A ideologia e o discurso

25 de junho 2011 - 0:30

Contributo de José Carlos Gomes

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Perante uma ofensiva ideológica sem precedentes do campo neoliberal, o Bloco de Esquerda respondeu, na campanha eleitoral e no período anterior, com uma afirmação vigorosa de princípios ideológicos antagónicos ao neoliberalismo dominante. O resultado foi uma derrota eleitoral gigantesca. Deveria ter abdicado dos princípios ideológicos para obter melhores resultados? Não, mas...

As últimas legislativas disputaram-se num quadro de grande dificuldade de afirmação de ideias alternativas. Nunca como neste acto eleitoral os cidadãos foram bombardeados, durante meses, com o discurso da inevitabilidade. Criou-se um consenso generalizado de que não havia alternativa às medidas da troika, subscritas pelos três partidos do bloco central de interesses. Os comentadores supostamente independentes e os chamados "comendadores da nação" deram a cara por esta campanha, credibilizando-a.

No fundo, assistimos a uma intensa acção de manipulação ideológica, vendida como se fosse apenas a constatação de uma realidade evidente. O segredo desta manipulação das massas foi a construção de uma manobra ideológica, embalada como se fosse uma isenta interpretação da realidade.

Contra isto, o Bloco exacerbou o discurso ideológico. Fez mal. Condicionados pela campanha mediática do poder dominante, os eleitores começaram a ver o BE como um bando de lunáticos, cheios de princípios bonitos, mas irrealistas. E as propostas do BE nunca foram tão realistas, sensatas e comedidas como nesta campanha. Embrulhadas em ideologia, as ideias bloquistas esbarraram numa sociedade que fora amestrada pelos que detêm o poder.

A recusa do encontro com a troika causou indignação generalizada, porque a comunicação social foi passando a ideia de que as instituições internacionais viriam ajudar o país. Deveria, de facto, o BE ter-se encontrado com a delegação forasteira. Dizendo de viva voz à troika os motivos por que as medidas por ela propostas só serviriam para aproximar Portugal da bancarrota. Isso credibilizaria a argumentação bloquista.

Mas mais do que esta falha táctica, o que prejudicou o BE foi o discurso. Provou-se mais uma vez que a sociedade está suficientemente adormecida pelos meios de entretenimento dominante, vulgo órgãos de comunicação social. No actual estado da sociedade, os discursos ideológicos claros não são aceites nem compreendidos pela generalidade dos cidadãos. É preciso saber dizer as mesmas coisas com outras palavras, vestir a ideologia com roupagens modernas. Um exemplo? Dou um da direita. Paulo Portas propôs a redução generalizada dos salários e o aumento da precariedade, mas nunca o disse porque isso seria a morte política do artista. Pelo contrário. Afirmou coisas passíveis de aceitação generalizada. A fórmula para a redução salarial foi a proposta de criação de um tecto máximo baixo (vencimento médio nacional no sector privado) para o subsídio de desemprego, "porque não se pode incentivar a preguiça e é preciso estimular a procura de novo emprego". É evidente que, numa sociedade de mercado, de oferta e de procura, esta medida faria baixar as retribuições pelo trabalho. Esse era o objectivo de Portas, o mesmo que prefere um contrato sem termo a um contrato a prazo, um contrato a prazo a um recibo verde e um recibo verde ao desemprego. Todos concordam com esta argumentação. Mas que significa ela? Aumentar a precariedade, o que, conjugado com os tectos no subsídio de desemprego, permite enfraquecer a posição dos trabalhadores e ajuda à redução salarial e dos direitos. Não me lembro de propostas ideológicas tão fortes por parte da nossa direita. Mas foram travestidas de medidas moralizadoras para obterem alargado consenso.

Ao BE faltou, na minha opinião, usar truques deste género. Criar fórmulas de linguagem que ajudassem o cidadão comum a sentir empatia pelas propostas ideológicas do partido. O discurso ideológico disparado de chofre causa repulsa numa sociedade politicamente alienada. Do mesmo modo, a acção política nos próximos meses não pode ser marcada pela recusa liminar das medidas do Governo. O BE terá de perceber que o eleitorado, maioritariamente politicamente analfabeto, olha com esperança para o novo Executivo. A oposição terá de ser cuidadosa. Será necessário dar sinais de abertura para negociação, mostrar vontade de diálogo e só depois recusar o consenso, explicando, caso a caso, de que forma as medidas são gravosas para as pessoas e quais as alternativas consistentes e realistas do BE. É necessário um jogo de cintura táctico e político que preserve a ideologia sem fazer da sua afirmação diária o objectivo máximo. Porque a ideologia só poderá ser colocada em prática se os cidadãos, com grande iliteracia política funcional, apreenderem a mensagem.