“Gaza é uma zona de morte”, diz porta-voz da UNICEF

04 de dezembro 2023 - 17:37

Deir el-Balah e o centro de Gaza são alvo de ataques israelitas contínuos por ar, terra e mar. Com mais de 80% da população palestiniana deslocada desde 7 de outubro, Israel dá agora indicações para evacuar certas áreas em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza. Tanques avançam no terreno.

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Foto UNICEF/UNI450059/Mohammad Ajjour

O diretor-geral do Gabinete de Comunicação Social do Governo em Gaza afirmou no domingo que mais de 700 palestinianos foram mortos desde que Israel retomou os bombardeamentos, após uma trégua de sete dias que terminou na sexta-feira.

O centro de Gaza está isolado do sul, sob ataques contínuos por ar, terra e até mar. Algumas áreas residenciais em Deir el-Balah foram atingidas, mas as ambulâncias e equipas de resgate não conseguem retirar todos os corpos dos escombros.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros palestiniano avançou que os ataques israelitas no bairro de Shujayea, a leste da cidade de Gaza, destruíram mais de 50 casas.

Mais de metade das casas de Gaza foram atingidas desde 7 de outubro. A maioria dos hospitais de Gaza estão encerrados e as infraestruturas civis em todo o enclave ostentam extensos danos.

A empresa de telecomunicações PalTel informou esta segunda-feira na sua página no Facebook que todos os serviços de telecomunicações (fixos, telemóveis e Internet) na Cidade de Gaza e no norte da Faixa de Gaza estão fora de serviço devido aos bombardeamentos.

Hospitais “inundados com cadáveres”

Munir al-Bursh, diretor-geral do Ministério da Saúde de Gaza, afirmou esta segunda-feira que os hospitais estão “inundados com cadáveres”. “Todos os nossos hospitais não podem mais oferecer qualquer tipo de ajuda às vítimas. Todo o nosso equipamento médico foi destruído pelos soldados da ocupação israelita”, frisou al-Bursh. O responsável alertou que, dentro de algumas horas, o Hospital Kamal Adwan, no norte de Gaza, ficará sem eletricidade. Dos 40 mil feridos, apenas 400 chegaram à passagem de Rafah, no sul, disse o diretor.

Segundo o Ministério da Saúde de Gaza 15.899 palestinianos foram mortos na Faixa de Gaza desde 7 de outubro, sendo que, pelo menos, 70% dos mortos são mulheres e crianças. mais de 6.000 palestinianos considerados desaparecidos no território. A estes números somam-se as mortes de 243 palestinianos, incluindo 65 crianças, registadas pelo Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) na Cisjordânia. Além disso, oito pessoas, incluindo uma criança, foram mortas por colonos israelitas.

Esta segunda-feira foi comunicada a morte de mais dois palestinianos e a detenção de 60 pessoas na Cisjordânia. Em comunicado, a Sociedade dos Prisioneiros Palestinianos afirmou que algumas das detenções se concentraram no campo de refugiados de Dheisheh, em Belém. Desde 7 de Outubro, mais de 3.540 palestinianos foram detidos na Cisjordânia ocupada.

“Gaza é uma zona de morte”

“Para onde quer que olhe, há crianças com queimaduras de terceiro grau, feridas por estilhaços, lesões cerebrais e ossos partidos”, detalhou James Elder, porta-voz global da Unicef, à Al Jazeera de Gaza.

“Mães choram por crianças que parecem estar a horas de distância da morte. Parece uma zona de morte neste momento”, continuou James Elder.

De acordo com o porta-voz global da Unicef, “corremos o risco de ver tantas crianças… morrerem por falta de água, proteção e saneamento”.

James Elder acusa Israel de promover uma "guerra contra as crianças" e defende que o silêncio da comunidade internacional é cúmplice.

O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos reiterou, em comunicado, a necessidade de “silenciar as armas e regressar ao diálogo”.

“O sofrimento infligido aos civis é demasiado para suportar. Mais violência não é a resposta. Não trará paz nem segurança”, realçou Volker Türk.

“Como resultado da condução das hostilidades por parte de Israel e das suas ordens para que as pessoas deixem o norte e partes do sul, centenas de milhares de pessoas estão confinadas em áreas cada vez mais pequenas no sul de Gaza, sem saneamento adequado, sem acesso a alimentos, água e cuidados de saúde suficientes, mesmo quando as bombas caem ao seu redor”, disse o responsável da OMU, acrescentando que “não há lugar seguro em Gaza”.

Volker Türk apontou a necessidade de cumprir o direito internacional: “A hora de mudar de rumo é agora. Aqueles que optam por desrespeitar o direito internacional estão avisados de que a responsabilização será cumprida. Ninguém está acima da lei”, afirmou.

O líder da Organização Mundial da Saúde (OMS) também pediu um cessar-fogo em Gaza. Tedros Adhanom Ghebreyesus referiu que uma equipa da OMS visitou o Hospital Médico Nassar, no sul de Gaza, na sexta-feira, onde inúmeras pessoas procuraram abrigo e pacientes recebiam cuidados no chão. “Estas condições são mais do que inadequadas – inimagináveis para a prestação de cuidados de saúde”, escreveu no X. “Não consigo encontrar palavras suficientemente fortes para expressar a nossa preocupação com o que estamos a testemunhar. Cessar-fogo. AGORA.", vincou.

Tanques israelitas invadem sul

Desde o início da manhã desta segunda-feira, tanques e veículos blindados israelitas começaram a avançar em direção a Khan Younis. Os militares israelitas ordenaram que os residentes dessas áreas começassem a evacuar para oeste, em direção a Rafah.

A mensagem, partilhada na conta militar em árabe no X, exibe um mapa de Gaza dividida em blocos numerados, com algumas destas secções destacadas como zonas a evacuar. O mapa tem um código QR que os civis devem digitalizar para verificar se a sua casa se enquadra num dos setores visados. Isto apesar de o acesso à Internet ser extremamente limitado, depois de mais de um mês de ataques aéreos israelitas a destruírem a infraestrutura do enclave e a imporem um blackout nas comunicações.

Melanie Ward, executiva-chefe da organização humanitária Medical Aid for Palestinians, destacou que o chamado Mapa da Zona de Evacuação de Israel para residentes em Gaza está a causar confusão e pânico.

“Não posso exagerar o medo, o pânico e a confusão que estes mapas israelitas estão a causar aos civis em Gaza, incluindo o meu próprio pessoal. As pessoas não podem correr de um lugar para outro para tentar escapar às bombas de Israel, nem o direito internacional espera que o façam. O que está a ser feito é injusto”, disse Ward numa publicação no X, datada de domingo.

Numa altura em que mais de 80% da população palestiniana já foi deslocada, Israel garante que “não está a tentar deslocar ninguém".

“Não estamos a tentar deslocar ninguém, não estamos a tentar mover ninguém de qualquer lugar permanentemente”, assegurou o porta-voz do exército israelita, Jonathan Conricus, em declarações aos jornalistas.

“Pedimos aos civis que evacuassem o campo de batalha e fornecemos uma zona humanitária designada dentro da Faixa de Gaza”, apontou. A zona em causa é al-Mawasi, a sudoeste de Khan Younis, uma pequena extensão de terra com 6,5 quilómetros quadrados.