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Guerra na Ucrânia agrava situação sanitária de setores marginalizados

O conflito armado que mantém o leste da Ucrânia à beira de uma catástrofe humanitária, segundo organizações internacionais, inclusive limita ainda mais o acesso aos serviços de saúde pública pelas pessoas viciadas em drogas, a população cigana e os que vivem com HIV/sida. Por Pavol Stracancsky, da IPS
Um assistente social no apartamento de um viciado em drogas, em Donetsk. Foto: Natalia Kravchuk/International HIV/sida Alliance Ucrania/IPS

O conflito, que começou em abril de 2014 entre os separatistas pró-russos e as forças ucranianas, afetou mais de cinco milhões dos 45 milhões de habitantes do país. A Organização Mundial de Saúde (OMS) e organismos de direitos humanos alertaram que cerca de 1,4 milhões de pessoas são “altamente vulneráveis” devido ao deslocamento, à falta de rendimento e pela deterioração dos serviços essenciais, como no caso dos cuidados de saúde.

Os combates e as medidas impostas pelos dois lados interromperam ou cortaram totalmente o fornecimento de abastecimentos de produtos médicos. Alguns hospitais foram destruídos e outros sofrem constantes cortes de energia e água, além da escassez do pessoal médico que foge do conflito.

A falta absoluta de vacinas ameaça provocar focos de doenças como poliomielite e sarampo. A escassez de medicamentos vitais e a impossibilidade de fazer um acompanhamento dos pacientes faz temer pela sorte das pessoas que vivem com o vírus HIV ou sofrem de sida ou tuberculose.

Os últimos dados da Organização das Nações Unidas (ONU) indicam que o conflito já deslocou mais de 700 mil pessoas dentro do país, e a esse número se acrescentariam até outras 100 mil por semana. Eles vivem em condições desesperadas, o que agrava o risco sanitário e a possibilidade de propagação de enfermidades infecciosas, como a tuberculose. E alguns setores da população enfrentam obstáculos adicionais para terem acesso à atenção à saúde.

Os últimos dados da ONU indicam que o conflito já deslocou mais de 700 mil pessoas dentro do país, e a esse número se acrescentariam até outras 100 mil por semana. Eles vivem em condições desesperadas, o que agrava o risco sanitário e a possibilidade de propagação de enfermidades infecciosas, como a tuberculose. E alguns setores da população enfrentam obstáculos adicionais para terem acesso à atenção à saúde

A Ucrânia tem uma das piores epidemias de HIV/sida no mundo, principalmente pelo uso de drogas injetáveis. Mas, ao contrário de muitos Estados da Europa oriental, o país aplica há mais de uma década uma elogiada política de redução de danos que manteve a doença sob controle. Os utilizadores de drogas podem recorrer à terapia de substituição de opiáceos (TSO) em todo o país, o que é importante no leste da Ucrânia porque a maioria dos viciados em drogas injetáveis é oriunda das regiões de Luhansk e Donetsk, no leste do país.

As organizações que trabalham com os consumidores de drogas dizem que o conflito poderia complicar e até suspender o acesso ao tratamento nessas regiões em questão de semanas, na medida em que se esgotam as reservas de metadona e buprenorfina utilizadas no tratamento. A Aliança Internacional de HIV/sida da Ucrânia, que dirige muitos centros TSO e outros programas de redução de danos, alertou que os medicamentos antirretrovirais e para as terapias substitutivas estarão esgotados já no mês de fevereiro.

Mais de 300 pacientes em TSO em Donetsk e Luhansk deixaram de receber o tratamento desde o começo do conflito, e outros 550 pacientes correm esse risco se não for renovado imediatamente o fornecimento de metadona. Funcionários da ONU e médicos em Donetsk confirmaram à IPS que as clínicas só têm metadona para mais algumas semanas.

“Há graves problemas com o fornecimento de medicamentos. Os últimos envios foram em setembro, e alguns pacientes tiveram que abandonar o tratamento. Muitos o seguiam há dez anos e nesse período forjaram uma nova vida e deixaram para trás o seu passado, às vezes criminoso. Foi absolutamente trágico para eles quando deixaram o tratamento”, afirmou um médico que pediu para não ser identificado.

A fonte acrescentou que 60% dos pacientes que recebem TSO são seropositivos e que muitos recorrem a drogas ilícitas e compartilham seringas, e como agora o tratamento está suspenso existe o temor de propagação da doença, que, juntamente com a hepatite C, está generalizada entre os viciados, bem como a tuberculose.

Andriy Klinemko, um paciente em TSO, teve que fugir com sua mulher, de Donetsk para Dnipropetrovsk, no centro da Ucrânia, quando um bombardeamento destruiu a sua casa no último verão boreal. “Os pacientes do leste em TSO são obrigados a mudarem-se, mas nem todos podem e inclusive os que o fazem podem não conseguir continuar o tratamento porque não há dinheiro para os programas. A situação é ruim e no momento não vejo como melhorar”, lamentou.

A comunidade cigana no país também tem problemas de acesso à assistência sanitária. Historicamente, os seus aproximadamente 400 mil integrantes, como acontece noutros países, sofrem uma discriminação generalizada, que inclui o emprego e a educação. Além disso, muitos ciganos não têm documentos de identidade oficial o que é um obstáculo para conseguir atenção à saúde, enquanto a sua pobreza generalizada também impede que tenham acesso aos serviços pagos, bem como o seu isolamento, já que muitas das suas comunidades estão longe dos centros de saúde.

“Mesmo antes do conflito os ciganos na Ucrânia tinham acesso limitado aos serviços de saúde preventiva e curativa. Como resultado, as crianças têm uma cobertura muito baixa de vacinação. Além disso, as taxas de tuberculose e outras doenças são mais altas” nessa população, pontuou a médica Dorit Nitzan, chefe da OMS na Ucrânia. A discriminação também agrava o problema, segundo Zola Kondur, do grupo de direitos dos ciganos Chiricli. “Quanto à saúde, os ciganos estão entre os mais vulneráveis do país. São tratados mal por causa da sua origem étnica”, afirmou.

Mas algumas organizações denunciam que, desde que os grupos separatistas tomaram o controle da região, os ciganos sofreram uma repressão violenta, sistemática e, às vezes, fatal.

Um informe publicado este mês pelo Grupo de Proteção dos Direitos Humanos Kharkiv, após uma missão internacional para analisar a situação na Ucrânia, diz que os ciganos das regiões sob controle dos separatistas “foram submetidos a agressão aberta por parte dos combatentes, que realizaram uma autêntica limpeza étnica” contra a comunidade. Muitos fugiram e converteram-se em refugiados internos.

“Como em todas as crises, sem atenção especial os grupos marginalizados e vulneráveis correm maior risco. Na Ucrânia, muitos ciganos carecem de documentação civil e, portanto, não podem registar-se com refugiados internos e não estão incluídos na prestação de nenhum serviço de saúde”, ressaltou Nitzan.

Artigo de Pavol Stracancsky, da IPS, publicado por Envolverde/IPS

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