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Irlanda do Norte: a política por detrás dos motins

Os políticos unionistas defenderam uma persistente mensagem de medo e alimentaram a raiva da sua comunidade durante anos. A explosão atual é um legado também da longa campanha contra o Acordo da Sexta-feira Santa de 1998. Por David Mitchell.
Distúrbios unionistas em Belfast. Foto de @Scott_Cud/Flickr.
Distúrbios unionistas em Belfast. Foto de @Scott_Cud/Flickr.

Não há nenhum mistério na raiva das bases unionistas que levou à violência de rua na Irlanda do Norte nestas últimas semanas. Dizer às comunidades para estarem zangadas sempre foi a estratégia política dos líderes unionistas durante décadas.

A causa imediata dos distúrbios foi a decisão de não acusar judicialmente alguns eleitos do Sinn Féin por terem violado as regras sanitárias durante a pandemia num importante funeral republicano no passado mês de junho. Em vez de esperarem que as investigações às ações da polícia e do Serviço Público de Acusação chegassem a uma conclusão, os partidos unionistas queixaram-se que a liderança da polícia da Irlanda do Norte apoiava os republicanos e “tinha perdido a confiança da comunidade unionista”.

Os motins contra a polícia começaram em áreas unionistas ou “legalistas” da classe trabalhadora. Os políticos unionistas condenaram os distúrbios mas trataram de “explicar” nos meios de comunicação social a frustração dos jovens desordeiros.

Tudo isto ocorreu no contexto de um “aumento das tensões comunitárias” nas áreas unionistas desde que o Brexit foi implementado no início do ano. Os dirigentes unionistas também ansiavam chamar a atenção para estas tensões, apesar delas derivarem diretamente da política de carrossel sobre o Brexit do Partido Unionista Democrático (DUP).

O partido optou por fazer campanha pelo Brexit apesar das potenciais implicações de um resultado de saída da União Europeia. Depois do referendo, apoiou a proposta mais dura de Brexit e opôs-se ao “backstop” que tinha sido criado para estabilizar a Irlanda do Norte. A seguir confiou em Boris Johnson e foi traído quando o primeiro-ministro acordou estabelecer uma fronteira efetiva no mar da Irlanda entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido de forma a garantir um acordo com a União Europeia. O DUP pareceu estar aberto às oportunidades deste Protocolo para a Irlanda do Norte antes de decidir que era na verdade uma ameaça sem precedentes ao unionismo que podia e deveria ser anulada.

A par do Brexit, havia um impasse de três anos sobre legislação destinada a promover a língua irlandesa que acabou num compromisso previsível. Ainda antes disso houve os “protestos da bandeira” em 2012-13 quando os partidos unionistas mobilizaram durante meses protestos de rua fúteis contra uma decisão democrática do Conselho da Cidade de Belfast de colocar a bandeira unionista na Câmara Municipal apenas em determinados dias.

De facto, a atual raiva das bases é em última análise um legado da longa campanha contra o Acordo da Sexta-feira Santa de 1998. O partido passou anos a inflamar as ansiedades unionistas, cultivando o tropo de que a Irlanda do Norte se tinha tornado “uma fria casa para os unionistas” de forma a derrotar o moderado Partido Unionista do Ulster (UUP) nas eleições. O DUP alcançou-o em 2003, aceitou o Acordo de Sexta-feira Santa praticamente em todas as suas partes em 2006 e entrou no governo com o Sinn Féin em 2007. Ian Paisley, o então líder do DUP, tinha dito a uma multidão em julho de 2006 que isto só aconteceria “por cima dos nossos cadáveres”.

Tempos de mudança

Não admira que os unionistas estejam desorientados. O unionismo político conduziu o seu eleitorado a um ciclo de protesto e acordo mal explicado. Às bases do movimento unionista foi oferecida um estratégia incoerente e explicações impossíveis, enquanto as privações sociais e o poder paramilitar se mantinham.

Um outro tipo de liderança era, e é, possível, um que seja capaz de conduzir o movimento às realidades da Irlanda do Norte contemporânea. A Irlanda do Norte é uma sociedade dividida que deve ser governada em parceria. As dimensões irlandesa e europeia da política e sociedade interessam realmente a muita gente e a união é sólida – ou era – até ao Brexit. Algumas figuras unionistas entendem isto, mas são exceções.

Os unionistas, a todos os níveis, também precisam de ter uma compreensão correta da sua força política. Um artigo recente do cientista político Niall Ó Dochartaigh mostra como a Irlanda do Norte, desde 2017, entrou numa nova, dramática e pouco reconhecida era política. Ainda há uma maioria pró-unionista, mas há uma maioria não-unionista na Assembleia da Irlanda do Norte – uma maioria socialmente liberal, pró-União Europeia e a favor de laços mais próximos com a República da Irlanda. As atuais posições políticas unionistas sobre policiamento e Brexit deixam-nos isolados e podem levar os eleitores unionistas moderados a votar no Alliance Party ou nos Verdes nas próximas eleições.

Entretanto, o Sinn Féin também deu um passo em falso. O imprudente episódio do funeral e a desculpa equívoca que se seguiu causou raiva um pouco por todo o Norte. Isto não beneficia o projeto do Sinn Féin de alimentar o debate sobre uma Irlanda unida, uma vez que uma Irlanda unida está, inevitavelmente, associada com a personalidade deste partido. Os republicanos ainda enfrentam um renovado SDLP, Partido Trabalhista e Social-Democrata. Em geral, o centro, já em crescimento, pode sair fortalecido desta crise.

A Irlanda do Norte ainda é uma história de sucesso de construção de paz. Mas 23 anos depois do acordo da Sexta-Feira Santa, a região deveria reforçar os esforços de reconciliação e de justiça social. Nenhum ator singular é responsável por isto mas os acontecimentos atuais colocam na ribalta o unionismo e a sua persistente mensagem de medo. Até que esta mensagem mude, os desacordos políticos correrão sempre o risco de se derramarem nas ruas.


David Mitchell é professor no Trinity College de Dublin.

Texto publicado no The Conversation. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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