Levantar do chão e o Bloco de Reinvenção

24 de junho 2011 - 0:43

Contributo de Miguel Sacramento

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Todos os movimentos sociais e partidos têm as suas derrotas e crises internas. O Bloco de Esquerda não foge a esta lei do combate social, das suas dinâmicas, ora vitoriosas, ora derrotistas que fazem parte de qualquer percurso político. Pois todo o movimento do confronto político padece dos mesmos medos, vícios, virtudes e obstáculos. A diferença está na maneira como cada um os encara e resolve.

Toda a derrota é um campo aberto para que todo o potencial criativo se possa revelar. É nas crises e não nas vitórias, que se vê a fibra de que somos feitos e o potencial que existe em cada militante, ou, simpatizante de ajudar a corrigir os erros e voltar a erguer o colectivo de novo.

Mas para se poder “levantar do chão” é preciso que se saiba as razões da queda, mesmo se estas nos custarem a ser desvendadas.

O BE mostrou que não soube ler os resultados de 2009, e a génese da sua base social de apoio. O partido tem vindo a transparecer que está desfasado do discurso da sua base social de apoio e que não a compreende. E na realidade está.

Não são raras as vezes em que se nota que, o discurso militante é um, e o discurso do eleitor é outro. Se o Bloco quiser crescer, ou, voltar a reaver a mesma base social de apoio terá de ajustar o discurso e de o renovar. Nunca esquecendo o conteúdo.

1. Parece que não se quer ver, mas não me parece que a base social de apoio do BE seja de matriz anticapitalista, ou marxista.

O discurso dos militantes parece não estar sincronizado com a visão que os nossos eleitores têm/tinham do "Bloco", como uma esquerda, anti-dogmática, moderna, democrática, arejada, progressista, e plural.

2. A incapacidadede renovar um discurso cada vez mais repetitivo, economicista, e com laivos do passado. Adicionada a tendência que se veio a registar nos últimos meses de um processo de aproximação do modus operandi político “à PCP”. Aliada a uma incoerência e “zigue-zaguear” da linha política ao mesmo tempo. Afasta essa mesma base social. Pois para isso, já existe a CDU, e para “zigue-zagues” o PS.

3. A falta de renovação dos quadros políticos e a necessidade de nascerem novas tendências organizadas por independentes são também urgências para reinvenção do movimento. Para que possa existir um debate mais plural em que os independentes possam participar por meio de novas correntes. Que possam constituir verdadeiros pólos de criação ou absorção de novas ideologias que possam surgir no panorama nacional, ou, internacional que se adeqúem ao espaço político do Bloco. E que possam romper com o “oligopólio” das quatro correntes, integrar mais militantes em tendências organizadas. Para revitalizar e inovar os preceitos ideológicos e discurso no conjunto do partido.

4. A aposta numa verdadeira implementação local e autárquica pelo país. Responsável e com um mínimo de pragmatismo, é essencial para alargar a nossa base social de apoio e de mostrar que o Bloco sabe assumir o poder local com responsabilidade. E que é uma alternativa para o poder tanto nas autarquias como a nível nacional.

O desprezo e uma certa secundarização das prioridades do Bloco face ao poder local, faz com que o Bloco não tenha um enraizamento nas populações e que por consequência fique com um eleitorado mais volátil.

O momento e contexto histórico em que vivemos também não favorável à esquerda não pode ser esquecido, ou, escamoteado. O mesmo contribui para que muito tenha corrido mal, nas últimas eleições legislativas, mas não pode servir para desculpa e desresponsabilização.

Estas principais falhas, se não forem colmatadas podem fazer com que o movimento possa regredir em direcção ao declínio. Pois o Bloco vive do movimento, da constante reinvenção e adaptação. E não de águas paradas, estagnações, ou paz podre.

Neste momento em que a Troika começa o seu ataque aos serviços públicos, salários, pensões e desempregados. Com um governo de Direita, PSD-CDS, é urgente uma esquerda em Bloco inovadora e dinâmica. Que poderá surgir depois deste longo debate, que com certeza vai ser plural, intensivo e chegará a bom porto. Ou eu não nos conhecesse.

É preciso erguer-nos do chão e dizer-lhes:

Aqui estamos nós outra vez. É Esquerda é Bloco. É Bloco de Esquerda.