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Grécia: Só a campanha acabou

Há uma clara noção de que a possibilidade de alcançar uma maioria absoluta poderá estar dependente duns poucos milhares de votos. Por isso, ninguém tira o pé do acelerador. Por Nuno Moniz, de Atenas.
Comício do Syriza na praça Omonoia: percebe-se a confiança que paira no ar.

Este sábado é dia de reflexão. Ontem, na ressaca do comício de Atenas, as ações não pararam. Há uma clara noção de que a possibilidade de alcançar uma maioria absoluta de votos poderá estar dependente duns poucos milhares de votos. Por isso, ninguém tira o pé do acelerador. Durante o dia multiplicaram-se ações de campanha, e à noite várias sessões de esclarecimento e pequenos comícios aconteceram um pouco por todas as zonas de Atenas, simultaneamente. Ao fim da tarde, em Ilioupoli, a sala transbordou para ouvir seis dos candidatos pela zona. Não é preciso entender grego para perceber a confiança que paira no ar. O Syriza sabe o que quer, e sabe perfeitamente que está muito próximo de alcançar. E por isso, ninguém se mostra relaxado. Além da confiança, os discursos são perfeitas lanças. A contínua e nunca ausente explicação do programa tem mais do que nunca interpelações diretas à Nova Democracia, aos partidos da esquerda que pactuaram com o memorando da troika, e aos dirigentes europeus que continuam a sua campanha de medo e de chantagem. A reação de quem ouve é empolgante. “Já vêm tarde”, diziam-nos.

O Syriza sabe o que quer, e sabe perfeitamente que está muito próximo de alcançar.

Com troika, a Grécia já vai no terceiro governo. Não são, nem de perto nem de longe, tantas as pessoas que se deixarão ir nos jogos taticistas dos partidos do sistema gregos ou de dirigentes europeus. Ao mesmo tempo, as conversas várias com quem diz ir votar no Syriza amanhã têm sempre um pormenor de toda a relevância: sem exceções, é referida a necessidade de mais forças na Europa, principalmente no Sul, que tenham mais capacidade de mobilização e de ganhar.

Os timings de Draghi

Como já foi dito, ao terceiro governo da troika, já é pouca a gente que se deixa enganar com as ideias que aparecem na véspera. Este projeto de quantitive easing anunciado pelo Banco Central Europeu exclui a Grécia mas, mesmo conseguindo a elegibilidade, terá de ser através de mais um memorando da troika.

O timing de Draghi não poderia ser menos inocente. Primeiro, porque este é um plano que, a ser sério, não demorou pouco tempo a ser pensado e executado, o que significa que estar-se-ia à espera do momento certo para avançar com ele.

A ideia de Draghi e de outros responsáveis europeus, de que se poderá bloquear a ascensão das forças de esquerda na Europa, pode ajudar um bocadinho, mas corre o risco de criar um bolha, a qual Portugal e os outros países intervencionados não se podem dar ao luxo de que arrebente. E arrebentará certamente. Basta pensar que o problema da dívida é também um problema da sua sustentabilidade, que não é resolvido com injeção de dinheiro, porque o problema de fundo continuará sempre: sem procura interna, sem desenvolvimento económico e políticas de emprego, a sustentabilidade da dívida pública estará sempre dependente do BCE. Portanto, tanto na Grécia como em qualquer outro país intervencionado, sabe-se perfeitamente que, embora isso possa permitir uma pequena redução da dívida pública, esta solução não passa de um artifício. Arrojado, mas um artifício na mesma.

E agora?

Este domingo a Grécia irá a votos, num momento que poderá ser histórico para a esquerda grega e europeia. É dado como certo que o Syriza, a Coligação da Esquerda Radical, irá ser o partido mais votado. As sondagens não são claras sobre a certeza de poder atingir a maioria absoluta no Parlamento. No caso de não conseguir, o Syriza já disse várias vezes que não convidará para o governo qualquer partido que tenha participado nos processos do memorando e em governos de austeridade. Restam poucas opções, é verdade. O Partido Comunista Grego (KKE) afirma que o Syriza e a Nova Democracia e PASOK são a mesma coisa, outros querem um referendo logo após umas eleições, o que é lido como uma maneira de mostrar a sua disponibilidade sem querer o compromisso.

As sondagens não são claras sobre a certeza de o Syriza poder atingir a maioria absoluta no Parlamento. 

Portanto, no caso do Syriza não obter maioria absoluto no Parlamento, a “bola” passará para a Nova Democracia. Pela mesma lógica da aritmética, este também não terá capacidade de atingir a maioria.

Isso significa que, no caso de não haver maioria absoluta para o Syriza, o mais provável é que tenhamos novas eleições dentro de 30 dias.

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Sobre o/a autor(a)

Membro da Comissão Permanente do Bloco de Esquerda. Doutorando em Ciência de Computadores
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