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Investiduríssima: o debate sobre o novo governo espanhol está ao rubro

Insultos, ameaças de judicialização da política e vaias. A direita pontuou assim o debate de investidura do primeiro-ministro em Espanha. Na primeira votação em que precisava de maioria absoluta, Sánchez não venceu. Terça-feira haverá nova votação. Os votos assegurados são suficientes para o “governo progressista” ser empossado.
Pedro Sánchez e Pablo Iglesias cumprimentam-se durante o debate de investidura do governo espanhol. Janeiro de 2020.
Pedro Sánchez e Pablo Iglesias cumprimentam-se durante o debate de investidura do governo espanhol. Janeiro de 2020. Foto de LUSA/ EPA/Juan Carlos Hidalgo.

Na primeira votação de investidura no parlamento espanhol, no passado domingo, Pedro Sánchez não conseguiu obter a maioria absoluta necessária para formar governo. E mesmo a margem da minoria relativa foi estreita: 166 votos a favor, 165 contra e 18 abstenções.

O desfecho já era antecipado. A votação será agora repetida na terça-feira e aí será apenas necessária maioria simples. Ou seja, a mera repetição deste resultado bastar-lhe-à. Tendo em conta que abstenções negociadas à esquerda com a Esquerda Republicana da Catalunha e com os bascos do Bildu são votos seguros e que a deputada catalã Aina Vidal do Unidas Podemos, que faltou devido a doença, confirmou que irá estar presente, não se esperam portanto surpresas.

A favor da tomada de posse do novo governo votarão os 120 deputados do PSOE, os 35 dos vários grupos associados ao Unidas Podemos, os seis do PNV, partido nacionalista basco de direita, e mais seis que representam o Más País, a dissidência do Podemos liderada por Íñigo Errejón, o Compromís, o Teruel Existe, o Nueva Canarias e o Bloco Nacionalista Galego.

Os votos negativos são do bloco mais à direita, PP com 88 deputados, Vox com 53 e Ciudadanos com 10, e dos 8 do Junts per Catalunya, dos dois da União do Povo Navarro, partido regional conservador contra o independentismo basco e próximo do PP, e dos dois das Candidaturas de Unidade Popular, do independentismo de esquerda catalão, para além de 1 do Foro Asturias e 1 do PRC.

Quem mudou de campo foi a deputada da Coligação Canária, Ana Oramas, que votou contra a investidura, contrariando assim a decisão unânime da Comissão Política do seu partido. Oramas anunciou em pleno debate este seu sentido de voto, justificando-o com a acusação de que Pedro Sánchez pactua com “quem quer acabar com a democracia de 1978 e com a monarquia parlamentar” e contribui para a “demolição do Estado tal como o conhecemos”.

Debate tenso: a direita insulta, o PSOE apresenta-se como moderado

O tom da deputada canária foi ao encontro da crispação da direita espanhola. O debate que precedeu a votação da investidura foi tenso, o que permitiu ao candidato a primeiro-ministro encerrar a discussão adotando a postura do moderado que opõe “face ao insulto, a medida; face ao acosso, a temperança e face à ameaça o diálogo.”

Para Sánchez, a “coligação progressista” que lidera seria “o melhor antídoto contra esta coligação do apocalipse”. E face à direita, que apelara aos deputados favoráveis à investidura que mudassem o sentido de voto, o PSOE classificou como “ridículo” o apelo “ao transfuguismo” e considerou “preocupante” a “colonização do discurso do espaço conservador por parte da extrema-direita”.

No sábado, as hostilidades tinham sido abertas com insultos e ameaças de judicialização da política por parte da direita que declarou pretender levar à barra dos tribunais propostas políticas com as quais discorde. Pablo Casado, o líder do PP, para além de ameaçar processar o primeiro-ministro se este não atuar contra o presidente da Generalitat catalã, decidiu utilizar termos como “sociopata”, “mentiroso”, “arrogante” que “perdeu a dignidade” e “anticlericalista guerracivilista (sic)” para descrever Sánchez.

O governo de coligação PSOE/Unidas Podemos seria “radical”, feito com “comunistas assessores de ditadores bananeiros e branqueadores de batusunos [referência ao antigo partido basco Herri Batasuna] e separatistas” e iria “recuperar a agenda internacional bolivariana a favor das narco-ditaduras”, tendo o “coletivismo identitário como bandeira”.

A direita conservadora tentou assim fazer concorrência ao discurso da extrema-direita. Tal como Casado, que dissera que “não haverá recurso que não utilizemos para combater a pretensão de acabar com Espanha”, também o Vox disse que iria fazer valer “todas as ferramentas legais, judiciais e cívicas” de forma a “opor-se ao projeto anti-espanhol”.

Ambas, querem, para além do debate parlamentar, fazer sair a contestação para as ruas. Sábado e domingo houve manifestações. Para o próximo dia 12 foi convocada pela extrema-direita mais uma manifestação sob o lema “España Existe” e contra “o pacto dos traidores”.  Esta causou reações no nosso país, uma vez que o mapa de convocatória incluía Portugal como parte dessa Espanha reivindicada pelo Vox.

