Hong Kong continua paralisada por semana de protestos

14 de novembro 2019 - 17:31

Avenidas cortadas por barricadas, linhas de metro e comboio paradas, batalhas campais entre polícia e estudantes nas ruas e universidades. O caos voltou esta semana ao centro de Hong Kong.

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Flash mob no bairro Central de Hong Kong esta quinta-feira. Foto de Jerome Favre/EPA

A Universidade Chinesa de Hong Kong tornou-se esta semana o centro da batalha entre estudantes e polícia. Enquanto os primeiros tomaram uma ponte perto do campus universitário sobre uma autoestrada que é um dos principais acessos da cidade, atirando objetos para interromper a circulação, a polícia procurou retomá-la e para isso carregou sobre os manifestantes, usando gás lacrimogéneo. Isto foi na segunda-feira, mas a situação repetiu-se daí para a frente e todos os dias há batalhas campais pelo controlo da ponte.

O objetivo dos manifestantes que reclamam a demissão do governo, eleições democráticas e a libertação dos presos nos protestos dos últimos meses é paralisar por completo a cidade, e esta semana estiveram muito perto de o conseguir.

Na terça-feira, a polícia anunciou ter batido o seu próprio recorde de balas de borracha disparadas num só dia (1.312) e os voluntários que prestaram apoio médico na universidade contaram nesse dia pelo menos 70 feridos no local, descrevendo o local como uma “zona de guerra”, segundo relata o South China Morning Post.

O responsável policial, Wong Wai-shun, afirmou que os confrontos feriram quatro polícias. Confrontado com as acusações de violência policial na repressão dos protestos — que alguns compararam aos da Praça Tiananmen — Wong refutou as acusações, dizendo que “os desordeiros responderam com objetos pesados, setas e very lights”, acrescentando que “se isto se passasse noutros locais, os agentes teriam aberto fogo”. Ante a insistência dos jornalistas, Wong disse não poder afastar a hipótese de virem a ser disparadas balas reais pela polícia nas universidades, mas afirmou que a polícia “responde sempre com o uso mínimo e necessário da força”, uma opinião contestada por muitas testemunhas da repressão dos últimos meses.

As várias tentativas de mediação do conflito por parte dos professores e da reitoria da universidade acabaram por ser infrutíferas, embora tenham servido para acalmar a violência durante alguns momentos do dia de quarta-feira. “O ódio entre os manifestantes e a polícia está muito entranhado”, lamentou um professor universitário ao SCMP.

Esta quinta-feira os protestos continuaram e fizeram cerca de 50 feridos ao longo do dia, com a cidade a assistir à repetição das batalhas campais e dos disparos de gás lacrimogéneo e cocktails molotov entre polícia e manifestantes. Na universidade, os professores continuaram a tentar mediar  o conflito, sugerindo aos estudantes que abandonassem a ponte sobre a autoestrada em troca da promessa policial de não entrar no campus. Mas os estudantes continuam a exigir a libertação dos colegas presos.

EUA ameaçam retirar estatuto económico especial de Hong Kong se a China intervir

O agravamento da situação em Hong Kong fez regressar a especulação sobre uma eventual intervenção chinesa no território, com o Gabinete de Ligação do governo chinês em Hong Kong a dizer que a cidade “está a cair no abismo do terrorismo”. A reunião do governo liderado por Carrie Lam na noite de quarta-feira adensou os rumores sobre a imposição de um recolher obrigatório para o próximo fim de semana, o que foi entretanto desmentido.

Apesar da lei prever que o governo possa pedir a intervenção dos militares chineses aquartelados na cidade, essa continua a ser considerada uma decisão extrema e que afetaria a reputação internacional da China, para além de corresponder a uma confissão de impotência face à dimensão dos protestos.  

Esta quinta-feira, a comissão do Congresso norte-americano sobre as relações EUA/China ameaçou com a retirada do estatuto económico especial conferido em 1992 a Hong Kong no caso de a China enviar militares para as ruas da cidade. Esse estatuto é o que permite atualmente que o território autónomo esteja a salvo da guerra comercial entre os dois países.

A comissão pediu ainda o alargamento das restrições às exportações por parte de empresas chinesas às suas filiais no território. “O estatuto de Hong Kong como território alfandegário separado, diferente da China continental, está sob pressão”, diz a comissão que analisa as questões do comércio e da segurança nacional entre a China e os EUA. Para o futuro, esta comissão quer que a diplomacia norte-americana estabeleça novos padrões para aferir o grau de autonomia de Hong Kong em relação a Pequim.