França

Imigrantes e filhos e filhas de imigrantes portugueses: para que a história não se repita no país que nos acolheu

04 de julho 2024 - 15:17

Somos de origem portuguesa e vivemos em França. Numa altura em que a União Nacional está à beira do poder, apelamos às pessoas cuja história familiar está ligada à imigração portuguesa para que se organizem e utilizem todos os meios necessários para se oporem à ascensão da extrema-direita em França, que não tem de ser inevitável.

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Imigrantes portugueses no bidonville em Champigny-sur-Marne, 1964
Imigrantes portugueses no bidonville em Champigny-sur-Marne, 1964. © Coleção de Gerald Bloncourt

Somos imigrantes, filhos e filhas de imigrantes portugueses. Como muitos outros antes e depois deles, os nossos pais vieram para França para construir uma vida melhor. Conheceram as dificuldades do exílio e da passagem clandestina das fronteiras, a humilhação das filas de espera intermináveis na prefeitura. Tal como outros, tiveram sérias dificuldades em encontrar alojamento numa França onde entraram de rompante. Muitos deles viveram em bairros de lata, em bairros de passagem ou em barracas.

Trabalhavam nos empregos mais precários: operários da construção civil e na agricultura, empregadas de limpeza e porteiras. O patronato francês exaltava na altura as virtudes de uma mão de obra servil, domesticada em Portugal pelo regime fascista de Salazar.

Escárnio por não dominarem a língua francesa, acusações de roubo de trabalho aos franceses, agressões verbais e, por vezes, físicas aos trabalhadores por parte dos patrões... Em França, os nossos pais foram vítimas de bullying, de chacotas racistas e de outras violências simbólicas. Por vezes, isto conduziu a crimes. Como em 1973, quando um grupo de bandidos fascistas assassinou o operário português Fernando Ramos à saída da fábrica onde trabalhava em Vitry-sur-Seine.

As nossas famílias transmitiram-nos estas histórias e o seu sofrimento, por vezes sem uma palavra. Crescemos em França, onde o estatuto social dos nossos pais e as nossas origens nos eram habitualmente atirados à cara. Assumimo-las e orgulhamo-nos delas. Acabámos por criar raízes em França, onde nos tornámos cidadãos franceses, optando pela dupla nacionalidade quando possível. À nossa volta, os nossos amigos eram de origens diversas. Nos meios de comunicação social e entre os políticos, assistimos à subida em força de um discurso racista que atinge os imigrantes das antigas colónias francesas.

Pelo contrário, os portugueses em França foram sendo progressivamente elogiados pela sua “boa integração". E, embora o racismo não tenha desaparecido, são frequentemente retratados nos media e no discurso público como uma "comunidade modelo". Mas estes comentários não visam tanto descrever a integração dos imigrantes portugueses e dos seus descendentes, que continuam a estar sobre-representados nas classes populares. Eles procuram sobretudo legitimar um discurso racista em relação às imigrações pós-coloniais.

Querem lançar as comunidades umas contra as outras. A extrema-direita não hesita em exaltar as virtudes de uma pseudo-integração à portuguesa, explorando os fait divers que parecem corroborar os seus estereótipos. É o que o sociólogo Albano Cordeiro apelidou de "para-raios magrebino": a aparente e falsa benevolência da sociedade francesa face aos imigrantes portugueses permite concentrar a maior parte da violência racista sobre outras comunidades.

No tempo do bidonville de Champigny-sur-Marne, nos anos 1960, convém lembrar que os imigrantes portugueses viviam e mobilizavam-se em solidariedade com os imigrantes argelinos, tunisinos e marroquinos. Nos nossos arquivos há jornais escritos em português e árabe, associações de apoio, artigos de jornais que relatam lutas conjuntas anticoloniais. É desta solidariedade que desejamos ser hoje os herdeiros e herdeiras.

É bom que os portugueses e descendentes de portugueses que se deixam seduzir pelas palavras meigas dos dirigentes da União Nacional tenham cuidado. A exclusão e a discriminação estão no cerne do projeto deste partido xenófobo e racista. Não esqueçamos: a União Nacional, mesmo quando desdiabolizada pelos meios de comunicação de Bolloré, continua a ser um arauto das mesmas ideias que levaram os nossos pais e avós a fugir para França. Queremos que a história se repita no país que os acolheu?

Este ano comemoramos os 50 anos da Revolução dos Cravos. No dia 25 de abril de 1974, a ditadura mais longa da Europa e o seu velho império colonial desabaram como um castelo de cartas. Seguiu-se um intenso período de experimentações sociais e revolucionárias que lançou as bases da atual sociedade portuguesa. A esperança que nasceu nesse dia materializou-se num slogan simples e popular: "25 de abril sempre, fascismo nunca mais". Ela nunca foi tão atual.


Subscritores:

Mickaël Correia, jornalista

Céline Costa, cantora

Laurent Duarte, militante associativo

Bárbara Gomes, professora, deputada eleita por Paris

Ugo Palheta, sociólogo

Victor Pereira, historiador

Lucas Roxo, documentarista e professor

Hugo dos Santos, jornalista e realizador de cinema

Ana Maria Torres, tradutora, editora e autora

José Vieira, realizador


Manifesto publicado em L'Humanité. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net