Entrevista

“A lei deve penalizar patrões que prejudiquem os dadores e apoiar os que promovem dádiva de sangue”

26 de fevereiro 2026 - 11:18

No dia em que o Parlamento debate iniciativas para reforçar os direitos dos dadores de sangue, o Esquerda.net falou com Paulo Cardoso, presidente da direção da Federação das Associações de Dadores de Sangue (FAS-Portugal), sobre os obstáculos que persistem por causa da falta de investimento.

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Paulo Cardoso
Paulo Cardoso, presidente da FAS-Portugal

Em entrevista ao Esquerda.net, o dirigente Paulo Cardoso diz que o principal problema não está na redução do número de dadores, mas na capacidade de chegar a eles através das campanhas de dádiva de sangue. A falta de investimento em meios e recursos humanos dos serviços de sangue no SNS tem dificultado a tarefa e até cancelado algumas colheitas por falta de profissionais de saúde disponíveis. No que diz respeito a mudanças legislativas, Paulo Cardoso defende que o mais importante é que a lei estipule com clareza a penalização das entidades patronais para evitar casos em que o dador é prejudicado nos prémios de assiduidade ou na majoração de férias quando presta voluntariamente este serviço à comunidade.


O número de dadores de sangue tem diminuído em Portugal. O que é que tem contribuído para essa diminuição?

Este é um fenómeno de décadas. Apenas no ano de 2010 conseguimos ter o rácio que a OMS preconiza para garantir que tudo corra bem. Tem a ver com o envelhecimento e a falta de capacidade de captar jovens. Por nossa insistência, o limite de idade em Portugal para dar sangue passou em janeiro dos 65 para os 70 anos, como acontece noutros países, o que é de louvar. A diminuição tem acontecido por toda a Europa, mas é importante ter em conta que o consumo dos eritrócitos (glóbulos vermelhos) também tem vindo a diminuir, graças à modernização das cirurgias que hoje são menos invasivas e assim diminuiu-se a perda de sangue.

Mas afinal há ou não há falta de sangue?

Quando se fala em falta de sangue, não é propriamente falta de sangue, é falta de plaquetas. Infelizmente os casos oncológicos estão a aumentar e os tratamentos de quimioterapia obrigam os doentes a precisarem de suplementos de plaquetas. As plaquetas correspondem a 1% de um saquinho de uma dádiva de sangue. São necessários quatro a cinco dadores para uma pool de plaquetas. Mas isto não quer dizer que seja preciso andarmos a sangrar as pessoas como sangramos em Portugal. Do que precisávamos era de programas de aférese, como existem em força na França e em Espanha: são unidades chamadas separadores celulares, em que o dador vai fazer a sua dádiva e só dá plaquetas ou plasma, que é o que está a fazer falta. Um separador celular pode custar à volta de 25 mil euros. Em Espanha as unidades móveis usam separadores celulares…

E em Portugal não usam?

Por cá, quase que já não temos unidades móveis. O Centro de Sangue de Lisboa tem duas unidades móveis e dois motoristas para todo o sul do país. O nosso problema na dádiva de sangue não é propriamente a redução de dadores, é não conseguir chegar aos dadores, é não aproveitarmos a generosidade dos dadores e o trabalho voluntário dos dirigentes associativos. Falta de meios, falta de recursos humanos… Chega a haver cancelamentos de colheitas porque falta o médico ou o enfermeiro. Há situações em que os dadores organizam a sua vida para poderem ir dar sangue, os dirigentes e voluntários organizam as colheitas, penduram cartazes, fazem a divulgação e depois, com poucas horas de antecedência, recebem a informação de que a colheita teve de ser cancelada. Isto é dramático e desmotiva tanto dadores como dirigentes….

O que é que têm feito para chamar a atenção para esse problema?

Já reunimos com todos os partidos com assento parlamentar, com o Ministério da Saúde, com o gabinete do primeiro-ministro e da Presidência da República, mas continuamos na mesma: há falta de investimento no serviço de sangue. Os próprios profissionais de saúde têm menos compensação no serviço de sangue do que noutros serviços do SNS. E quando abrem concursos, claro que vão para outro lado.

Se não há falta de sangue, como é se explicam as notícias que de vez em quando aparecem e causam algum alarme?

Desde os anos oitenta até agora nunca tivemos falta de sangue. Há, por vezes, quebras nas reservas dos centros de sangue - por exemplo, agora no inverno há sempre quebras -, mas como temos reservas no país todo, vão para onde sejam necessárias. O alarmismo tem consequências porque os dadores são pessoas generosas e quando há uma notícia de que há falta de sangue eles vão em massa dar sangue. O problema é que depois só podem voltar a dar sangue três meses depois no caso dos homens ou quatro meses no caso das mulheres. Em média são necessárias cerca de 1.100 unidades por dia. Se vai toda a gente dar sangue, as reservas ficam no máximo, mas os componentes sanguíneos têm validade. As plaquetas consomem-se todas, mas os glóbulos vermelhos menos… Depois o que é que se faz, deita-se fora o sangue?

Que mudanças na lei é que gostavam de ver aprovadas para reforçar os direitos dos dadores de sangue?

Nós dizemos que o dador precisa de ser defendido. A atual lei do trabalho - e já nem falo do pacote laboral que o Governo propôs… - não o defende. O Estatuto do Dador já prevê que em algumas condições o próprio médico pode isentá-lo do serviço, pois há empregos em que a dádiva não constitui um problema, contudo, há outros em que o trabalho exige esforços. Já recebemos queixas de dadores que foram penalizados no prémio de assiduidade ou na majoração de férias. Se a lei disser que o dador pode ter direito ao dia, se calhar muitos não o vão poder gozar. O mais importante para nós era que a lei defendesse o dador para que haja uma penalização clara da entidade patronal se esta prejudicar os direitos do dador. Há muitos maus exemplos de entidades patronais nesse aspeto, porém, felizmente também há empresas que fazem um trabalho fantástico para incentivar à dádiva de sangue.

E ao nível europeu, o que é que se tem feito em prol da dádiva de sangue?

Foi aprovado um regulamento europeu (SoHo) que está em fase de implementação. Nós defendemos junto dos eurodeputados portugueses que aprovassem esse regulamento e todos votaram a favor, de todos os partidos. Houve países como a Alemanha ou a Hungria em que os seus eurodeputados votaram maioritariamente contra porque nesses países faz-se negócio com plasma. O regulamento prevê a não compensação financeira para não existir negócio e concordamos com essa regra. Apesar dela ter um senão que até nos criou dificuldades nos fóruns internacionais em que participamos: por exemplo, um dador português por ser dador estava isento de taxa moderadora, o que levou participantes de outros países a argumentarem que em Portugal também havia essa compensação financeira a que nós nos opúnhamos no regulamento…

Se a população jovem está mais afastada das dádivas de sangue, isso quer dizer que há falta de trabalho de sensibilização?

A nossa federação faz muitas sessões nas escolas, e incentivamos as escolas a fazerem programas de incentivo à dádiva de sangue, um destes projetos foi incluído na disciplina de cidadania e até foi galardoado nos prémios nacionais de educação (PNE 2025). É um trabalho muito importante; os jovens têm de ter conhecimento e ser sensibilizados, porque serão eles os futuros dadores e também os futuros recetores!

Queremos mais respeito e investimento na dádiva de sangue!