Uma investigação de um consórcio de jornalistas do leste europeu, publicada esta quarta-feira, revela como o ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria, Péter Szijjártó, agiu a favor do Kremlin para retirar oligarcas, empresas e bancos russos da lista de sanções aplicadas pela União Europeia após a invasão da Ucrânia. Em 2021, Szijjártó recebeu de Vladimir Putin a Ordem da Amizade, a condecoração mais importante atribuída a estrangeiros, que lhe foi entregue pessoalmente pelo ministro dos Negócios Estrangeiros russo Sergei Lavrov.
Hungria
Governo húngaro ataca jornalista que divulgou contactos do ministro com Moscovo
Os telefonemas entre Sergei Lavrov e Péter Szijjártó deixam clara a influência do Kremlin sobre o governo de Viktor Órban. Num deles, em agosto de 2024, logo após uma visita do ministro húngaro a São Petersburgo, Lavrov lembra-o que ficou de tratar do caso da irmã do oligarca russo Alisher Usmanov, magnata de origem uzbeque e um dos mais próximos de Putin, que tinha sido incluída na lista de sanções da UE. Szijjártó responde a Lavrov que já tem em marcha uma proposta a apresentar em conjunto com o homólogo eslovaco para a tirar da lista na revisão seguinte. Sete meses depois, Gulbahor Ismailova foi retirada da lista de sanções juntamente com outras pessoas, após a Hungria e a Eslováquia ameaçarem bloquear a extensão das sanções por mais seis meses.
Esta é uma das muitas conversas mantidas entre os dois governantes entre 2023 e 2025, que contêm informação sensível sobre discussões mantidas à porta fechada em Bruxelas e Budapeste. A atitude dos dois interlocutores é vista por um responsável de um dos serviços de informações europeus citado na notícia como uma prova de que o ministro húngaro agia às ordens do homólogo russo. “Se retirarmos os nomes e mostrarmos estas conversas a qualquer agente responsável dos serviços de informações, ele vai jurar que se trata da gravação de um agente dos serviços secretos a lidar com o seu informador”.
Na mesma conversa com Lavrov, Szijjártó conta uma discussão que o opôs no conselho de ministros dos Negócios Estrangeiros da UE ao homólogo lituano Gabrielius Landsbergis, que criticava a Hungria e a Eslováquia por continuarem a comprar gás e petróleo russo, com o húngaro a responder que todos os europeus o faziam, só que indiretamente através d Índia e do Casaquistão.
“Putin tem um infiltrado em todas as reuniões oficiais da União Europeia e da NATO”
Landsbergis confirma que a discussão ocorreu mesmo. “Parece que, durante todo este tempo, Putin teve – e continua a ter – um infiltrado em todas as reuniões oficiais da União Europeia e da NATO. Para que a integridade dessas reuniões seja mantida, seria adequado excluir a Hungria de todas elas. Cada geração tem o seu Kim Philby [o célebre agente duplo na direção dos serviços secretos britânicos que espiava para a União Soviética]. Parece que Péter Szijjártó está a desempenhar esse papel com entusiasmo”, diz o ex-ministro lituano.
As sanções a pessoas e empresas russas são renovadas a cada seis meses por consenso entre todos os países da UE, dando à Hungria e à Eslováquia grande poder negocial. Noutros telefonemas, o ministro húngaro é apanhado a discutir com o vice-ministro da Energia russo Pavel Sorokin nomes de pessoas, empresas e bancos a retirar da lista de sanções no verão passado.
Os dois governos costumam iniciar o processo apresentando uma longa lista de nomes que querem ver retirados por razões políticas, acabando por reduzir a dois ou três nomes. Só na revisão deste ano, no vigésimo pacote de sanções aprovado em fevereiro, é que a Hungria decidiu vetar a proposta, exigindo uma investigação ao ataque ucraniano contra o oleoduto de Druzhba que transporta petróleo russo para a Hungria e Eslováquia. Da mesma forma, bloqueou um empréstimo europeu de 90 mil milhões à Ucrânia decidido em dezembro. A equipa europeia de investigação está há semanas na Ucrânia à espera de autorização do governo para iniciar o seu trabalho, mas é conhecida a relutância de Zelensky em ver reparado o oleoduto que ajuda a financiar a guerra contra o seu país.
Líder da oposição húngara fala em “traição” do ministro, Szijjártó desvaloriza a notícia
As revelações ocorrem no meio da campanha eleitoral para o parlamento húngaro, quando as sondagens indicam a possibilidade de Órban perder para a oposição. Nas últimas semanas foi notícia o apoio do Kremlin à campanha de Órban, com o envio de Sergey Kiriyenko, um especialista em operações de influência política com provas dadas na interferência nas eleições moldavas. Um dos jornalistas de investigação húngaros envolvidos nesta reportagem foi mesmo acusado pelo governo de ser um espião ao serviço da Ucrânia.
O líder da oposição húngara Peter Magyar, à frente nas sondagens para as eleições da próxima semana, diz que as ações do ministro, “de acordo com o Código Penal húngaro, são definidas como traição e punidas com prisao perpétua”. O candidato afirma que Péter Szijjártó, “descrito como o ‘ajudante’ de Sergei Lavrov, não representa os interesses húngaros nem europeus, mas mantém a liderança russa informada através de uma linha direta, transmitindo informações confidenciais.”
Já o visado na notícia desvalorizou o assunto nas redes sociais: “Hoje fizeram mais uma ‘grande descoberta: provaram que eu digo o mesmo em público do que digo ao telefone. Bom trabalho!, escreveu Szijjártó.