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Incêndio da Serra da Estrela dominado, consequências durarão décadas

O Parque Natural tem habitats extremamente raros e vulneráveis e houve danos enormes à sua biodiversidade. Este incêndio teve impactes severos sobre a flora, fauna, território e populações dizem os ambientalistas.
Incêndio na Serra da Estrela. Foto de NUNO ANDRÉ FERREIRA/LUSA.
Incêndio na Serra da Estrela. Foto de NUNO ANDRÉ FERREIRA/LUSA.

O incêndio da Serra da Estrela, que começou no passado dia 06, foi dado como dominado às 23.36 de sexta-feira e prevê-se que esteja completamente extinto dentro de dois dias de acordo com o segundo comandante da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, Miguel Cruz.

O balanço ainda não definitivo indica que terá ardido até ao momento uma área de 14.757 hectares, tendo havido 16 feridos ligeiros, 13 bombeiros e três trabalhadores do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. Houve, para além disso, três feridos graves e dois ligeiros devido a um acidente com os Bombeiros de Loures. As 116 pessoas da vila de Linhares que foram obrigadas a sair das suas casas já puderam voltar e registam-se danos em “quatro dependências agrícolas, dois veículos e duas segundas habitações e alguns edifícios devolutos” diz a mesma fonte. A Lusa acrescenta que três casas de primeira habitação foram consumidas pelas chamas daquele que é considerado o maior fogo florestal desde o de 2017 em Pedrógão Grande.

O comandante indicou ainda que o total de energia libertada pelo incêndio nos seus vários dias foi de 766 terajoules de energia. A 10 de agosto, o pior deles, libertaram-se 242 terajoules. “Do ponto de vista de energia libertada, a bomba atómica de Hiroxima representou cerca de 30 terajoules, portanto, isto representa cerca de 25 bombas de Hiroxima, do ponto de vista de energia libertada”, esclareceu.

Este balanço imediato não é, contudo, o único a fazer. O próprio ministro da Administração Interna, José Luís Carneiro, classificou o sucedido como “uma tragédia ambiental”. Associações ambientalistas como a Quercus sublinham “os impactes severos sobre a flora, fauna, território e populações”. Dadas as críticas sobre a coordenação de meios de combate a este incêndio, a organização pediu em comunicado, na sexta-feira, uma avaliação independente. Defendeu igualmente a máxima prioridade na definição de medidas de emergência de gestão pós-fogo e que sejam criadas condições para a pequena agricultura e pecuária, “essenciais para a fixação da população nestes territórios de montanha, mantendo a biodiversidade”.

E é esta biodiversidade que ficou em perigo. No mesmo texto alerta-se que o incêndio colocou em risco zonas de teixo, “árvore ameaçada que ocorre em Portugal apenas em parte da Serra da Estrela e Serra do Gerês” e áreas onde vive a lagartixa-de-montanha e a salamandra-lusitânica, “endemismos ibéricos que apenas ocorrem no noroeste da Península Ibérica e que têm o seu habitat destruído pelo fogo”. Para além destas espécies, o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas salienta a importância das turfeiras e cervunais que integram o Parque Natural da Serra da Estrela.

O panorama fez o dirigente da Quercus, Domingos Patacho, considerar que a recuperação demorará décadas e podem mesmo haver locais que ficaram irremediavelmente perdidos. O engenheiro florestal disse à Lusa que “parte das áreas do Parque que são matos podem regenerar-se. Mas não estamos a falar de 10, ou 100 hectares. Estamos a falar de milhares de hectares, de habitats dos quais dependem muitas espécies de animais, os insetos polinizadores, a lagartixa-de-montanha… tudo isto funciona em cadeia”.

Para além disto, as zonas de pinheiro bravo vão demorar décadas a repovoar-se. Este espécie arde mais facilmente do que folhosas como faias que “poderão por isso regenerar-se mais facilmente”. Seria assim preciso no futuro “ter áreas mais compartimentadas” e “mais folhosas”.

O especialista diz ainda que “o mais preocupante como consequência do incêndio são as encostas íngremes do Vale do Zêzere, agora sem árvores e sujeitas à erosão quando chover, como aliás já aconteceu no passado, com o arrastamento de terra e rochas”. Conter a erosão e travar o arrastamento de terras em sítios sensíveis devem ser prioridades.

Paulo Lucas, da Zero, destaca por sua vez que entre 2017 e 2021 arderam 21.884 hectares do Parque Natural da Serra da Estrela, ou seja um quarto do total da zona protegida, tornando-o “o parque que mais área ardida tem”. Este ambientalista explica que a zona tem condições climatéricas que fazem com que surjam comunidades e habitats únicos mas que ainda não se consegue avaliar em que medida estes “habitats extremamente raros e vulneráveis” foram destruída. Numa zona assim “qualquer destruição pode tornar-se catastrófica”, avisa.

O biólogo do Centro Interpretação da Serra da Estrela, José Conde, também alerta para os “danos enormes” à biodiversidade causados por este incidência.

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