O independentismo que viabiliza o governo espanhol

A direita dirige a sua raiva não apenas contra a presença do Podemos no governo mas também contra o acordo com os independentismos que o viabilizam. O catalão é o novo alvo preferido da direita. Com o PP a quer fazer cumprir à força a decisão da Junta Eleitoral Central que retirou o mandato de deputado a Quim Torra por desobediência e Abascal do Vox a querer inclusive a prisão do presidente da Generalitat.

E o basco, como sempre. Durante a intervenção da porta-voz do EH Bildu, Mertxe Aizpurua, lembrou o que dizia o líder independentista basco Otegi: “se surgir uma oportunidade histórica paar que o Estado espanhol se democratize a esquerda independentista estará disposta a colaborar”. A direita respondeu aos gritos. PP, Ciudadanos e Vox, gritaram então “assassinos”, “terroristas” e “viva o rei”.

Os deputados da direita foram advertidos por diversas vezes pela mesa e pela presidente do Congresso. Meritxell Batet declarou mesmo: “houve uma época neste país em que não era permitida a crítica. Por sorte esta época passou. Hoje desfrutamos de uma democracia plena.”

A instrumentalização das vítimas de atentados da ETA levou a que nas redes sociais alguns familiares se tenham insurgido contra a direita. María Jáuregui, filha do ex-governador civil de Gipuzkoa, por exemplo, disse que o pai estaria feliz “porque a ETA não existe, porque vamos ter um governo de esquerda e porque era um firme defensor do diálogo”. O mesmo escreveu nas redes sociais Josu Elesps, filho de um autarca de Lasarte morto em 2001.

Pela parte do PSOE, o seu líder contrapõe à tentativa de escalada do discurso anti-independentista, a ideia de que “não se vai romper Espanha nem a Constituição mas sim o bloqueio.

Por sua vez, a ERC manifestou-se contra o “golpe de Estado” que foi a decisão que afastaria Quim Torra do lugar para o qual foi eleito pela maioria dos catalães.

No acordo com o PSOE, o partido assegurou a existência de uma mesa negocial entre o governo espanhol e o governo catalão que é a sua linha vermelha para apoiar a investidura. E, face às teorias da conspiração avançadas pela direita, o partido assegura “o único pacto secreto é o que vocês fizeram na noite passada na Junta Eleitoral, uma autêntica selvajaria”.

Gabriel Rufián, o chefe parlamentar da ERC, mantém portanto o voto que viabiliza o governo mas deixa desde o início a advertência “não há presidente socialista que tenha chegado a La Moncloa sem a Catalunha ou contra a Catalunha.”

Esquerda: um “governo progressista” com agenda de “construir direitos”

Na sua intervenção, Pablo Iglesias tratou de devolver os insultos à direita: seriam eles, a direita, o Ciudadanos, a extrema-direita, o PP, e a extrema-extrema-direita, o Vox, a ser “anti-Espanha”, eles que “apenas aceitam a democracia e as instituições quando mandam”.

Para o dirigente do Podemos, a direita “não compreende Espanha”, esse país em que ERC, Bildu e BNG “representam cidadãos deste país com a mesma dignidade que vocês”, afirmou dirigindo-se às bancadas da direita.

Iglesias gaba um governo de “coligação progressista histórica” que une “a experiência do PSOE com a frescura e a valentia do Unidas Podemos”, justificando a história de desavenças passadas que até agora impedira este desfecho com a frase “as coisas não saem à primeira”.

Sobre o programa de governo, assegura que é uma referência de “justiça social” que será “a melhor vacina para a maior ameaça que se abate sobre a Europa que é a extrema-direita.”

Direita insiste até ao momento da votação no apelo à deserção

Apesar da arquitetura parlamentar montada por Pedro Sánchez, a direita não desiste da pressão individualizada para que alguns deputados desertem dos compromissos previamente assumidos.

O deputado Tomás Guitarte do pequeno movimento regional Teruel Existe que o diga. Segundo este movimento, o estreante na política tem sido alvo de assédio nas redes sociais, pinturas contra si à porta de casa chamam-lhe traidor, apesar de estar a fazer exatamente aquilo que o movimento diria que iria fazer antes das eleições, e há uma campanha de envio de milhares de e-mails dirigidos a si. Tudo para tentar que mude o sentido de voto à última hora.

Alguns deputados socialistas também estarão a ser pressionados no mesmo sentido. A direita apela a um “tamayazo”, uma referência a dois deputados socialistas da comunidade de Madrid que impediram que os socialistas governassem a região em acordo com a Esquerda Unida em 2003. “A bem de Espanha”, dirigentes dos “populares” pedem diretamente aos socialistas que impeçam a formação do governo. Seria “um chamamento aos democratas à margem das suas ideologias”.

Para além destes apelos públicos, vários deputados também confirmaram ter recebido mensagens privadas mais ameaçadoras. A deputada Beatriz Corredor viu-lhe chegar, entre outras, uma mensagem em que se lia: “mas como é que podes ser tão puta que apoies a investidura de um traidor???”

E, para além dos socialistas, também os outros deputados canários têm sido alvo de pressões para que juntarem o seu voto à deputada dissidente Ana Oramas. Até agora a pressão dirigida em vários sentidos não parece ter surtido qualquer efeito.

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