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Grécia: Greve geral contra terceiro memorando

A Grécia está a ser submetida a mais um pacote de austeridade e os trabalhadores paralisam por 48 horas contra a catástrofe da troika. Dezenas de altos quadros do Banco da Grécia demitiram-se para escapar aos cortes nos salários e pensões e o sistema de saúde já deixou de cobrir quem perdeu o emprego.
Apesar da greve ter parado os transportes públicos em Atenas, milhares de pessoas saíram à rua desde o início da manhã. Foto Alexandros Beltes/EPA

Esta terça e quarta-feira os trabalhadores gregos promovem mais uma greve geral em protesto contra o "terceiro memorando", um pacote de 13,5 mil milhões de euros que a troika emprestará contra a aprovação de 150 medidas que irão agravar ainda mais a situação social no país. Entre elas estão cortes salariais de mais 1,4 mil milhões, aumento da idade da reforma para os 67 anos, cortes na saúde de 1.1 mil milhões e subida de impostos no valor de 3.9 mil milhões.

O site keep talking greece fala da proposta de cortes de 5% nas pensões entre 1000 e 1500 euros, 10% até 2000 euros e 15% acima desse valor.  As prestações sociais para as pensões mais baixas passariam a ser pagas a maiores de 65 anos e prevê-se o corte nas pensões de deficientes. Os funcionários públicos e municipais verão cortado até 40% do salário, para além de perderem os subsídios de natal e férias, tal como os pensionistas.

Enquanto o governo de Samaras repete a chantagem, dizendo que a Grécia só tem dinheiro até dia 16 de novembro, cada vez mais gente se apercebe que empréstimo da troika servirá para recapitalizar a banca e para pagar aos credores, ou seja, à banca do centro da Europa. No Parlamento, o Governo da troika - que junta a Nova Democracia, o PASOK e a Esquerda Democrática - precisa de contar com o apoio de 151 deputados na votação do Orçamento, que deverá ter lugar no domingo, véspera da reunião do Eurogrupo, enquanto que o pacote de austeridade será votado esta quarta-feira. Mas mesmo sem os votos da Esquerda Democrática e de alguns dissidentes do PASOK, Samaras pode conseguir maioria parlamentar para aprovar o plano de cortes.

Panos Skourelis, porta voz do maior partido da oposição, o Syriza, afirma que "estas medidas podem ser aprovadas mas não poderão aplicar-se porque os limites da tolerância dos gregos foram já ultrapassados". Skourelis afirma ainda que "falta ao governo a legitimidade política para aprovar medidas que prometeu renegociar durante a campanha eleitoral de junho e que irão aniquilar o país", enquanto reclama por eleições antecipadas.

Greve geral abre semana de contestação na Europa

A Grécia assiste esta semana a uma vaga de greves que tem o ponto alto esta terça e quarta-feira. Começou na segunda, com o metro e os comboios urbanos e prossegue com o resto dos transportes públicos, os táxis, a navegação e os controladores aéreos, estes em greve parcial. Embora condicionadas pela greve dos transportes, estão a decorrer manifestações no centro da cidade, junto ao Parlamento barricado pela polícia. Hospitais, escolas, bancos, serviços públicos serão os setores mais afetados pela paralisação.

As duas centrais sindicais - ADEDY e GSEE, que representam o setor público e o privado - organizam uma manifestação conjunta e a central sindical comunista PAME organiza a sua própria manifestação, que converge depois com a outra junto ao Parlamento.

Corrida às reformas antecipadas no Banco da Grécia e colapso da saúde pública

Uma notícia divulgada esta semana dá conta do êxodo de altos funcionários do Banco da Grécia, para escaparem aos cortes de salários e pensões das empresas do setor público. Ao todo serão cerca de quarenta quadros que já apresentaram a demissão e irão assim escapar ao limite salarial máximo de 2900 euros líquidos, embora se mantenham os bónus e outros extras.

No sistema de saúde, a carência de meios está a deixar boa parte da população sem acesso a cuidados de saúde. Uma reportagem do New York Times acompanhou um serviço clandestino de atendimento médico, que recebe desempregados a quem é pedido o valor total dos tratamentos nos hospitais públicos. Com a troika, a partir de julho de 2011 quem perde o emprego só tem direito a proteção de saúde pelo prazo de um ano.

"Hoje, na Grécia, estar desempregado significa a morte", disse Kostas Syrigos, chefe do maior serviço de oncologia da Grécia, no Hospital Geral Sotiria em Atenas. "Estamos caminhando para a mesma situação em que os Estados Unidos estavam, na qual, se você perde o emprego e não tem seguro de saúde, você deixa de ter direito a qualquer atendimento."

Syrigos contou ao diário norte-americano o que sentiu ao receber uma paciente desempregada a quem tinha sido diagnosticado um cancro da mama um ano antes. O tumor era agora do tamanho de uma laranja e tinha rompido a pele, com a ferida a ser enxugada com guardanapos de papel. "Toda a gente chorou. Coisas como essas são descritas nos livros didáticos de medicina, mas a gente nunca via em primeira mão porque, até agora, qualquer pessoa que adoecesse neste país sempre podia ser atendida", recorda Syrigos.

Esta desempregada foi encaminhada para o médico por um movimento clandestino que atende quem não tem seguro, depois de ter sido informada pelos médicos que o tratamento custaria mais de 30 mil euros. "Se eu não pudesse vir aqui, não faria nada", ela comentou. "Hoje, na Grécia, as pessoas precisam combinar com elas mesmas que não vão ficar muito doentes." O cardiologista Giorgios Vichas, que fundou em janeiro esta "rede do tipo Robin Hood" assume as dificuldades de mantê-la. "Em algum momento, as pessoas não vão mais poder doar, devido à crise. É por isso que estamos pressionando o Estado para que volte a assumir a responsabilidade pela saúde", afirma.
 

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