não quero deixar de recordar que na altura em que o bloco estava numa fase de grande crescimento, alguns de nós, poucos, ousámos levantar a voz nesse sentido e ficamos a falar sozinhos.

Mais vale tarde do que nunca.

Claro que não fomos a correr mandar recados pela comunicação social, porque o que nos move não era, nem é, a procura de protagonismo pessoal, mas sim melhorar o funcionamento democrático interno e a dinamização da intervenção política.

Várias vezes afirmei que embora a organização tenha que ser consequência da intervenção e não o contrário, se não houver um mínimo de organização que sustente o nosso trabalho, quando dermos por nós estamos completamente sós, com o risco de nos afastarmos das movimentações populares.

Repudio as práticas usadas nas forças políticas burguesas em que a uma derrota eleitoral corresponde uma alteração da direcção . Considero que da mesma forma que as vitórias são assumidas colectivamente, as derrotas deverão, igualmente, sê-lo.

Isto independentemente de achar que é saudável e desejável uma permanente renovação das direcções políticas.

Também como muitas vezes tenho afirmado é necessário que no BE se saiba separar o que é informação do que deve ser a propaganda. Com a segunda procuramos fazer chegar aos nossos concidadãos o que são as nossas ideias e propostas, com a primeira devemos preparar-nos para melhor o conseguir.

Um movimento/partido como o nosso que não pretende ser um mero partido eleitoralista, mas que não pode ser, “apenas” um grupo de discussão, tem que se preparar para a intervenção, não propriamente com escolas de quadros, mas com um debate permanente de ideias que arme os militantes para a discussão institucional e também para aquela que no quotidiano todos vamos tendo.

Os bloquistas têm que estar abertos ao dialogo e à participação em todas as circunstâncias que se apresentem.

Importa abrir o partido à sociedade, mas não através de troca de recados pela comunicação social, que os utiliza de forma oca e dando relevância ao “fait divers”, que desvaloriza o essencial e não contribui para uma esquerda grande e combativa que os tempos que se seguem vão exigir.

Interessa, no momento, analisar os erros cometidos, retirar ensinamentos, evitar a sua repetição e criar condições para seguir em frente, se possível, com mais força e vontade, alargando a nossa intervenção e ajudando a criar uma cultura de intervenção sistemática e não só nos períodos eleitorais.

As novas realidades impõem ao Bloco de Esquerda uma maior responsabilidade a que não pode faltar, se quer ser uma ESQUERDA DE CONFIANÇA.