Luís Fazenda na Catalunha: relato de um observador III

01 de outubro 2017 - 18:46

A posição do PSOE de secundar Rajoy e criticar a repressão é o espelho do oportunismo. Entretanto, em todas as cidades as manifestações parecem ter encontro marcado com o nascer do sol". Luís Fazenda está neste momento na Catalunha, como observador a convite da Generalitat e expensas do Bloco de Esquerda.

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Bombeiros catalães impedem polícia espanhola de invadir centro de voto. Foto de Andreu Dalmaus. EPA/Lusa.
Bombeiros catalães impedem polícia espanhola de invadir centro de voto. Foto de Andreu Dalmaus. EPA/Lusa.

Pela manhã, em muitas secções de voto da província de Tarragona, o ambiente era de uma festa de libertação depois de 2 dias de piquete para impedir a polícia de bloquear as mesas. 

A pouco e pouco foram chegando informações de repressão em algumas secções de Barcelona e Girona por conta da polícia espanhola. Aí, os sentimentos ensombraram mas, a emoção geral foi ao rubro, sobretudo quando ao longo de horas se iam vendo imagens de idosos espancados.

O povo votava e concentrava-se para esperar a polícia numa impressionante unidade. Vi muita a gente a chorar, num choro misto de raiva e reencontro com o futuro. Qualquer forasteiro ficaria tocado com a autenticidade das assembleias quando gritavam República, Votaremos, ou aplaudiam a polícia catalã para a neutralizar. Ou quando contavam o processo clandestino de organização do referendo, como se escondiam as urnas para as trazer no domingo. 

Mesmo em Barcelona e Girona, muitas mesas tiveram votações tranquilas. Ao longo do dia foi-se concentrando muita gente para impedir que a polícia espanhola roubasse as urnas. Neste referendo, a aplicação eletrónica do censo eleitoral foi atacado e recuperado várias vezes. Cinicamente, o governo espanhol veio dizer que a repressão foi proporcionada, depois de focos de violência indiscriminada sobre crianças e idosos.

Rajoy pode clamar que desbaratou o referendo mas foi o aprendiz de feiticeiro que provoca a legitimidade política e ética do independentismo. As centenas de feridos são o manifesto político mais poderoso. 

A noite vai ser longa, com o choque político entre os governos e a expetativa sobre que contagem vai ser feita, sobre se se vai estender a repressão aos governantes da Catalunha, sobre se vai avançar algum processo de declaração unilateral de independência.

A posição do PSOE de secundar Rajoy e criticar a repressão é o espelho do oportunismo. Entretanto, em todas as cidades as manifestações parecem ter encontro marcado com o nascer do sol.

Luís Fazenda está neste momento na Catalunha, como observador a convite da Generalitat e expensas do Bloco de Esquerda.