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Guterres quer taxar poluidores, Gustavo Petro exige fim da guerra às drogas

Na Assembleia Geral da ONU, António Guterres defendeu um imposto extraordinário para compensar os países afetados pela crise climática. Presidente da Colômbia acusou a guerra às drogas de ser uma "guerra contra a floresta e as pessoas".
António Guterres na Assembleia Geral da ONU esta terça-feira.

No discurso proferido na abertura da sessão da Assembleia Geral da ONU esta terça-feira em Nova Iorque, o secretário-geral da organização defendeu que "os poluidores têm de pagar" pelos estragos causados pelas cheias, vagas de calor e outros fenómenos climáticos extremos que assolam os países mais vulneráveis e que não contribuíram para as alterações climáticas.

"Hoje, lanço um apelo a todas as economias desenvolvidas para taxarem os lucros extraordinários das empresas de combustíveis fósseis", afirmou António Guterres, acrescentando que "esses fundos devem ser redirecionados de duas formas: para os países que sofrem perdas e danos causados pela crise climática e para as pessoas que se debatem com o aumento dos preços dos alimentos e da energia". Mas foi mais longe e defendeu que a intervenção dos governos deve ir além das empresas poluidoras, mas também aos negócios que as sustentam, incluindo "os bancos, fundos de capital privados, gestores de ativos e outras instituições financeiras que continuam a investir e a apoiar a poluição carbónica".

Num discurso considerado pelo Guardian como "o mais urgente e sombrio" até hoje, Guterres começou por avisar que "o nosso mundo está num grande sarilho", prevendo "um inverno de descontentamento global no horizonte, uma crise do custo de vida a grassar, a confiança a esboroar-se, as desigualdades a explodir e o nosso planeta a arder".

"Temos o dever de agir e estamos bloqueados numa disfunção global colossal. A comunidade internacional não está pronta nem disposta a enfrentar os grandes e dramáticos desafios do nosso tempo", acusou Guterres, que ja tinha alertado para o "vício" dos combustíveis fósseis por parte dos governos e classificado os novos investimentos em petróleo, carvão e gás como uma "loucura económica e moral". Desta vez, apelou aos líderes mundiais para porem fim à sua "guerra suicida contra a natureza".

"Temos encontro marcado com o desastre climático. Os verões mais quentes de hoje podem vir a ser os verões mais frescos amanhã. Os choques climáticos que acontecem uma vez na vida podem em breve ocorrer uma vez por ano. E a cada desastre climático, sabemos que as mulheres e raparigas são as mais afetadas. A clise climática é um caso de estudo da injustiça moral e económica", alertou.

“É hipócrita declarar guerra contra as drogas"

No seu primeiro discurso na ONU enquanto chefe de Estado, o presidente colombiano Gustavo Petro deixou um apelo aos países latino-americanos para que "unam forças para acabar com a guerra às drogas na região". E comparou os danos para a saúde causados pela cocaína aos do carvão e do petróleo. “A decisão do poder ordenou que a cocaína é o veneno e deve ser perseguida, mesmo que só cause mortes por overdose e pelas misturas causadas pela sua clandestinidade estabelecida.”, enquanto o carvão e o petróleo "devem ser protegidos, mesmo que os seus usos levem a humanidade à extinção”, contrapôs.

Para Gustavo Petro, a guerra às drogas "é um pedido do Norte" e a planta da coca, em tempos “sagrada para os incas”, leva hoje à prisão aqueles que a cultivam. “Exijo daqui, da minha América Latina ferida, que acabem com a guerra irracional contra as drogas. Para reduzir o uso de drogas não são precisas guerras, somos todos precisos para construir uma sociedade melhor: uma sociedade mais solidária, mais afetuosa, onde a intensidade da vida salva dos vícios e das novas escravidões. Querem menos drogas? Pensem em menos lucros e em mais amor. Pensem num exercício racional de poder”, prosseguiu o Presidente da Colômbia.

“É hipócrita declarar guerra contra as drogas, quando na verdade é contra a floresta e contra as pessoas”, apontou Gustavo Petro, lembrando que “os responsáveis pelos vícios em drogas não são as florestas, mas a falta de racionalidade do poder mundial” e que os Estados Unidos "verão 2,8 milhões de jovens morrer de overdose devido ao fentanil, que não é produzido na América Latina”.

Intervención del Presidente Gustavo Petro ante la 77° Asamblea General de la ONU - 20/sept/2022

Num discurso voltado para a proteção da floresta, acusou os poderes mundiais de hipocrisia. "A floresta queima, senhores, enquanto vocês fazem guerra e brincam com ela. A floresta, o pilar climático do mundo, desaparece com toda a sua vida. A grande esponja que absorve o CO2 planetário evapora. A floresta salvadora é vista no meu país como o inimigo a ser derrotado, como a vegetação a ser extinta. O espaço da coca e dos camponeses que a cultivam, porque não têm mais nada para cultivar, é demonizado. Para vocês, o meu país interessa-vos apenas para lançar venenos nas suas florestas, levar os seus homens para a cadeia e atirar as suas mulheres para a exclusão. Não estão interessados na educação da criança, mas em matar a sua floresta e extrair o carvão e o petróleo das suas entranhas. A esponja que absorve os venenos não serve, preferem lançar mais venenos na atmosfera", lamentou.

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