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Há 50 anos em Lisboa: Manifestação contra a guerra do Vietname

No dia 21 de fevereiro de 1968, realizou-se em Lisboa uma manifestação contra a Guerra do Vietname. Naquele tempo, participar numa manifestação em Portugal podia significar a prisão, bárbaras agressões e/ou longas torturas. Por Carlos Santos.
Imagem do comunicado de convocação da Manifestação de 21 de fevereiro de 1968 contra a guerra do Vietname, disponível no site Ephemera, biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira
Imagem do comunicado de convocação da Manifestação de 21 de fevereiro de 1968 contra a guerra do Vietname, disponível no site Ephemera, biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira

Na imagem em anexo, vê-se o fac símile do comunicado de convocação da manifestação de 21 de fevereiro de 19681.

A manifestação foi marcada para as 18 horas do dia 21 de fevereiro junto à embaixada dos Estados Unidos da América (EUA) em Lisboa, que se situava então na avenida Duque de Loulé. Na convocatória, previa-se ainda a entrega de um abaixo-assinado na referida embaixada.

No título, o panfleto assinalava que 21 de fevereiro era o dia de Solidariedade Mundial com o Povo do Vietname. O texto começava por destacar que “Nos confins da Ásia, há um povo que luta de armas na mão pela sua Liberdade”, elogiava a luta do povo vietnamita e acusava o colonialismo e o imperialismo.

Em texto publicado no livro “1968 Salazar cai da cadeira, Marcelo senta-se”, João Isidro afirma2 que esta manifestação foi uma “iniciativa de estudantes, que convocaram outros estudantes para um protesto que tinha como principal palavra de ordem 'Vietname para o Vietcong'”. O autor refere que na universidade “tinham-se criado Comités Vietname que recrutavam muitos estudantes que haviam participado na campanha de solidariedade com as vítimas das inundações na região de Lisboa”3.

A manifestação contra a guerra do Vietname em Portugal seguia as passadas do movimento estudantil em muitos países da Europa e do Mundo, num tempo em que a Solidariedade com o Povo do Vietname marcava a agenda política. 1968, tinha começado com a ofensiva do TET no Vietname. A luta contra a guerra e a invasão norte-americana no Vietname iria marcar todo o ano de 1968

Em Portugal, o ano de 1968 foi o início do ascenso de um movimento de luta que iria levar à Revolução de Abril de 1974. No entanto, foi marcado sobretudo pela morte de Salazar, depois da queda da cadeira, pela sua substituição por Marcelo Caetano e pelo início do que viria a chamar-se “primavera marcelista”.

Em 1968, houve no entanto outras manifestações e lutas em Portugal. De salientar a greve da mala na Carris, em junho desse ano, que marcaria decididamente o ascenso de luta do movimento trabalhador em Portugal.

As manifestações e concentrações contra a guerra do Vietname, que se multiplicariam nos anos seguintes, tinham, em Portugal, um papel essencial de mobilização, também e sobretudo, para a luta contra a guerra colonial e contra o fascismo.

João Isidro, no referido artigo, afirma que a manifestação de 21 de fevereiro de 1968 foi violentamente reprimida e que essa repressão trouxe uma novidade: “a polícia de choque usava cães pela primeira vez, apanhando de surpresa os manifestantes mais experientes”4.

Independentemente do aumento da repressão de cada vez mais pessoas, que foi um facto, 14 meses depois desta manifestação, em abril de 1969, “estoira uma crise estudantil em Coimbra, reprimida de forma brutal pelo Governo de Marcelo Caetano”5. A partir daí e até 25 de Abril de 1974, o movimento estudantil não parou de crescer e de se ampliar.

No mundo, 1968 deixou marcas para sempre.


Notas:

1 Imagem disponível no site Ephemera, biblioteca e arquivo de José Pacheco Pereira.

2 O texto “Uma manifestação contra a guerra do Vietname em Lisboa” de João Isidro, foi publicado no livro “1968 Salazar cai da cadeira, Marcelo senta-se”, da coleção os Anos de Salazar, coordenada por António Simões do Paço.

3 As inundações de 1967 vitimaram centenas de pessoas na região de Lisboa no dia 25 de novembro de 1967. Nos dias seguintes, centenas de estudantes universitários e liceais participaram numa grande campanha de solidariedade com as vítimas da tragédia. Muitos jovens perceberam então que a chuva intensa só tinha vitimado tantas pessoas devido à miséria em que elas viviam e que o regime ditatorial era o grande responsável pela miserável situação do país.

4 Idem

5 Idem

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