Golfo do México: Peixes e petróleo

01 de novembro 2010 - 15:30

O petróleo que flutua nas águas norte-americanas do Golfo do México é um remanescente do derramamento da empresa British Petroleum (BP). Mas ali é possível pescar. Por Dahar Jamail, correspondente da IPS.

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As águas marinhas cobertas pelo petróleo derramado pela BP perto de Southwest Pass, na Louisiana. - Foto de Erika Blumenfeld/IPS

Nova Orleães, Estados Unidos, 1º de novembro (Terramérica).- Enormes manchas de petróleo aparecem à simples vista, sobrevoando o delta do Rio Mississippi. Mas as autoridades do Estado de Lousiana autorizam a pesca em boa parte dessa área. O Terramérica percorreu a área em avião no dia 23. Quatro dias antes, o coordenador federal da limpeza do derramamento causado pela multinacional British Petroleum (BP), Paul Zukunft, declarou que havia pouco petróleo recuperável na superfície do Golfo do México.

O petróleo começou a derramar no dia 20 de Abril, quando a plataforma de exploração Deepwater Horizon, que a BP arrendava à empresa suíça Transocean, explodiu e, dois dias depois, afundou. Apenas em Julho foi possível deter o derramamento. Para alguns, foi o mais grave da história, embora ainda seja difícil estimar quanto petróleo se misturou nas águas.

A East Bay e a West Bay são duas baías que, como indicam os seus nomes, ficam a leste e oeste do Southwest Pass, o principal canal de navegação na desembocadura do Mississippi, no Golfo do México. Entre as duas, são cerca de 112 quilómetros quadrados de águas. Enquanto East Bay está fechada para a pesca, West Bay estava aberta quando o Terramérica divisou a mancha, embora um dia antes o pessoal de limpeza da BP tivesse informado a um jornal local que ali havia petróleo.

“Literalmente, vão pescar petróleo”, disse durante o voo o activista Jonathan Henderson, da Gulf Restoration Network, ao ver alguns camaroneiros trabalhando na área coberta de petróleo. Também preocupa o efeito dos dispersantes tóxicos que a BP empregou para mandar o combustível para as profundezas.

“O colapso do ecossistema causado pelo uso de dispersantes terá efeitos imediatos e de longo prazo para as tradicionais comunidades pesqueiras do Golfo do México”, disse ao Terramérica Clint Guidry, da Associação de Camaroneiros da Lousiana. “Desde o primeiro dia, há uma operação de relações públicas para diluir a responsabilidade da BP. O departamento de relações públicas disse que a área é segura para pescar e que é seguro comer o que for pescado, mas essa não é a realidade”, afirmou.

As águas de East e West Bay estão sob jurisdição do Departamento de Vida Selvagem e Pesca da Louisiana (LDWF), enquanto a área mais afastada da costa pertence à órbita federal. No mesmo dia em que o Terramérica avistou a mancha de combustível, um piloto do LDWF havia sobrevoado a área e afirmado que não havia petróleo. Este funcionário “deveria ter fechado a baía para pesca” e não o fez, disse Henderson. “Não entendo como pode ter sobrevoado a área e não ver a mancha. É um acto criminoso”, acrescentou.

O Terramérica tentou, sem êxito, comunicar com o funcionário do LDWF. A resposta foi que “não estava disponível para dar declarações”. O site do LDWF tem um número de telefone para informar o encontro de restos de petróleo. Quando o Terramérica ligou, a resposta veio de um centro de chamadas da BP. No dia 23 de outubro, a guarda-costeira indicou que a substância que flutuava numa extensa área de West Bay era um “banco de algas”.

“A guarda-costeira deveria mudar a cor do seu uniforme, porque trabalha para a BP. Sabemos disso desde que tudo começou. Ninguém acredita em nada do que dizem sobre este desastre petrolífero”, disse Dean Blanchard, dono da empresa pesqueira Dean Blanchard Seafood Inc., de Grand Isle. “Eu recolhi um pouco de água e tinha aspecto de petróleo, parecia petróleo, tinha um vermelho amarronzado, como todo o petróleo que vimos misturado com a água”, disse ao Terramérica o pescador David Arenesen, de Venice.

A camada de petróleo “tinha espessura de, pelo menos, 2,5 centímetros e se estendia por milhas”, acrescentou. O pescador Gary Robinson, que se dedica à captura de cavala nas proximidades de Venice, disse ao Terramérica que nunca vira uma mancha como essa, que, segundo ele, tinha mais de 12 centímetros de espessura. A área de East Bay parece estar coberta por um petróleo degradado em várias cores.

Numa viagem de cruzeiro de um mês, investigadores do Estado da Georgia detectaram petróleo no fundo marinho, supostamente do derramamento da BP. Embora funcionários do governo duvidem que haja combustível no leito do mar, os cientistas disseram que as amostras exalavam o mesmo cheiro de “uma oficina mecânica”. Os investigadores pegaram 78 amostras de sedimentos, e apenas cinco continham organismos vivos. Todas deveriam ter formas de vida, disse a cientista Samantha Joye, da Universidade da Georgia. A área afectada é um “cemitério de macrofauna”, acrescentou.

Artigo produzido para o Terramérica, projecto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.