A Alemanha e a Grécia são parceiros na UE e NATO, mas as consequências da ocupação alemã no período nazi são ainda uma parte importante das relações entre os dois países. Porque será?
A 6 de abril de 1941 a Wehrmacht marchou sobre a Grécia e ocupou a parte continental inteira em menos de um mês. No fim de maio, e apesar das pesadas perdas, as tropas aerotransportadas alemãs conquistaram Creta, a última parte livre da Grécia. A defesa de uma tradição centenária de resistência partiu de amplos setores da população civil de Creta. Surpreendidos, os atacantes reagiram com crueldade e executaram centenas de pessoas. Ao longo da ocupação, dezenas de milhares de civis gregos foram brutalmente eliminados, entre eles muitas mulheres e crianças, sem contar com os 60 mil judeus deportados e assassinados. O saque alemão dos recursos do país foi uma das razões principais para a fome epidémica; Só no primeiro inverno da ocupação, pelo menos 100 mil gregos – segundo as estimativas mais prudentes – sucumbiram à fome. Há estimativas bem mais altas, que falam de um total de 300 mil a 600 mil vítimas. A somar a isto veio a queda acentuada da taxa de natalidade. Quando os alemães retiraram, um em cada três gregos sofria de doenças infecciosas. Mais difícil de calcular são as perdas devidas à hiperinflação, bem como a infra-estrutura devastada pela rapina; sem falar no facto da Grécia ocupada ter de pagar pelas despesas dos ocupantes.
Então os alemães deixaram a Grécia exangue. Como aconteceram esses empréstimos forçados que estão a ser disputados?
Foi reconhecido de facto que se tratou efetivamente de um empréstimo. Um reembolso, embora sem juros, foi prometido em acordos vinculativos sem que fosse determinada uma data para o fazer. Esses empréstimos de ocupação foram um caso único e não devem ser comparados à dívida alemã de guerra noutros países.
A partir do segundo ano de ocupação, os ocupantes exigiram ao Banco Nacional da Grécia – a acrescer aos custos de ocupação "autorizados" pela Convenção de Haia no que diz respeito às Leis e Costumes de Guerra – montantes adicionais para as suas operações de guerra no Mediterrâneo. Desde março de 1942 até à retirada alemã em outubro de 1944, o Banco Nacional teve de agir como "credor", e fazer transferências mensais – às vezes várias – de montantes consideráveis na forma de "empréstimos" para uma conta especial da Wehrmacht. No entanto, a inflação era galopante e a taxa de câmbio variava diariamente. Isso torna muito difícil calcular hoje o valor desses "empréstimos". Outro elemento de incerteza é que a força ocupante transferia quase todos os meses as somas que sobravam para uma conta do Banco Nacional. Por outras palavras, foi reconhecido de facto que se tratou efetivamente de um empréstimo. Um reembolso, embora sem juros, foi prometido em acordos vinculativos sem que fosse determinada uma data para o fazer.
Esses empréstimos de ocupação foram um caso único e não devem ser comparados à dívida alemã de guerra noutros países.
Mas há estimativas sérias quanto ao montante total dos empréstimos?
Eu fui o primeiro a encontrar um memorando nos arquivos federais alemães que apresentavam cálculos para utilização futura, feitos por especialistas nazis no início de 1945, mostrando o quanto iria ascender "a dívida remanescente do Reich a Grécia". Tudo somado, dava 476 milhões de marcos. A taxa de câmbio entre o reichmark e o dólar era de 2 para 1. É interessante que os deputados do regime nazi tenham calculado este número para consumo interno. Nos arquivos do banco Nacional encontrei outros dois cálculos, também de 1945. O mais detalhado avalia o preço dos empréstimos de ocupação em 228 milhões de dólares. Isto coincide com os cálculos alemães. Credores e devedores chegaram, ao mesmo tempo, aproximadamente ao mesmo número. Não poderia ser essa a base negocial para os dois lados que hoje se opõem?
E qual foi o resultado de tudo isto?
Muitos gregos calcularam juros simples e compostos, e nalguns casos chegaram a quantias astronómicas. Sempre adverti os primeiros-ministros gregos e outros políticos contra as reclamações maximalistas. Embora no que toca a reparações, a Grécia tenha provavelmente a maior reivindicação, está fora de questão que a Alemanha volte a rever essa matéria e abra esse precedente. Mas esse risco não existe se o governo alemão abandonar a abordagem defensiva e concordar em sentar-se à mesa de negociações para examinar as várias perspectivas sobre os empréstimos de ocupação baseadas nesta documentação.
Mas porque é que até hoje a Grécia não conseguiu ser reembolsada?
Este é o único assunto em que todos os partidos parlamentares – dos fascistas aos comunistas ortodoxos – estão de acordo: este dinheiro tem de ser reclamado.
Desde o Acordo de Dívida de Londres em 1953 — uma moratória das reparações negociada pelos Estados Unidos – até 1990, o lado alemão dizia que era cedo demais, dado que a guerra foi travada por uma Alemanha unida. Depois, com a reunificação alemã, Helmut Kohl e Hans-Dietrich Genscher (respectivamente, o chanceler e o vice-chanceler e ministro dos Negócios Estrageiros) disseram que era então demasiado tarde. O assunto pertencia ao passado. Essa posição continuou vigente até hoje. O que incomoda muitos gregos, e a mim enquanto cidadão grego e alemão. O meu país materno está histórica, financeira e moralmente em dívida com o meu país adoptivo.
Este é o único assunto em que todos os partidos parlamentares – dos fascistas aos comunistas ortodoxos – estão de acordo: este dinheiro tem de ser reclamado.
Os gregos sentem que a Alemanha os leva a sério neste assunto?
Infelizmente, não. E isso causa desentendimentos. Os gregos até gostavam da Alemanha, apesar do período horrível da ocupação, que foi pior do que em qualquer outro país não-eslavo. Mas desde o aparecimento da crise, alguns grupos de media alemães dedicaram-se a fazer comentários irónicos e caricaturas que retratam os gregos como batoteiros e chantagistas; que agora de repente – "porque estão falidos" – levantam "alegados" assuntos sobre a culpa alemã e as dívidas da guerra. Ainda assim, desde 1945 os gregos têm levantado este assunto, embora sem sucesso. E quando os media alemães escrevem demagogicamente sobre os "batoteiros da zona euro" que já deviam ter vendido as suas ilhas, estão a fazer o jogo dos demagogos domésticos. Porque tudo isso faz regressar lembranças de 1941 a 1944, quando a política de ocupação era determinada pelos mesmos estereótipos e Creta ia ficar para sempre em mãos alemãs, um posto avançado do futuro império nazi.
Hagen Fleischer estudou História e Media e Comunicação na Freie Universität Berlin, e investigou durante décadas a história alemã e grega. Vive na Grécia desde 1977 e dá aulas nas Universidades de Creta e Atenas. Já representou a Grécia em muitas conferências e projetos de investigação.
Publicado originalmente no programa de notícias Tagesschau da tv pública alemã ARD. Traduzido por Luís Branco para o esquerda.net a partir da tradução de Maria Pervolaraki para o site Analyze Greece.