A coordenadora do Bloco de Esquerda reagiu esta sexta-feira ao pacote de ajudas anunciado na véspera em Conselho de Ministros para as regiões afetadas pelos incêndios das últimas semanas. Manifestando-se de acordo com os apoios anunciados, Mariana Mortágua diz que a sua preocupação “é que eles cheguem ao terreno o mais rapidamente possível”. Nos próximos dias a coordenadora bloquista irá visitar algumas das zonas que arderam no Centro do país e contactar com as populações afetadas.
O acordo quanto às medidas - apesar de considerar não ter sentido a da isenção “das taxas moderadoras que já não são cobradas” há alguns anos - não esconde a divergência de fundo com a abordagem de Luís Montenegro à questão dos incêndios florestais, quando um país teve a maior percentagem de área ardida da Europa e também "a maior área protegida ardida em 50 anos".
Incêndios
Portugal é o país com mais percentagem de território ardido na UE em 2025
Referindo-se ao lamento do primeiro-ministro sobre se ele próprio terá contribuído”para uma perceção de que não estaria a acompanhar o caso como deve ser”, Mariana Mortágua responde que “o que conta em política não são perceções, são factos”. E os factos indicam que houve atrasos na reação aos incêndios, na preparação dos meios e no acionamento dos meios internacionais de apoio.
“Não se engane em achar que o problema face à resposta do Governo é de perceções”, prosseguiu Mariana, contrapondo que o problema foi a “falta de capacidade de organização do Governo, falta de capacidade de prevenção e intervenção atempada e também a falta de capacidade e noção do Governo para compreender a empatia que é preciso ter nestes momentos com o país que está aflito e preocupado com estas situações”.
Outra das perceções em que Luís Montenegro baseou a resposta aos incêndios de 2024, quando “a mensagem era ‘vamos apanhar e punir os incendiários’”, também não resiste à prova dos factos que apontam que a maior parte das ignições não são de atividade criminosa provocada e que muitas vezes são por negligência.
“Ao centrar-se nesta perceção, [Montenegro] fez com que os meios de prevenção e proteção das populações não estivessem preparados para enfrentar uma nova época de incêndios”, afirmou Mariana Mortágua, concluindo por isso que “governar com base em perceções e não em factos é errado e desprotege o país e isso está hoje bem patente”.
A coordenadora do Bloco lembrou ainda que depois dos incêndios de 2017 “houve um relatório que identifica todos os erros e todas as medidas de combate aos incêndios rurais. E a maior parte delas não está em vigor”. E deu o exemplo do programa Aldeia Segura, que esteve em vigor durante uns anos e “foi abandonado nos últimos anos”, levando a que haja aldeias onde “os pontos de água não funcionam, os pontos de refúgio não funcionam e substituiu-se isso por uma campanha publicitária que custa dois milhões de euros sobre prevenção, que é muito importante mas não substitui a organização no terreno”.