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Japão autoriza experiências para fazer nascer embriões híbridos animal-humano

Uma equipa de cientistas no Japão foi autorizada pela primeira vez a criar embriões de ratinhos com material genético humano para além do nascimento. Cientistas visam a longo prazo criar órgãos humanos para transplante, mas a matéria é eticamente controversa.
Rato de laboratório. Foto: Rama/Wikimedia Commons.
Foto: Rama/Wikimedia Commons.

Uma equipa japonesa vai efetuar as primeiras experiências autorizadas com embriões híbridos de animais com células humanas que serão dados à luz, visando a prazo replicar órgãos humanos para transplante. O cientista japonês Hiromitsu Nakauchi, investigador nas universidades de Tóquio e de Stanford, pretende cultivar células humanas em embriões de ratinhos e porcos e implantá-los em animais hóspedes, a fim de estudar o seu desenvolvimento durante a gravidez e após o nascimento.

A investigação de embriões híbridos animal-humano é uma área controversa e sujeita a fortes restrições, mas tem feito caminho. Os EUA permitem investigação na área, mas proíbem que os embriões se desenvolvam até ao ponto de poderem nascer, e desde 2015 impuseram uma moratória a experiências na área. O Japão proibia até março deste ano o desenvolvimento de embriões híbridos além das duas semanas de vida, mas o ministério da ciência nipónico levantou a proibição, abrindo a porta para o projeto de Nakauchi. Com a mudança de regras, os investigadores no Japão passam a ter dois anos após o nascimento de animais híbridos para estudar o seu desenvolvimento. Se durante a experiência detetarem que as células humanas constituem mais de 30% dos cérebros dos animais, têm de a suspender — a regra pretende evitar a possibilidade de nascer um animal "humanizado".

Segundo a revista Nature, Nakauchi pretende avançar aos poucos, criando embriões híbridos de ratinhos até perto do nascimento (15 dias) e mais tarde de porcos (70 dias). A ideia é criar embriões animais desprovidos dos genes para a criação de órgãos específicos, como o pâncreas, e injetar neles células estaminais humanas, capazes dar origem a todo o tipo de células específicas. À medida que o embrião cresce, usa as células humanas para desenvolver o órgão que as suas células não podem produzir. Com este método e a estratégia de avanço lento e gradual, Nakauchi pretende responder a um dos principais receios de cientistas sobre este tipo de trabalho: o risco de as células humanas extravasarem o órgão pretendido e chegarem aos tecidos cerebrais do embrião, alterando a sua cognição.

Em 2017, a equipa de Nakauchi fez algo análogo mas dentro da mesma espécie: implantou num embrião de ratinho incapaz de produzir um pâncreas células estaminais de outro ratinho capaz de o fazer. Mais tarde transplantou esse pâncreas para um ratinho que tinha diabetes. O roedor com o novo pâncreas passou a controlar os níveis de açúcar no sangue, "livrando-se" da doença. Em 2018, a equipa anunciou que tentou o mesmo num embrião de ovelha com células estaminais humanas, que se desenvolveu durante 28 dias, mas essa experiência falhou. Nakauchi atribuiu o fracasso à grande diferença genética entre ovelhas e humanos.

Agora, a equipa de Nakauchi, um investigador de ponta na área, poderá ir mais longe de que alguma vez se foi na criação de seres vivos com material genético híbrido. Um passo que dá uma esperança longínqua a quem passa pelas longas listas de espera de transplante de órgãos, mas que envolve enormes riscos e irá despertar toda a atenção da comunidade científica e não só nos próximos anos.

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