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Haiti, revolta contra a corrupção no meio da pobreza

As irrupções de revolta contra a pobreza têm sido permanentes. Em 2018, julho, outubro e novembro foram meses de forte protesto no Haiti. Fevereiro volta a ser um mês intenso devido à corrupção que atingiu os mais altos escalões do Estado. Registaram-se pelo menos sete mortos.
Manifestante haitiano em 2010. Foto de Ben Piven/Flickr

Não se pode dizer que a história recente do Haiti tenha sido pacífica. Vinte anos de ocupação norte-americana no início do século vinte. Trinta anos de ditadura do clã Duvalier em meados do século passado. Depois disso, instabilidade, golpes de estado (1991 e 2001, por exemplo), nova intervenção militar do EUA (1994-5). A este quadro somam-se os desastre naturais: furacões devastadores (Gordon em 1994, Matthew em 2016), terramoto catastrófico em 2010. E a pobreza endémica que atinge o país.

Os últimos 13 anos foram de “pacificação” através de uma força da ONU, a MINUSTAH, presente no país entre 2004 e 2017. Só que a força de pacificação não pacificou. Os militares da ONU foram acusados da introdução da cólera no país através dos soldados nepaleses, viram-se envolvidos em escândalos de abuso sexual de menores e violação, foram responsáveis por vários mortes de civis nas suas intervenções.

Em 2018, julho, outubro e novembro foram meses de forte protesto contra a carestia de vida e contra os aumentos do preço da gasolina. O início de 2019 voltou a ser agitado. Na sequência de uma intervenção policial num conflito sobre terras, a esquadra de Montrouis foi incendiada. Seguiu-se-lhe uma intervenção militar e manifestações por todo o país. A 7 de fevereiro, dia do aniversário da fuga do ditador Jean-Claude Duvalier, o infame Baby Doc, mobilizações espontâneas e barricadas surgiram em muitos pontos do país.

O petróleo é um dos nós centrais do problema: ao aumento dos preços, somou-se a sua escassez por boicote da empresa que importa petróleo em protesto pela dívida estatal. E é o dinheiro do petróleo venezuelano que foi desviado por altos funcionários deste e dos anteriores governos. São estimados 3,8 mil milhões de dólares de fundos de ajuda venezuelana, um caso investigado e provado pelo Tribunal Superior de Contas (em relatório de 29 de janeiro), que colocou em xeque o presidente Jovenel Moïse, no poder há dois anos e agora acusado de participar no esquema. O Petrocaribe programa de venda de petróleo a preços mais baratos e com prazos dilatados, pressupunha que o economizado seria investido no desenvolvimento, educação, saúde, infraestruturas básicas. Foram descobertos desvios nas sucessivas presidencias desde 2008 René Préval, Michel Martelly e Jovenel Moïse numa avaliação de apenas 10% dos projetos. Ausência total de controlo de verbas, aumento de orçamentos não explicados, suspeitas de desvios, favoritismo e muito poucos dos projetos sociais previstos foram realmente construídos.

A raiva provocada pela corrupção num país de fome levou a cortes de estradas, barricadas com pneus a arder, manifestações, assalto a uma prisão e fuga de 78 presos. E repressão e mortos. Sete reconhecidos oficialmente tirando outros que são referidos pelas forças da oposição.

A tensão aumentou ainda mais quando a polícia informou que prendeu um grupo de mercenários com cinco americanos, dois sérvios e um haitiano que traziam várias metralhadoras, pistolas, coletes à prova de bala, drones e telefones. A oposição acusa o governo de os ter contratado para atentar contra si e contra os manifestantes.

Jean-Henry Céant, o primeiro-ministro, tenta travar os protestos com medidas de urgência: luta contra corrupção e contrabando, corte no orçamento dedicado aos serviços do próprio primeiro-Ministro, fim dos privilégios de altos funcionários, tentativa de negociar com os privados um aumento do salário mínimo. Mas a revolta popular no Haiti continua.

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