G-20: Rumo ao fim da globalização?

11 de novembro 2010 - 2:08

Superado o pânico, voltou a tradição de “lançar os custos sobre os ombros dos demais”. O futuro depende de até onde chegar a política monetária norte-americana. Por Mario Osava, IPS

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O presidente da China, Hu Jintao, na cimeira do ano passado. Foto de Downing Street

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Rio de Janeiro - Uma “grave regressão” da economia mundial, com um foco generalizado de barreiras alfandegárias e ao fluxo de capitais, é um resultado possível diante da previsível incapacidade do Grupo das 20 maiores economias (G-20) de encontrar soluções para a crise actual.

O mais provável é que o G-20 comece a sofrer um “progressivo desmantelamento” na cimeira de Seul, que começa esta quinta-feira, porque se assenta em “coligações que não se sustentam” e os seus membros vivem conflitos insolúveis, segundo Fernando Cardim, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Apenas “uma diplomacia surpreendente” poderia neste momento produzir algum entendimento que abra caminho para “uma solução colectiva”, que é a única saída para a crise económica mundial, afirmou o professor. “Tomara que a visão do abismo” estimule o espírito colaborador dos governantes, acrescentou.

O G-20 reúne as principais potências industriais e de economias emergentes de carácter muito diferente: África do Sul, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Coreia do Sul, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Índia, Indonésia, Itália, Japão, México, Rússia, Turquia e a União Europeia.

De Seul sairá apenas “vento” afirmou Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio e ex-director do Banco Central brasileiro. Ele prevê um período de “estagflação” mundial, com paralisação ou desaceleração da actividade económica nos países emergentes que vinham crescendo, agravando a inflação.

“Após três décadas de globalização, o sistema produtivo de bens e serviços está mundialmente integrado” e sofreria uma séria desordem se um foco de proteccionismo travar os fluxos comerciais e de investimentos, afirmou Mariano Laplane, director do Instituto de Economia da Universidade de Campinas, no Estado de São Paulo.

Para Cardim, isto representaria “o caos” para os países asiáticos “que dependem muito das exportações” e afectaria gravemente as nações latino-americanas vulneráveis ao comércio externo, como Argentina, Chile e México. O Brasil, pelo seu grande mercado interno e uma relativa auto-suficiência, poderia sofrer menos, concordam Cardim e Freitas. Isto é atribuído à “gordura acumulada” pelo país, cujo crescimento económico cairia de 5% para 3% ao ano, disse Freitas.

O pessimismo acentuou-se depois de o banco central dos Estados Unidos (FED) anunciar que vai comprar títulos do Tesouro no valor de 600 mil milhões de dólares nos próximos oito meses, inundando o mercado de dólares e desvalorizando a moeda ainda mais. A reacção geral será o maior controle do fluxo de capitais, como “primeiro passo” e, se isto não der resultado, virá, então, uma onda de proteccionismo comercial, provocando uma “desaceleração da actividade económica” nos países emergentes que estão a sustentar a economia mundial, afirmou Freitas.

Os Estados Unidos buscam solucionar sua crise transferindo os custos para o resto do mundo. A política adoptada pelo FED entre 1979 e 1981, elevando aos poucos as taxas de juros para mais de 20% ao ano para vencer a inflação, submergiu grande parte do mundo numa crise que custou uma ou duas “décadas perdidas” aos países endividados. Agora, o “sinal inverteu”, tenta-se superar a recessão e desvalorizar o dólar para aumentar as exportações, em detrimento dos demais. Mas “os países emergentes hoje possuem meios para se defender”, disse Laplane.

O Brasil, por exemplo, adquiriu elevadas reservas cambiais que se aproximam dos 300 mil milhões de dólares, pagando um custo brutal para mantê-las devido à sua elevada taxa básica de juros, actualmente em 10,75%. Como não conseguiu deter a desvalorização do dólar frente ao real, passou a impor a alguns capitais estrangeiros taxas que aumentaram de 2% para 6%.

O governo terá que adoptar “outras medidas de selecção” de capitais, sem excluir a exigência de que permaneçam no país por determinado tempo, como faz o Chile, afirmou Laplane, reconhecendo, porém, que “tudo será insuficiente diante da avalanche” causada pela medida do FED em relação a um Brasil muito atraente pela sua taxa de juros e o seu crescimento económico. Estados Unidos e China têm as suas razões para manter desvalorizadas as suas moedas, mas as nações emergentes contam com “uma força moral nada desprezível”, pois buscam evitar um “retrocesso económico” desastroso para todos, que daria lugar a uma guerra comercial e ao fechamento do mercado de capitais, acrescentou.

“Nalgum momento prevalecerá a sensatez” em defesa de um “sistema económico aberto e integrado” que o G-2 (China e Estados Unidos) “está a tornar inviável”, previu Laplane. Na realidade, todos os países sempre “procuram transferir problemas internos para fora”, mas são muito diferentes os efeitos da ação das potências, e “hoje todos reagem”, o que abre “um período muito perigoso, com um potencial ilimitado de conflitos”, disse Cardim.

Em 2009, houve um “clima de cooperação” diante do medo de uma depressão económica mundial. Contudo, superado o “pânico”, voltou a tradição de “lançar os custos sobre os ombros dos demais”, disse Cardim. Além disso, o fortalecimento opositor nas eleições parlamentares dos Estados Unidos impede o governo de moderar o seu apetite. “Evitar um colapso” como o de 1930 foi positivo, mas “só Deus sabe o que virá depois do G-20, e será um tempo de tensão e regressão”, concluiu Cardim.

No momento acontece a guerra cambial, expressão criada pelo ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega. O futuro “depende de até onde chegar a política monetária norte-americana”, porque, se a inflação subir muito, forçará a alta de juros, desarmando a armadilha da crescente desvalorização do dólar, segundo Freitas.

A chuva de dólares gerada pela decisão norte-americana acentuará a alta dos preços de produtos agrícolas e minerais, pela especulação que tende a reforçar-se e retomar os níveis de 2007. A inflação e a fome somar-se-ão ao desemprego como ameaças do novo formato que está a assumir a crise económica mundial.