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Líbano mantém a expectativa sobre as fugas de informação

Telegramas dos EUA divulgados pela WikiLeaks tiveram no Líbano um efeito incendiário. Políticos libaneses negam desesperadamente ter passado informações aos americanos sobre o Hezbollah. Por Robert Fisk em Beirute
Outdoors do Hezbollah. Foto de ninjawil

Julian Assange pode alegar que a divulgação feita pela WikiLeaks de documentos dos EUA é para o bem do mundo, mas no Líbano tiveram um efeito incendiário. O partido Hezbollah está a utilizar os telegramas como prova do envolvimento das Nações Unidas com Washington – e assim, por extensão, com Israel – e os políticos negam desesperadamente que tenham passado informações aos americanos sobre o sistema de comunicações secretas do Hezbollah.

Durante semanas, o secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, tem denunciado a decisão do tribunal das Nações Unidas sobre o assassinato do antigo primeiro-ministro Rafiq Hariri como sendo uma conspiração americano-israelita. Diz ele que quem fornece informações de segurança aos americanos é espião israelita.

Os jornais de Beirute dedicaram páginas aos telegramas não censurados dos EUA, nos quais os funcionários libaneses revelaram os nomes de suspeitos de assassinato a diplomatas americanos, um acto que – neste país – pode acabar num caixão florido e lágrimas de crocodilo dos assassinos. Felizmente, a oposição no Líbano optou por aceitar as estranhas e inacreditáveis negativas dos envolvidos. Um surto de violência seria atribuído aos americanos, não à WikiLeaks.

As próximas acusações do tribunal das Nações Unidas – que podem ser misericordiosamente retardadas – já fizeram com que o governo de Beirute se dividisse em campos opostos. Agora os telegramas dos EUA revelam que as Nações Unidas têm, de facto, cooperado com os Estados Unidos, pedindo fotografias de reconhecimento aéreo do Vale de Bekaa e enviado amostras do ADN de Ahmad Abu Adass, o suspeito assassino do Sr. Hariri, para a sede do FBI para serem examinadas.

Um dos relatos mais prejudiciais é uma conversa entre Elis Murr, ministro da defesa Libanês e o então embaixador dos Estados Unidos, Jeffrey Feltman, que diz que o seu governo “interceptou conversas que ligam a Fatah-al-Islam (extremistas islâmicos que travaram uma guerra contra o exército Libanês em 2007) e o regime sírio”. O Sr. Feltman “pressionou Murr a partilhar essas informações através de canais secretos”.

Numa reunião em separado, o ministro do interior libanês, Hassan Sabah, disse ao Sr. Feltman que “ a Fatah-al-Islam está sob o controlo táctico directo da Síria”. O Sr. Murr foi alvo de uma tentativa frustrada de assassinato.

No entanto, mais perigoso ainda é um telegrama de 2008 afirmar que o antigo ministro das telecomunicações libanês Marwan Hamadeh forneceu aos EUA mapas detalhando locais da rede de comunicações do Hezbollah. A rede, de acordo com o antigo embaixador dos Estados Unidos Michele Sison, “abrange os acampamentos palestinianos, e os campos de treino do Hezbollah em Bekaa, e penetra profundamente nas áreas cristãs de Metn e Kesrwan “. O Sr. Hamadeh, que nega estes detalhes, já tinha também sido alvo de uma tentativa de assassinato em que foi morto o seu guarda-costas. Poucas semanas após esta conversa, o Hezbollah tomou Beirute Ocidental, depois de lutas armadas com as forças pró-governamentais nas quais morreram mais de cem civis, devido à exigência do governo de que as redes do Hezbollah fossem destruídas.

Existem alguns detalhes nos telegramas sobre o Líbano que estão comprovadamente errados. Uma alegação de Samir Geagea, um político cristão de direita, que o Irão teria fornecido quinze submarinos à Síria, era manifestamente falsa. O Sr. Geagea recusou fazer comentários sobre este telegrama. Uma outra alegação – que mísseis eram contrabandeados para o Líbano a bordo de aviões com primeiros socorros durante a guerra entre o Hezbollah e Israel em 2006 – é comprovadamente falsa. O aeroporto de Beirute foi bombardeado no primeiro dia dos combates e nunca reabriu até ao fim do conflito.

A acrescentar a isto há um telegrama que mostra que embora as Nações Unidas já não acreditassem que quatro agentes de segurança libaneses detidos após o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri fossem, de alguma forma, responsáveis, o Sr. Feltman escreveu que temia que a sua libertação pudesse levar um deles a “vingar-se” contra a embaixada dos EUA em Beirute. Os generais, conforme noticiado muito mais tarde, permaneceram na prisão.

Tudo isto faz com que os libaneses aguardem com expectativa mais revelações. E aqueles que são mencionados nos telegramas, aguardam ainda com mais medo. A “Irmã” Síria é conhecida por ter feito a sua própria vingança por muito menos. Quanto ao Hezbollah, o seu deputado pela cidade de Tiro, Hassan Fadlallah, diz que os telegramas provam “que os EUA estão a utilizar o tribunal e a comissão de investigação como uma ferramenta para atingir a resistência do [Hezbollah]”.

10 de Dezembro de 2010

Publicado originalmente no “The Independent”

Retirado de Information Clearinghouse

Tradução de Noémia Oliveira para o Esquerda.net

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Sobre o/a autor(a)

Jornalista inglês, correspondente do jornal “The Independent” no Médio Oriente. Vive em Beirute, há mais de 30 anos
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